Resenha Cinema: Star Wars - O Despertar da Força


A responsabilidade de J.J. Abrams ao assumir a cadeira de diretor do sétimo filme da saga Star Warser era simplesmente mastodôntica, não só porque é Star Wars e sua idolatria são comparáveis facilmente a uma religião - e muito da ideia de "força" é justamente fundamentada nisso -, mas porque ele tinha a responsabilidade de continuar uma franquia que tinha chega a seu fim após quase 30 anos ao mesmo tempo em que se responsabilizava com a missão de recuperar a credibilidade de uma franquia que a nova trilogia (e Jar Jar Binks) foi capaz de abalar às novas gerações. Sabe o "Star Wars nhé"? E sim, eles tinham razão, a trilogia nova em nada foi capaz de capturar a essência e a mágica que uma mera briga de família foi capaz de conseguir com a trilogia clássica nos anos 80.

Carrego "A Ameaça Fantasma" em meu coração por ser o primeiro contato que tive com Star Wars, mas se George Lucas tentou, não conseguiu, ou sequer ele quis tentar. O fato é que ele quis dar uma nova visão a Star Wars, se deslumbrou demais com a tecnologia, descaracterizou o Yoda e desagradou aos fãs. Oras porque mexer em um time que está ganhando? Bom, talvez ele pensou que o jogo já estava ganho. Se baseando nisso, talvez a decisão mais acertada da sua carreira tenha sido passar o bastão a frente e vender a propriedade intelectual a Disney em 2012. E apesar do medo que isso causou e da dominação do mundo que o Mickey já está botando em prática (além de Star Wars, os grandes motivos de você ir ao cinema chamam Pixar e Marvel), o fato é que puta que pariu, a Disney sabe como não rasgar dinheiro.

Os eventos do filme se passam após 30 anos do "Retorno de Jedi" quando Luke Skywalker (Mark Hamill) finalmente derrotou Darth Vader e por consequência o restabeleceu a força. "O Despertar da Força" é sobre a busca pelo desaparecido Luke que se encontra recluso em alguma lugar do universo. Como a escuridão é somente a ausência da luz, logo, primordial, o lado negro da força sempre existirá. Sendo assim, os remanescentes do Império se organizaram na chamada Primeira Ordem e Luke, por ser o último Jedi, é a única esperança para deter o poderoso e intempestivo Kyle Ren (Adam Driver).

A responsabilidade mastodôntica de J.J foi tirada de letra, muito pela escolha acertada na inserção dos personagens clássicos da franquia como Han Solo (Harrison Ford), (a agora General) Léia (Carrie Fischer), C3PO (Anthony Daniels), R2D2 (Kenny Baker) e Luke Skywalker (Mark Hamill) que apesar da sua breve participação, carregaram a responsabilidade de amarrar a trama, aliás, o jogo começou ganho pela nostalgia ao atentarmos somente para esse núcleo do elenco. Isso é fácil. Mas, é justamente na inserção de fortes novos personagens, Kyle Ren, Finn, Rey e BB-8 em que se fundamentava o principal alicerce que o "O Despertar da Força" dependia para ser um sucesso e que fez o longa não ser somente o caça-níqueis que poderia ser. 

Os antes desconhecidos, Rey (Daisy Ridley) e Finn (John Boyega) são a dupla que Star Wars precisava para ganhar o fôlego que a saga precisava. Os dois fortes personagens, um negro e uma mulher, chegaram na hora certa em um mundo que precisa ser despido de preconceitos, e só de saber que Finn foi quase que deletado do pôster chinês do Star Wars chega a me causar nojo. Mas enfim...

Em Rey a trama se desenrola e é a imagem que Léia nunca conseguiu se fundamentar. Rey é corajosa, destemida e lutadora, ela é a força feminina que a saga e que o mundo geek/nerd num todo precisava para enterrar aquela visão por muitas vezes machista e sexista em ver a Princesa Léia de biquini e não como uma heroína. Já em Finn se encarrega do o lado mais humano da saga, através dele pela primeira vez entramos na mente de um Stormtrooper que se rebela contra a Primeira Ordem simplesmente porque é o certo a se fazer, Boyega se encarrega em dar o alívio cômico e em cada expressão mostrar o desespero que a sua situação pedia. 

Aliás, falando de humanidade, J.J. Abrams foi muito preciso ao focar esse lado em "O Despertar da Força". Kyle Ren (Adam Driver) e a figura misteriosa de seu mestre Snoke (Andy Serkis) apesar de pouco explorados deixam abertas grandes possibilidades para os próximos filmes. Aqui conhecemos um vilão de um passado trágico, intempestivo e com dúvidas se é digno o bastante do se aproximar ao que almeja ser. A figura de Darth Vader ainda vive e o lado negro da força assume diversas formas.

Em muito "O Despertar da Força" se assemelha com o episódio IV no andamento da história e é perfeitamente questionável se o diretor pouco arriscou no longa buscando soluções simples e apressadas para problemas que poderiam ser melhor desenvolvidos e mais desafiadores, e realmente isso acontece, não só na atual, mas na antiga trilogia. Um exemplo claro é Estrela da Morte, pela terceira vez ela foi destruída e da mesma forma que os engenheiros aparentemente distraídos da Primeira Ordem teimam em repetir. Tá ligado o buraquinho?

Mas como disse, os problemas de roteiro são recorrentes em todas as fases da trama e eles até se tornam distração. O que sempre conquistou em Star Wars é sua fantasia e o carisma, e J.J. soube andar pelo caminho seguro numa franquia que precisava justamente de nostalgia para reviver no coração dos fãs mais antigos e conquistar novos amantes. A missão de Star Wars é entreter e ele fez um filme de fã para fã.

A sensação de nostalgia é recorrente pelas pouco mais de 2h de filme. Aplaudi inconscientemente a aparição de Luke, me emocionei ao rever meus grandes amigos R2D2 e C3PO novamente, abri um grande sorriso ao rever Han-Solo e Chewbacca, me senti na casa da minha avó ao rever o arenoso planeta Jakku. Aliás, a sensação que tive ao sair do cinema foi de se sentir que reencontrei uma grande família, não só na telona, mas olhando ao redor e vendo o cara sentado ao lado tendo a mesma emoção que eu, me fazendo sentir vontade de comentar com ele como aquela cena foi foda ou de abraçar quando o C3PO aparece. 

Como Han-Solo disse a Chewie ao adentrar a Millenium Falcon mais uma vez: "estamos em casa". 

Demorei, mas ontem eu finalmente voltei para casa.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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