Resenha Série: Mr Robot (1ª Temporada)


Há precisamente sete pessoas capazes de resetar a internet. Essa afirmação parece sair de um livro de ficção do Dan Brown, mas calma, nada mais é do que um protocolo de segurança. É o seguinte, sete pessoas de diferentes nacionalidades carregam um "pedaço" de uma chave e é preciso que pelo menos cinco das sete pessoas (sim, temos que considerar a morte como possibilidade) se reúnam em um data center para que a World Wide Web seja reiniciada em caso de um ataque terrorista ou algo parecido, impossibilitando assim de que um colapso maior aconteça.

Na verdade, esses "guardiões" estão longe do romantismo que isso possa parecer. As possibilidades de eles serem acionados é remota, mas como um homem prevenido vale por dois e a Internet é algo fundamental pro mundo rodar, a ONG sem fins lucrativos Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN) resolveu colocar esse plano em prática. Bom, tal plano dos carinhosamente apelidados de guardiões pode parecer meio apocalíptico a primeira vista, afinal, como afirmar de que essas pessoas que pertencem a uma ONG realmente tem boa intenção ou se elas realmente podem permanecerem anônimas de um Estado Islâmico por exemplo?

Pronto. 

Ahhh teorias da conspiração e sensação de ser observado o tempo todo, sensações presentes na sociedade moderna cada vez mais selvagem. Sobre isso, dezenas de vezes o personagem Elliot se pergunta se está louco, e é nessa pergunta e nos questionamentos que Sam Esmall faz através de "Mr Robot" se escorar. Na verdade, será que estamos loucos? Vivemos num sistema financeiro que só nos endivida cada vez mais para podermos conquistar algo para nos endividarmos ainda, trabalhamos infelizes para nos iludirmos com a nossa felicidade, nos escondemos das nossas vidas solitárias em redes sociais que mascaram o que as pessoas realmente são... 

O que é na verdade o mundo real?

Derivada da USA Network que é famosa por ser mais um canal de entretenimento e não de séries que incomodam, Mr. Robot é uma série atual que trata da crise da China, dos vazamentos do site Ashley Madison, e que nos lembra até da quebradeira financeira da Grécia e no sofrimento de seu povo. Na propositalmente apelidada de Evil Corp, mora todos os nossos temores e toda a cegueira social. Temos tudo, eles nos fornecem tudo, saca aquelas empresas monópolio?

Elliot Aldersen (Rami Malek) é um típico engenheiro da área de TI que trabalha numa empresa que ele detesta que faz parte de uma sociedade que ele detesta, mora sozinho num muquifo e nas horas vagas usa morfina para aplacar sua solidão. Até aí tudo normal. Porém, nas horas vagas ele se dedica a ser um tipo de "hacker do bem" que através de chantagem ameaça expor todos os segredos mais sórdidos e íntimos delas. O tipico limiar entre o certo e errado que a lei entra num limbo não consegue cobrir, invasão de privacidade x pedofilia (caso, do primeiro episódio por exemplo). Típico anti-herói que sabe de seu poder de salvar o mundo.

A medida em que vamos conhecendo o personagem, vamos achando ele mais um típico hacker reacionário, mais um "foda-se a sociedade", um efeito colateral comum da sociedade cada vez mais tecnológica em que vivemos. Contudo, Elliot nos transforma em "amigos imaginários" paranoicos como ele sobre "os homens de preto" que estão em todos os lugares nos observando, horas funcionando como narrador da história, horas sendo testemunha ocular dos eventos, através de deu olhar sempre fixo e arregalado e das poucas palavras de um homem extremamente antissocial. Através da sua feição entendemos perfeitamente o desespero de um homem solitário e nos perguntamos quantos desses há por aí sendo capazes de revelar toda a verdade do mundo ao mesmo tempo em que se sentem tão vazios de significado.

Elliot juntamente com o misterioso Mr Robot (Christian Slater fantástico) armam um plano para hackear o sistema financeiro mundial definitivamente, zerando os créditos e todas as dívidas. Criando uma nova ordem mundial aliada a uma anarquia libertária. Impossivel não aliar a organização hacker fsociety a o grande V de "V de Vingança" e os discursos inflamados de revolução e sistema de Mr. Robot a Morpheus de "Matrix". Mas é em "Clube da Luta" que a série se fundamenta principalmente após a metade da temporada com o presente distópico que é apresentado e que explodiu minha cabeça ao descobrir. Pode parecer confuso, mas se eu der mais detalhes sobre a trama além de associá-la a distopia psicológica de "Clube da Luta", irei estragar sua experiência com a série. =)

E de novo faço a pergunta, o que é o mundo real? Nem Elliot sabe.

No mais, posso dizer que "devorei" os dez episódios da temporada em apenas três dias. Misteriosa no último a cada personagem em que ela nos apresenta, como a fofa Angela Moss (Portia Doubleday) que é uma típica jovem que está no meio do jogo da vida, o sórdido e pútrefo executivo Tyrell Wellick (Martin Walström) que não mede esforços (não mesmo) para alcançar o sucesso profissional, e o enigmático Whiterose (B.D. Wong) que aparece em um pequeno trecho do sétimo episódio e abala nosso mundo com sua teoria do tempo. Tais personagens que passam a tensão só pelo olhar, aliados a fotografia belíssima de Nova York que joga com os tons frios e caracteriza um mundo que não tem sentimento algum, só aumentam a ânsia de imprevisibilidade característica da série.

Mr. Robot é uma série que deveria ser mais reconhecida pelo esmero e cuidado em cada detalhe - não sei você, mas nunca vi uma série ou filme se tratando de tecnologia apresentar detalhes tão minuciosos sobre o tema - e pelo roteiro extremamente bem escrito e intrincado capaz de deixar o espectador curioso desde o primeiro episódio, louco pra saber "onde a toca do coelho" vai. E amigo, ela termina aonde você nem imagina.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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