Resenha Livro: O Pacto - Joe Hill


Até onde podemos confiar no próximo? Até aonde aquele que é próximo demonstra realmente ser digno de confiança? O que será que as pessoas acham de nós? "O Pacto", segundo livro de Joe Hill cutuca na ferida dessas questões e através de uma incomum história de amor traz á tona a nossa luta contra o demônio que há em cada um de nós. A alma de Ignatius "Ig" Perrish é construída pelas decepções, e isso é o que talvez torne o personagem principal tão identificável a cada um de nós, principalmente aqueles que vivenciam ou vivenciaram decepções das quais não se consegue deixar para trás.

A história de amor é baseada na relação entre Ig e Merrish Williams que se conheceram muito jovens e viveram uma história de amor que qualquer um diria que seria perfeita e cinematográfica. Porém, quem dera se a única tragédia fosse a separação. Merrish foi estuprada e morta em condições inexplicáveis e toda a culpa recaiu sobre Ig. Claro que, acredito eu, essa história não se assemelhe tanto a realidade quanto pareça, mas essa culpa que recaiu sobre Ig e que ele sabe que não a merece, simplesmente o dominou de tal forma que ele se sente rendido e fraco demais para encontrar algum sentido em sua própria vida após a morte de Merrish. Portanto, o purgatório e a solidão que Ig passou a viver se transformaram não só em algo inerente à sua condição, mas ele simplesmente passou a se conformar com essa porcaria de vida.

Após mais uma de suas bebedeiras, Ig acorda e percebe que criou chifres em suas têmporas. Logicamente a primeira coisa que ele imagina é que apenas se trata de uma alucinação por causa de sua dor de cabeça dilacerante naquela manhã e fruto de sua mente depressiva. Mas as coisas mudam quando ele percebe que os chifres detém o poder de impelir as pessoas a confessaram seus pecados e vontades mais íntimas.

Na road trip de Joe Hill narrando a fuga de Ig de seu medo, da dúvida e de suas decepções latentes em saber o que nunca saberia por causa de seus chifres, passa algo muito pessoal e dramático fazendo "O Pacto" não ser somente uma história de terror e sim um bom drama - indo na contramão do que poderia-se esperar após ler "A Estrada da Noite". Até aonde podemos lutar contras nossos demônios? Até aonde vale a pena lutar por um ideal? Vale mesmo a pena deixar-se levar pelos sentimentos e agouros da vida?

Dividido em quatro partes: Inferno, Cereja, O Predestinado e Evangelho de Mick e Keith, onde cada um trabalha com um período da vida de Ig (exceto em "O Predestinado" que foca mais em Lee), Joe Hill trabalhou em uma história não-linear indo no caminho contrário de "A Estrada da Noite". O livro se trata da luta entre o bem e o mal dentro de cada um de nós, a luta diária que não nos permite dizer o que realmente pensamos de alguém, seja ou por educação ou porque temos receio de ter julgado mal. "O Pacto" na sua forma nua e crua de narração dos fatos, traz diversos sentimentos a tona como inveja, traição, amor, dor, esperança e decepção em cada acontecimento que Ig vivencia e se recorda. Como se o par chifres tivessem lhe aberto os olhos e trazido à tona o seu real eu daquele momento perturbado de sua vida, foi de cada decepção que Ig tirou um aprendizado, como se a dor que ele vive finalmente tivesse o tornado mais forte e essa fosse uma incomum grande lição de vida a todos nós.

Fugindo da velha luta entre o bem e o mal que poderia ser, Joe Hill usou muito bem dos símbolos e metáforas aqui. Nenhum desfecho me pareceu clichê o suficiente para alçar Ig como um sobre-humano, não, Ig é sobretudo um errático ser humano que ganhou um par de chifres, desesperado por encontrar respostas para aplacar sua dor. Apesar da sua "luta" contra Lee Thorneau parecer bem simplista, o seu desfecho simplista deixa bem claro isso.

Apesar de alguns capítulos realmente modorrentos alternados com outros simplesmente emocionantes, e esse vai e vem que pode passar também a impressão de "uma quebra de clima" pra quem quer ver mais das partes da convivência trágica de Ig com seus chifres, para mim o escritor trabalhou de forma correta e mais cadenciada como deveria ser. Talvez a ponta de decepção venha de eu ter pegado o esperando algo na linha do seu livro anterior, mas após uns dias de terminar de ler "O Pacto", percebi o quanto de valor tem Joe Hill na atualidade, em que no seu apenas segundo livro ousou a ampliar seus horizontes deixando de ser um candidato a ser mais um bom escritor do gênero de terror, ao mesmo tempo em que ele se fez nos lembrar de que não é só aquele cara que é sobrinho do Stephen King. =)

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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