Resenha Série: The Walking Dead (6ª Temporada)


Se nós estamos acostumados as mortes sem dó de Game of Thrones e a estupenda construção de personagens de Breaking Bad, por consequência não estamos tolerantes a certas falhas e soluções simples sendo tomadas; em outras palavras, a qualidade das séries hoje em dia anda tão alta que é num estalar de dedos que a gente perde a paciência e deixa de assistir tal seriado. Sim, eu te entendo jovem padawan. 

Acompanhar a série The Walking Dead não é uma coisa fácil, costumo até dizer que quem assiste deveria ser condecorado com uma medalha honorária de perseverança pois a série tem tantos altos e baixos que em diversas vezes eu me peguei a vendo simplesmente por curiosidade, como se soubesse lá no fundo que ela poderia ser melhor; e ah, como isso valia a pena em diversas vezes. Mas essa é a questão principal: irregularidade. Ou cliffhangers.

Mas o que é cliffhangers tio? Cliffhangers são "ganchos" propositais para o espectador ter a curiosidade de ver o próximo episódio. Tá ligado o "continua nesse mesmo horário e nesse mesmo canal" que o Chaves dizia? Pois é. Só que esse artifício bastante usado em novelas fica ridículo se usada em séries e não é a primeira vez que em TWD usa disso, e o engraçado é que na mesma medida que a sexta temporada tomou um rumo mais violento (a invasão da base de Negan em "Not Tomorrow Yet" (S06E12) foi sensacional), na mesma medida ela utilizou desse escape vazio e irritante mais de uma vez, aliás três!

Mas vamos falar de coisa boa, e não é da TekPix. Vamos falar de Rick e Carol.

O líder Rick Grimes é o foco dessa sexta temporada, representando bem a sua ascensão e queda. Alexandria já era uma comunidade estabelecida mesmo com a iminência de um ataque zumbi e Rick foi lá e "tomou" aquela porra pra si, esse era seu plano. Agindo praticamente como um general, silenciosamente ele queria tomar aquela comunidade pra si independentemente da fraqueza das pessoas que viviam lá. Ou todos seguiam suas regras ou acabariam sendo mortos, não por ele, mas pelo mundo que em que agora viviam. Era matar ou morrer, desde o Governador era isso e penso que a morte de Hershel causada por ele mexeu demais com sua cabeça. Foi com essa ideia que ele chegou em Hilltop e chegou até Negan, era matar ou morrer. 

Rick desde o começo da série foi o líder e se vendo imbatível se tornou mais do que isso: arrogante, mas Negan e seu grupo o ensinaram da pior forma possível como ele era vulnerável. Finalmente ele encontrou um desafio realmente a altura e alguém com poder muito maior que ele. Os olhos marejados e totalmente apavorados de Rick na season finale mostram bem isso.

Como Rick, Carol se tornou cada vez mais implacável e mortal, como uma "força da natureza" intitulada por ele. O mundo sem volta tornou as pessoas também sem volta. Se Rick proporcionou a todos uma humanidade ainda possível ali em Alexandria, Carol via que voltar a ser aquela dona de casa e mãe que era antes de tudo acontecer era algo impossível, algo falso e sem sentido nenhum. A distribuição de biscoitos de porta em porta é uma cena de não muita importância contextual mas emblemática para nos dizer como Carol disfarçava seu sofrimento. Ela conquistava o afeto por todos por seu jeito carinhoso e atencioso, mas ela também tinha um monstro dentro de si que não aguentava mais carregar e que a qualquer momento seria chamado à tona. O episódio "The Same Boat" (S06E13) focado nela e na Maggie foi sensacional para exemplificar isso. 

Agora a luta não era mais focada em matar zumbis, a sobrevivência agora era matar gente viva, humanos, tornar-se assassina, e é aí que nos igualamos a nossos maiores demônios. Na verdade Carol não aguenta mais sobreviver, não neste mundo sem volta e nessa guerrilha sem nenhuma esperança. Confesso que até parece frescura pois sabemos o que é necessário para sobreviver naquela situação, mas o certo e errado ainda é subjetivo e chega um momento em que a guerra toma conta de si próprio. Rick mostra bem como isso é sem volta.

