Resenha Cinema: Os Oito Odiados

quarta-feira, fevereiro 03, 2016


Poucos cineastas tem a isenção de qualquer tipo de prepotência ao anunciar logo no início de que este é seu oitavo filme e que ele encerrará sua carreira cinematográfica daqui a dois filmes, tal qual uma contagem regressiva que aperta o coração dos fãs e dos amantes de boas películas. Bom, talvez ele saiba que no fundo seu propósito de ter sua marca na sétima arte imortalizada já foi alcançada - tanto quanto por outro lado isso possa afirmar um esgotamento criativo -, mas a questão é de que o cinema parece que não cabe mais para Tarantino e ele não cabe mais no cinema." Os Oito Odiados" é uma prova disso.

A verdade é que Tarantino através de "Os Oito Odiados" faz os fãs questionarem e realmente odiarem o filme pra depois amar, pois é preciso ter paciência pra enfrentar as três horas de diálogos e monólogos que fazem os mais adeptos da ação frenética de outros filmes do diretor ficarem com sono na cadeira pelo ritmo lento e teatral. Mas cara, como valeu a pena! Sim, o filha da mãe conseguiu de novo encher meus olhos de satisfação e abriu meu sorriso, pela oitava vez.

O cenário é o congelante Wyoming e inicialmente somos apresentados a John Ruth "O Carrasco" (Kurt Russell) e sua prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) que em uma diligência dirigida pelo condutor simplesmente chamado de O.B. (James Parks) que ruma para a cidade de Red Rock, onde John pegará sua recompensa de dez mil dólares pela cabeça da mina e a entregará ao xerife da cidade para seu prazeroso enforcamento.

No entanto durante o caminho, eles são abordados pelo também caçador de recompensas e ex-combatente na Guerra dos Secessão (ou Civil) Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) que carregando consigo dois cadáveres de criminosos, menos valiosos que a Daisy, ruma também a cidade de Red Rock e pede carona a diligência dirigida por Ruth. Após uma longa conversa e uma carta apresentada por Marquis que supostamente foi escrita por Abraham Lincoln diretamente à ele, Marquis a usa como trunfo e acaba pegando carona com Ruth e a desprezível Daisy. Os dois ainda cruzam com Chris Mannix "O Xerife" (Walton Goggins), em apuros na violenta nevasca que alega ser o futuro xerife de Red Rock e precisa se dirigir a cidade para finalmente assumir o posto. Portanto, como ele é o futuro xerife e é o responsável por pagar as recompensas, convence Ruth e Marquis a embarcar na diligência para chegar a seu destino. Com a nevasca apertando, todos fazem uma parada numa pequena pousada onde estão os outros quatro odiados, Oswaldo Mobray "O Pequeno" (Tim Roth), Joe Gage "O Cowboy" (Micheal Madsen), Bob "O Mexicano" (Demian Birch) e o ex-general idoso racista Sanford Smithers "O Confederado". 

Falando sobre teatro, a metalinguagem que Tarantino usou em "Os Oito Odiados" é perfeita nesse aspecto. Falo especificamente da porta que não fecha, será ela uma mera proteção desesperada contra o frio ou uma separação do mundo real do interior da cabana? O escape do humor como um mero detalhe enquanto imaginamos o sangue jorrar a qualquer momento, é o que faz seus filmes serem tão especiais e dignos de atenção. 

Como se fosse um livro de Gabriel Garcia Marquez ou de Ernest Hemingway, Tarantino montou uma grande peça de teatro representando a pura história americana que se mostra ainda mais infernal do que a intensa nevasca lá fora. É como dizem: "o inferno são os outros".

E percebeu que todos os oito personagens principais da trama e que dão nome ao filme tem alcunhas em seus nomes? Esse jogo de esconde-esconde que ninguém é ele mesmo, e que a todo momento você não sabe quem realmente está falando a verdade é a tônica do filme, e é na desconfiança que Tarantino te faz prender os olhos na tela por mais de três horas. Afinal, quem é o filha da puta mór da história?! E se todos são filhas da puta? Claro que o título do filme denuncia isso e ao final eu abri um sorriso sádico no rosto ao refletir que todos mereciam o destino que tiveram, mas não é isso mesmo que Tarantino quis provocar?! 

E ele sabe como tornar um filme inesquecível. A fotografia da neve densa do Wyoming é simplesmente linda e a embasbacante trilha sonora do veterano dos faroestes Ennio Morricone que fazem cada centavo do cinema valer a pena. Fora as atuações simplesmente sensacionais de Jennifer Jason Leigh no papel mais forte de sua carreira e como mais uma mulher de destaque nos filmes do diretor, de Kurt Russell que damos como "morto" e simplesmente ressuscita a cada chamado do diretor, e principalmente de Samuel L. Jackson que como peça chave do filme interpretando o Major Marquis que é o responsável por desmascarar um por um enquanto a sua própria máscara caía, fizeram o filme ser justamente apontado como um dos mais injustiçados do Oscar.

Eu duvido você não se sentir hipnotizado por seus monólogos e trejeitos de Jackson, na real, é fácil de entender porque Tarantino simplesmente ama a forma dele de interpretar - esse aliás deveria se limitar a trabalhar somente com ele. Que interpretação fantástica! Tim Roth é outro que despeja sua versatilidade com o diretor e fez um grande trabalho interpretando o papel que originalmente era de Christopher Waltz. Oswaldo Mobray foi escrito para ele, mas Tim Roth como um craque, tirou de letra e fez um golaço no ângulo.

Se inspirando diretamente em "Cães de Aluguel", seu trabalho de estreia, Tarantino com "Os Oito Odiados" mostra que cresceu como roteirista e diretor filmando talvez o trabalho definitivo para se entender porque ele é a mente criativa mais impactante de Hollywood e que sim, o ex-atendente de locadora ainda tem muita lenha pra queimar. Torçamos pra que ele repense seriamente sua aposentadoria.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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