Resenha Série: The Following (1ª Temporada)


A ideia de "The Following" se relaciona diretamente ao grupo de hippies liderado por Charles Manson no final dos anos 60. Saído na Califórnia e formado por jovens de diversas partes do país, a intitulada Família Manson inicialmente dedicava-se a pequenos delitos e ao uso de drogas e sexo livre, porém a mando de seu líder, nas noites do dia 9 e 10 de 1969 cometeram uma série de brutais assassinatos em Los Angeles, sendo o da Sharon Tate, atriz e esposa de Roman Polanski talvez o mais brutal de todos com uma série de dezesseis facadas quando a atriz estava grávida de oito meses.

Seus followers ou seguidores eram jovens desiludidos em sua maioria que seguiam suas ordens como se não tivesse amanhã e invadindo casas simplesmente pra matar sem nenhum remorso, acreditando que a morte era correlacionada com o amor apoiada na nova ordem mundial proposta por Manson (Man-Son, filho do homem). Manson acreditava que através da música "Helter Skelter" (que significa algo como "confusão" no vocabulário americano), os Beatles tinham lhe passado uma mensagem sobre uma futura guerra entre os negros e os brancos aonde os negros venceriam e trariam uma nova ordem; lembrando que na época os Panteras Negras estava em plena ascensão. A letra sem muito sentido dizia em um trecho: "Quando eu chego ao chão, eu volto para o topo do escorregador, onde eu paro, me viro e saio para outra volta até que eu volte ao chão e te veja novamente."

Se apoiando nas obras do poeta e romancista Edgar Allan Poe que se relacionavam muito com a morte e o lado mais sombrio do ser humano, a interpretação do escritor Joe Carroll (James Purefoy) era que a morte apenas era uma transcendência da vida usando de seus poemas sempre para justificar seus crimes, como os olhos arrancados que passavam uma mensagem clara de Poe que dizia "que os olhos eram a janela da alma", e usando dos contos "A Máscara da Morte Escarlate" e "O Corvo", por exemplo, para matar qualquer um que fosse sem remorso algum. E eu como fã de seus contos achei a ideia de assassinatos estarem correlacionados a seus contos interessantíssima.

Com essa ideia firme e seu carisma de professor, Carroll usou do poder da internet para recrutar jovens perdidos para a sua "seita" - ideia essa refutada por ele. Nesse ponto a série de Kevin Williamson traz a lembrança também o Estado Islâmico, que usa do mesmo artifício para recrutar jovens que não viam sentido em suas vidas a defender algo que eles poderiam realmente acreditar, passando a ideia de que a morte é simplesmente uma extensão da vida e que Alá seria eternamente grato a dedicação e honra deles.

Em outras palavras, o objetivo do ser humano é pertencer, ser parte de algo, de uma família, ter suas ideias aceitas sem sentir a solidão de perto. A ideia da "seita" de Carroll como a dos casos reais de Manson e do Estado Islâmico se relacionam diretamente na interpretação das palavras para invadir mentes enfraquecidas através de um discurso de voz mansa e de aceitação em prol de um objetivo. A trama de Kevin Williamson se fundamenta no fascínio do ser humano pela morte acreditando que ela tem sempre muito mais a oferecer. O desconhecido sempre fascina.

A ordem clara de desordem apoiada no restabelecimento da ordem são muito bem aproveitadas no início da série, principalmente nos três primeiros episódios que dão uma sensação ímpar de paranoia em que não sabemos quem é quem, e na construção do personagem de Joe Carroll de fala tão mansa e mente tão perversa que realmente chega a arrepiar.

Contudo, "The Following" se perde justamente na briga de gato e rato entre Carroll e o ex-agente do FBI Ryan Hardy (Kevin Bacon) e no pouco aprofundamento do conceito dos crimes que Carroll e seus seguidores praticam. Causa uma agonia tremenda essa eterna caça a Carroll que alterna o sequestro, primeiro de Joey (Kyle Catlett) e após de Claire (Natalie Zea), e o FBI sempre uma estar uma porra de fucking passo atrás. Assim a história quase que esqueceu completamente de Edgar Allan Poe e fez os seguidores de Carroll serem jogados a história simplesmente pela sua conveniência - principalmente a partir do momento em que Emma (Valorie Curry), Jacob (Nico Tortorella) e Paul (Adan Canto) são forçados a sair da fazenda.

Aliás são nos três seguidores que reside um maior desenvolvimento, no senso de certo e errado de Jacob e focando-se até em um relacionamento a três, mas despertando uma pergunta pertinente: mesmo criança, era Joey tão burro a ponto de confiar tão cegamente em uma babá?

Carroll perde muito da graça a medida em que sabemos de suas simples e reais motivações, tanto que ao final a gente se pergunta, será mesmo que um escritor com uma mente tão perversa e que reúne esse tanto de gente, é capaz de almejar tão pouco? Aliás, como Carroll recebeu a visita de tantas pessoas sem despertar alguma suspeita? Poderia-se dizer que eram fãs do escritor e ex-alunos, mas será mesmo que eles se disporiam a ver um serial-killer?! A falta de conceito em detrimento do teor policial que a série carregava deixam ela num meio comum do mais ou menos.

"The Following" partiu de um conceito moderno e arrojado que realmente fascina e mesmo com seus percalços grandes não nos faz desgrudar da série, mas parece que como na total falta de carisma de Kevin Bacon como Ryan Hardy, ela caiu no comum da caça de gato e rato e enrolou demais para chegar o final da trama. Que deixa um buraco gigantesco e uma reviravolta proposital para realizar uma segunda temporada, afinal, Ryan está sempre cercado pela morte e ninguém está a salvo.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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