Resenha Série: Sense8 (1ª Temporada)


Apesar de servirem ao mesmo propósito do entretenimento, o cinema e a televisão são separados por características bem difusas na sua execução. Como um fast-food, o cinema é para públicos que querem histórias rápidas e condensadas (apesar de termos diversas franquias episódicas - o que acontece por questões mercadológicas muito mais do que por necessidade do roteiro), com potenciais licenças poéticas em favor de um maior público.

Já na televisão, como ela é direcionada a nichos, é perfeitamente possível abordar temas e desenvolver roteiros com maior liberdade que no cinema, sem ter maiores cobranças do politicamente correto ou se tal assunto realmente traria audiência e bilheteria. O que é uma puta liberdade. 

E falando em liberdade, o que podemos falar da Netflix? Ela não tem absolutamente nada a perder, e até mesmo por isso estamos presenciando séries excelentes em seu catálogo, como "Demolidor" e "Jéssica Jones" da parceria com a Marvel, e "House of Cards", "Orange Is The New Black" e "Sense8", todas com temporadas completas sendo liberadas sem nenhum pudor, negando a tradicional estratégia de segurar o telespectador para a próxima semana. Estamos presenciando a televisão em outro nível. E sem dúvida essa maior liberdade do santo streaming tem atraído os olhos de muita gente, como dos irmãos Andy e Lana Wachowski.

Já fazem quase 17 anos do lançamento de "Matrix" e seu bombástico roteiro distópico, mas desde então os irmãos não fizeram mais nada de muito interessante e inventivo. Se as duas sequências de "Matrix" tinham em seus fortes personagens um alicerce para se segurar (já que a abordagem do primeiro filme se perdeu totalmente em suas sequências), os filmes seguintes dirigidos pela dupla (nem vou falar da bomba que é "Speed Racer"), sem Neo ou Trinity, pouco ou nada impactaram ao público comparados ao hype enorme que eles construíram pra si a quase duas décadas atrás quando Lana era Larry. Bom, é difícil afirmar, mas talvez a cabeça de certos diretores só se encaixem no ritmo mais lento da televisão, mas é fato que os Wachowski só encontraram seu caminho dando as mãos com a Netflix.

"Sense8" conta a história de oito estranhos espalhados pelo mundo que nasceram no mesmo dia e compartilham lembranças do suicídio da mesma mulher chamada Angélica Turing (Daryl Hannah), e desde então, eles são conscientemente ligados emocionalmente, sendo capazes de se comunicar, sentir e apoderar-se do conhecimento, da linguagem e da habilidades alheias. Para essas pessoas damos o nome de sensates e a série com as oito histórias interligadas tenta nos contar porque essa ligação aconteceu e o que raios significa tudo isso. 

Os oito sensates são: Will Gorski (Brian J. Smith) um policial de Chicago, Riley Blue (Tuppence Middleton) uma DJ islandesa radicada em Londres, Capheus "Van Damme" (Aml Ameen) um motorista de van de Nairóbi, Sun Bak (Doona Bae) uma economista e lutadora de Seul, Lito Rodriguez (Miguel Ángel Rodriguez) um ator canastrão de ascendência espanhola que trabalha no México e que esconde sua homossexualidade, Kala Dandekar (Tina Desai) uma farmacêutica de Mumbai que reluta em casar, Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt) um chaveiro de Berlim criado no crime organizado, e Nomi Marks (Jamie Clayton) uma hacker transsexual lésbica e ativista que vive em São Francisco.

Dirigida e produzida pelos irmãos Wachowski e roteirizada por J. Michael Straczynski (escritor e produtor da série "Babylon 5" e roteiristas de histórias do Homem-Aranha e do Quarteto Fantástico nas HQs) "Sense8" parece ser uma série de ficção científica e nos dois primeiros episódios direciona de verdade pra esse lado. Mas tendo a Nomi como epicentro e Jonas (Naveen Andrews) que passa a ser o principal veículo que guia os protagonistas tentando protegê-los, "Sense8" nos episódios seguintes em que os sensates vão se conectando e se conhecendo, se mostra uma série feita pra medir relações e em como a amizade e o amor mesmo que distante pode ser um fator decisivo para a lealdade e a sobrevivência. Tanto que os episódios mais bacanas são justamente aqueles em que todos os sensates trabalham em grupo (como na season finale), voluntariamente ou não. Destaco especialmente o episódio em que Capheus se liga a Sun e acaba literalmente com a gangue que ameaça sua mãe, duas vezes. É de levantar do sofá e gritar pelo Van Damme! 

Aliás, puta que pariu, como os Wachowski sabem brincar como filmar uma cena de luta ou de tiroteio. =D

Voltando ao assunto, é realmente muito tocante e interessante termos diversas culturas e gêneros sendo abordados tão livremente e com atores realmente nativos dos países de origem, sobretudo tratando pessoas como pessoas sem nenhum pudor - um crime nos tempos atuais. E apesar de sermos jogados naquele redemoinho de sensações e alucinações inexplicáveis dos oito sensates, não nos sentimos perdidos em nenhum momento, pelo contrário, "Sense8" além de ter uma fotografia belíssima (principalmente da Islândia), a direção dosa na medida certa o drama e a liberdade que só a ficção é capaz de dar, sempre deixando o espaço necessário para cada personagem aparecer e se desenvolver. Na verdade, é engraçado que ao mesmo tempo em que o roteiro não explica quase nada por completo, em contrapartida eles nos deixam no colo as explicações necessárias pro desenvolvimento da trama ter o ritmo certo para nos deixar devidamente satisfeitos por ver apenas um episódio, mas ao mesmo tempo curiosos para ver os seguintes.

Apesar dos aparentes esteriótipos empregados e frases de impacto para leitores de livros de auto-ajuda, além da forçação de barra em algumas cenas (como se Lana Wachowski tivesse algum tipo de urgência em mostrar nudez a todo o tempo), "Sense8" se equilibra no limiar do sobrenatural mas sem se desgrudar em nenhum momento da realidade, tratando ninguém como super-herói, mas sim como gente como a gente, dando o alicerce necessário para nos envolvermos emocionalmente com cada um deles como se fizéssemos também parte desse grupo especial. E sobre isso, é tocante a relação (apesar de curta) entre Riley e o pai dela, da irmandade de Wolfgang e Félix, do bullying monstruoso que Nomi sofreu, e da relação muito engraçada entre o triângulo Lito, Hernando e Daniela.

Com diversas aberturas deixadas pelo final um pouco vago e explicações não dadas, além de infinitas possibilidades e o desenvolvimento do potencial dramático de cada um dos oito sensates, não é de se surpreender que "Sense8" tenha sua segunda temporada confirmada para esse ano. 

Lembra do que eu tava falando de cinema x televisão? "Sense8" como um filme de 12 horas que é, com certeza não se encaixaria nas telonas.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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