Sobre House of Cards e Impeachment


Nesse domingo histórico, pro bem e pro mal (depende de seu ponto de vista), para a democracia brasileira em que se teve a votação do processo de Impeachment pela Câmara e o consequente prosseguimento para o Senado, me lembrou muito o roteiro de House of Cards. E entendo que para compreender a situação política que vivemos atualmente no país o meio de entretenimento mais indicado, fugindo de documentários e editoriais, é a série de Frank Underwood. Por isso, nesse texto busco algo diferente. Muito mais que analisar a série em si e o nefasto casal Underwood, de fato, creio que seja fundamental eu colocá-lo dentro do âmbito político em que vivemos.

Ao chegar em casa, a primeira coisa que me chamou atenção foi o semblante de Eduardo Cunha. Claro que visivelmente cansado da interminável votação de cada um dos congressistas e de cada beijo que eles mandavam aos seus parentes - se assemelhando muito a um Xou da Xuxa, mas principalmente pela sua aparente tranquilidade em ter seus interesses atendidos e colocando seu partido e seu "parça" Michel Temer finalmente no poder, eu senti como se Frank Underwood estivesse ali falando comigo.

Temos a democracia como a representação de seu povo, no grego, "demos" é povo e "kratos" (não o do Gof of War) é poder/autoridade, então democracia é nada mais que a autoridade do povo. Isso é lindo na teoria, mas na prática estamos carecas de saber que não é bem assim. Antes que me perguntem, não estou aqui defendendo a mudança do sistema político, mas como os E.U.A. são uma democracia representativa também, é pertinente olhar para isso.

Na série genial da Netflix, Frank Underwood (Kevin Spacey) é um político ambicioso e pragmático presenciando a posse do novo presidente Garrett Walker (Michael Gill), na cena mais emblemática da primeira temporada e antes da posse, o congressista mata um cachorro de estimação com as próprias mãos cessando a dor que o cão sentia. Algo desagradável, mas que é necessário que alguém faça. Underwood é esse homem e essa resenha é um pouco diferente ao abordar a série diretamente com o momento político que vivemos atualmente.

Como congressista fundamental na alçada de Walker ao poder esperando que ele o promovesse a Secretário de Estado, Frank fica devastado ao saber que isso não aconteceria, pois Walker decidiu atender a agenda da sua Chefe de Gabinete no Congresso contra a sua vontade. Naturalmente fervendo por dentro e transparecendo calma e parcimônia por fora, Frank arquiteta um plano para um a um derrubar os políticos que cercavam Walker conquistando a sua confiança e buscando alcançar a Vice-Presidência convencendo um fraco e decepcionado Vice-Presidente a voltar para seu estado. Assim finalmente frequentando o Salão Oval, ele se aproxima de Walker e finge amizade para o conhecer melhor conquistando "armas" para denigrir sua imagem, assim dando um empurrão na votação do Senado no processo de Impeachment que foi aberto contra ele e que finalmente o levou a cadeira da Presidência definitivamente.

Veem a semelhança?

O castelo de cartas construído por Frank e dado pela sua ambição que nas seguintes temporadas se mostra-se cada vez mais implacável e simplesmente passa por cima de qualquer anseio mesmo do Estado da Carolina do Sul pelo qual foi eleito. E não me venham falar de consciência, Frank não teve ao convencer seu jovem amigo Congressista Peter Russo ao fazê-lo abandonar suas convicções em favor chantagem e da lealdade, o convencendo a ser candidato a Governador no seu estado-natal da Pensilvânia para logo depois transformar sua morte em um acidente, sabendo que o Vice-Presidente iria assumir a pasta deixada por Russo deixando assim livre seu caminho para derrubar Walker.

“A estrada para o poder é pavimentada com hipocrisia e vítimas.”


Claro que não posso afirmar se Cunha foi amigo próximo de Dilma, mas como Vice-Presidente, posso afirmar sem dúvida que Michel Temer o foi e os dois jogaram com a proximidade que eles tinham dela. 

Dizem que de boas intenções o inferno está cheio e acho que eles basearam essa frase na política. Em House of Cards vemos que Frank Underwood sabe jogar com cada uma das cartas que se apresentam diante a ele, em qualquer situação adversa, nada o tira a calma pois sempre há uma escapatória, sempre há um podre para se jogar - mesmo que seja contra a pessoa que confia sua vida a você. Interessa o poder e só o poder, e Dilma como Presidente, na posição em que ocupava não soube jogar com isso. Aí você pode me perguntar? Ah André, as coisas não devem ser assim. Mas há também a palavra utopia e para sobreviver num mundo como o que vivemos, é preciso saber jogar. Frank Undrwood nos ensina desde o início que a política é isso e só isso. 

Nada me tira a ideia de que o processo de Impeachment aberto contra ela Dilma muito mais um jogo político do que comprovadamente um julgamento de um crime de responsabilidade por somente e assim será seu prosseguimento. O que vemos na série de Frank Underwood é que representantes do povo não se importam realmente com o povo e fingem se importar com cada um de nós, mas que sim na verdade eles se importam com interesses, poder; e por isso dinossauros como Maluf são fadados a morrer lá. Bom, o que poderia se esperar? Reflita, o Congresso vota as leis e as aprovam, bela democracia representativa que vivemos, assim fica fácil né Zézinho?! O principal culpado é você eleitor desinformado que vota no "menos pior" e não faz ideia em quem votou na última eleição, você que baseia-se na mídia televisiva e social para fundamentar sua opinião política e Frank Underwood sabe muito bem disso. 

A culpada pela crise e confusão política não é só Dilma Rousseff, ela não é a única criminosa e se há alguma liberdade de investigação é porque bem ou mal ela está lá. Mas digo, contem as horas de o Temer e o Cunha tomarem o poder e investigações e processos (principalmente de Cunha) se esconderem num passe de mágica pois só assim esse Brasil "sedado" se torna um "país governável", não é caros amigos? Notem também o show de horrores de hoje onde os ilustríssimos Deputados votaram a favor de Deus, da esposa e até das tias, e contra o Partido das Trevas, como denominou Marco Feliciano; mas se esqueceram quase que completamente de julgar pelo o que ela supostamente se tornou responsável: as pedaladas fiscais.

E não me venham falar que outros Governos fizeram isso, é ilegal e ponto.

Deixo claro que não sou de nenhum partido e sinceramente sou a favor da Dilma sair pois como presidente ela se torna a responsável direta pelo que acontece e aconteceu em seu Governo, mas não me cego diante dos fatos escusos que o Impeachment esconde e do que o poder conquistado de forma indireta e forçada proporciona ao PMDB, que como partido sempre vai atrás do que lhe é mais favorável e é como Frank Underwood é.

"Dinheiro é mansão no bairro errado, que começa a desmoronar após dez anos. Poder é o velho edifício de pedra, que se mantém de pé por séculos". 

Guarde isso. 

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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