A sexta temporada na minha opinião é a melhor desde a primeira e a que construiu melhor seus personagens, tanto antigos e novos, tomando pra si decisões que não eram tão comuns na série. TWD se transformou em matar e morrer, e desde a entrada em Alexandria na segunda metade da quinta temporada finalmente pudemos ter a noção que exata de que os verdadeiros inimigos são (ainda) os próprios humanos e que o apocalipse de verdade é residido neles. Fomos apresentados a personagens misteriosos como Jesus, outras comunidades como Hilltop e aos Salvadores liderados por Negan; e numa aproximação maior e definitiva com os quadrinhos em certos acontecimentos (como o Carolho), finalmente os zumbis foram deixados em segundo plano em virtude da ruína utópica de uma possível sociedade pós-apocalíptica que em algum momento todos ali vislumbraram. Todos sabem seu caminho agora e o grupo "nômade" de Rick e cia já era (felizmente), agora eles já acharam uma casa e se reaproximaram de uma humanidade mesmo que momentânea mas que ao mesmo tempo é impossível de se ter. Demorou, mas a série caminhou para a maturidade nesse ponto. 

Porém, relegando a sua maturidade alcançada e desperdiçando oportunidades em ter culhões em matar personagens que realmente fazem diferença na trama, como o Daryl (chamem o George Martin!), TWD caiu no mesmo problema das temporadas anteriores devido a seus showrunners, os tais cliffhangers que disseUma característica que realmente pesa contra a série e me fez dizer em "Last Day On Earth" (S06E16) "não fode caralho...". A justificativa usada por Greg Nicotero e Gael Ann-Hurd é que nos quadrinhos isso é muito utilizado e eles adoram isso, mas entendo que quadrinhos e televisão são duas mídias totalmente diferentes e pedem abordagens totalmente diferentes. Será que é difícil entender isso? 

Será que o Glenn morreu? Será que o Daryl morreu? Quem foi o escolhido por Negan pra levar a tacada da Lucille na cabeça? TWD foi até agora uma série de tantos altos e baixos que penso que quem é fã e gosta mesmo da série acompanha ela mesmo se não houvessem esses ganchos, aliás, o "coito interrompido" de Negan tornaria-se motivo para acompanharmos a série com ainda mais afinco especulando o que iria acontecer agora que tal personagem foi morto. Entende o que quero dizer? Quem é fã de uma série, qualquer uma, vai continuar a acompanhando mesmo que ela revele o que tem pra revelar num mesmo episódio. Queremos consequências, soluções e não dúvidas. Suspenses desnecessários como esses só colocam pra baixo a expectativa da série, causando não uma discussão especulativa mas sim uma discussão frustrada, o que é bem decepcionante. E até mais que em outros anos, nessa temporada deu pra ver claramente como TWD tendo 16 episódios tem um formato longo demais favorecendo a enrolação ou "linguiça sendo enchida". Saudades da morte de Shane na segunda temporada que foi tipo "morreu, acabou".

Tirando os episódios de suspense em torno do Glenn e outros inúteis como a morte da Denise - onde a série mais uma vez utilizou do incansável artifício de desenvolver uma personagem secundária para ela morrer logo em seguida e a gente se importar com isso -, vejo que TWD se daria melhor como uma série de formato Netflix com uns 13 episódios no máximo ou até 10, enxuta, sem enrolação. Parece até que ela usa todo seu fôlego na estreia, na mid-season e na season finale, mas nesse meio tempo estende decisões que poderiam fazer parte de um episódio como um episódio independente. "First Time Event" (S06E01), "JSS" (S06E02) e No Way Out" (S06E09) foram marcos na série como um todo, mas "Twice as a Far" (S06E14) que só teve cinco minutos relevantes, foi um episódio chato como tivemos em todas as outras temporadas.  

Bom, o que sabemos é que a sétima temporada promete na mesma medida da possível frustração de Negan dar a tacada na cabeça de um personagem secundário como Aaron - aliás um problema recorrente na série da falta de coragem de matar personagens realmente importantes. Mas até aqui o desenvolvimento foi excelente e o suspense ameaçador em torno do aparecimento de Negan (interpretado pelo excelente Jeffrey Dean Morgan) foi na medida certa, agora Rick encontrou alguém muito mais poderoso que ele fazendo enfim seus conceitos de vitória ficarem rendidos e é aí que TWD se torna um mundo ameaçador como realmente é. Rick e ninguém ali são imortais, ainda mais com os zumbis burros saindo de cena; agora a sobrevivência se tornou uma guerrilha. 

Resumindo, a sétima temporada claramente terá foco em Negan e será uma brochada homérica se ele tiver o mesmo destino simples do Governador, mas creio que The Walking Dead entrou nos trilhos e aprendeu muito de lá para cá como NÃO tomar certas decisões. Com falhas e com momentos épicos, vale muito a pena ainda acompanhar a série.  

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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