Resenha Filme: Creed - Nascido Para Lutar


Chris Rock no discurso certeiro sobre o suposto racismo do Oscar, soltou a piada de que "Creed" era um indício de que as coisas estavam mudando, pois "Rocky" pra ele era ficção científica por ser um filme sobre um mundo em que os brancos são tão bons quanto os negros no boxe e "Creed" corrigia isso. Ele disse: "Tem coisas mais críveis em "Star Wars" do que em Rocky".

Não, não precisa odiar mais o Chris como ele já é odiado todos os sábados na Record. Acredito que ele fez só uma piada pertinente, para cutucar mesmo e para fazer Stallone dar gargalhada (e eu também) pois acredito que ele curte o filme tanto quanto eu, já que sendo branco ou negro, "Rocky" é um puta filme e uma lição de vida e "Creed" revisita essa arte de contar uma boa história, renovando-a e transcendo-a para além do mito de Balboa. 

"Creed" nada mais é do que história básica do boxeador amador que tem uma enorme força de vontade e ganha 'cagada' uma chance de lutar e provar a si mesmo a capacidade que ele tem de ganhar o título mundial, aliás, "Creed" poderia se chamar "Rocky VII" que não teria problema nenhum. Tipo é como Star Wars e Chaves (exagerando um pouco) que você sabe exatamente o que é e o que vai acontecer, mas mesmo assim faz questão de ver e rever porque é BOM! 

Em "Rocky" vai tocar "Eye of the Tiger", ele vai subir aquela escada em Filadélfia e ele vai ganhar a luta na bacia das almas com a cara estourada e gritar ADRIAAAAAN no final, mas é uma boa história mesmo assim e é exatamente por isso que ela nos fisga: ela personifica numa analogia de um lutador exatamente aquilo que você precisa ser na vida, e não é algo piegas dizer isso. Reflita, boas histórias nos prendem justamente quando os personagens ficcionais são capazes de ensinar e/ou nos identificar com a gente, e na minha modesta opinião é aí que Rocky se torna tão especial.

Só que diferente da saga de George Lucas, Stallone aproveita o peso da saga do Garanhão Italiano ao mesmo tempo que em "Creed" ele procurou 'pular as etapas' que Star Wars estará daqui a alguns filmes tendo outros personagens estabelecidos, ao buscar o passado de um grande amigo e único lutador que fez Rocky Balboa chegar ao 15º round para continuar a história por outro caminho. Contudo, ao contrário do spin-off que poderia ser, a história que acompanhamos aqui é criativa e emocionante se assemelhando justamente ao que Donnie quer para sua carreira: se distanciar do peso do sobrenome de seu pai.

Adonis 'Donnie' Johnson (Michael B. Jordan) é um garoto durão e revoltado do tipo que não leva desaforo pra casa e que nunca conheceu seu pai biológico, o famoso boxeador Apollo Creed (que como você se lembra morreu lutando contra Ivan Drago (Dolph Lundgren) em "Rocky IV"), Mas após 14 anos pulando de reformatórios e orfanatos, um dia sua mãe biológica Mary Anne (Phylicia Rashãd), viúva de Apollo, resolve visitar de surpresa o garoto no reformatório e após uma conversa esclarecedora mostrou que estava decidida a levar o garoto pra casa.  

Só que Donnie, agora adulto, morando em uma casa luxuosa em Beverly Hills, nunca foi do tipo de se encaixar no mundo. Talvez fossem também seus genes, mas o seu jeito brigão causado por uma vida cercada de violência e preconceito sempre o fez dividir o seu tempo entre lutas clandestinas em Tijuana e uma vida corporativa como essas lutas transferissem não só a frustração do dia-a-dia, mas o faziam exercitar seu sonho. Então cansado dessa vida dupla, Donnie resolve ir atrás de seu sonho que é virar um lutador de boxe, e mesmo a contragosto compreensível da mãe que viu seu marido morrer no ringue, vai embora de casa e inspirado na luta histórica entre seu pai e Rocky Balboa vai rumo a Filadélfia o encontrar. 

Mais solitário do que nunca sem ter conseguido estabelecer uma relação com o filho (o que vimos em Rocky VI) e com saudades de sua mulher Adrian e de seus treinadores Mickey e Paulie que como ela já se foram, Rocky já idoso e dono de um restaurante que leva o nome de sua falecida esposa, só está esperando a hora de reencontrar seus velhos amigos tendo o boxe somente como uma lembrança muito distante e dolorida imortalizada nas fotos de seu restaurante, já que ele levou também seu amigo e melhor desafiante, Apollo Creed. 

Mas o lutador cheio de vida e determinação Donnie, com a cara fechada e palavras diretas como um soco, aparece para Rocky e pouco a pouco desperta algo no Garanhão que ele não sentia a muito tempo. E não entendo que é somente por Donnie ter dito a Rocky de que era o filho de Apollo, mas porque ele mostrou a Rocky de que ele tinha a determinação e a força, como a do falecido amigo e dele mesmo, de construir a própria história superando e aceitando o peso do sobrenome que ele carrega.

Dirigido por Ryan Coogler, "Creed" é simplesmente impecável em passar a real tensão que cerca uma luta, não só por ela em si, mas pelo o que ela representa e não me lembro de ter visto um filme que passasse esse 'drama'. Para entender melhor o que estou dizendo, preste atenção como Coogler na luta coloca a câmera praticamente na perspectiva de segunda pessoa (sob o ombro) proporcionando closes da feições (principalmente de Jordan) e planos sequência tornando a luta sensacionalmente marcante. Outra cena que me marcou foi no corredor antes de Donnie entrar no ringue aonde Rocky o acompanha dizendo o que ele tem que fazer e o que ele mesmo sentia nesse momento, mas o que marca é como essa cena é filmada por Coogler de forma contínua sem muito segredo, a tensão já posta pela representatividade da luta e de como estamos envolvidos com o personagem deixa a cena grandiosa, como se eu e você estivessemos realmente entrando no ringue juntamente com Donnie.

Brilhantemente interpretado por Michael B. Jordan, Donnie toma vida e nos conquista e emociona ao colocar o icônico calção 'bandeiroso' de seu pai para a grande luta, mas é Sylvester Stallone que rouba a cena e torna a sua derrota no Oscar como melhor ator coadjuvante uma verdadeira flecha no coração. 

Por mais que ele tenha feito escolhas erradas em sua carreira, Stallone mostra a capacidade que ele tem de ser realmente um bom ator dramático, sendo que ele e o personagem são um espelho um do outro e transcendem aquilo de o Hugh Jackman ser o Wolverine e vice-versa. Não é só o lance de ser parecido, mas é algo mais real e cativante, como se Rocky e Stallone, agora idosos, fossem um pai e um amigo também a nós em cada conselho, carinho e atenção que ele demonstra a Donnie com sua voz mansa. 

Rocky e Stallone são a mesma pessoa e Rocky é o filme de sua vida, e é exatamente por essa dedicação que acaba justificando a torcida nossa pelo sua vitória no Oscar que não aconteceu, tanto que em "Creed" é aonde que senti que a mais forte ligação entre o personagem e ator em toda sua trajetória como o Garanhão Italiano. Ironicamente como coadjuvante, mas agora com seu personagem enfrentando o adversário mais implacável de sua vida: o câncer. 

Bom, é como Rocky disse a Donnie quando este estava em frente a um espelho: "o seu maior adversário é você mesmo, e isso vale pro boxe e pra vida".

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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