Black Mirror: O sensacional momento de Waldo e como ele reflete cada um de nós


Black Mirror é uma série espetacular que um dia desses irei falar mais sobre aqui, mas o que a torna ainda mais espetacular do que a competente produção e elenco, são a gama de assuntos e discussões que essa série traz usando a sedutora e ameaçadora tecnologia, tornando-a ainda mais duradoura na mente de quem assiste.

São 2 temporadas disponíveis na Netflix divididas em 6 episódios independentes, quer dizer, o único ponto que os liga é o uso da tecnologia mas fora isso troca-se tudo, elenco e história. Então pequeno gafanhoto acostumado a se enterrar no sofá nas maratonas do deus do streaming, Black Mirror não pode ser vista com sono e que ironicamente não pode ser vista com o celular na mão; resumindo, Black Mirror é o tipo de série densa mas extremamente viciante e que faz a gente perceber o que realmente vale quando consumimos qualquer tipo de cultura: a crítica. E sobre a crítica social que transborda pela tela a cada episódio da série, resolvi falar de um dos episódios mais impactantes e mais absurdos chamado "The Waldo Moment" (S02E03) que talvez te convença mais firmemente a assistir a série.

Com roteiro escrito originalmente por Charles Brooker, o episódio narra a história de Jamie Salter, um comediante fracassado que cria Waldo, um urso azul animado e com um humor extremamente ácido, debochado e até agressivo, viraliza no YouTube após entrevistar o candidato do Partido Conservador Liam Monroe. E como adoramos ver políticos sendo ridicularizados, o sucesso é tanto, mas tanto, que os produtores por trás de Jamie e consequentemente Waldo tem uma ideia absurda dos melhores momentos da publicidade e lançam o Waldo como candidato.

Só que pare um momento e pense, por que Tiririca está lá no Congresso? Em recente entrevista no Programa do Jô, o palhaço não só demonstrou que realmente não faz ideia do que é ser um deputado mas também não faz a mínima ideia do inferno que está realmente acontecendo em Brasília. Só que pare e pense um pouco de novo, o palhaço representou o famigerado "voto de protesto", os quase 2 milhões de votos que representaram um povo cansado da política e que acha o sistema político um verdadeiro picadeiro (como o é realmente). Então porque seria estranho Waldo ser eleito, não é?

Com a candidatura em alta através da interação em apps além da revolta social, Waldo se torna não só um personagem, mas uma voz. E é a partir do debate em rede nacional com todos os candidatos que evidenciou um mero comediante extremamente desconfortável com a situação por temer e ser atacado de forma pessoal por Liam, que essa fofa e tosca figura chamada Waldo cria forma. Uma frase é emblemática nesse momento “Sou um personagem de computação gráfica, mas mesmo assim sou mais humano que todos vocês juntos”. Essa revolta de Jamie só aumenta a popularidade de Waldo, que claro, representa uma parcela cada vez mais alta na sociedade que não enxerga mais o personagem como um personagem, mas sim como uma ideia; e como o sábio V nos ensinou: "Ideias são à prova de balas".

Spoiler, Waldo não é eleito, mas um pouco antes disso os E.U.A. (sempre eles) entram na jogada e viram o feitiço de Jamie contra o feiticeiro de vez. Waldo não depende mais dele para viver e não importa o quanto ele tente, Waldo é uma ideia e uma potencial figura formadora de opinião ao redor do mundo, tanto que ao final do episódio é exatamente isso que vimos; e vimos que para defender ideias de "esperança", uma sociedade enfraquecida, descrente e revoltada pode se tornar extremamente nociva a ela mesmo no que se refere ao respeito e a tolerância. Resumindo, Waldo vira tipo de deus anárquico e a democracia não valesse de mais nada, algo que em países fracos politicamente vira uma arma.

Reflita, e o que nos separa disso? Tá certo que isso soa exagerado agora, mas como adoramos assistir o Discovery Channel pra ver as inúmeras teorias da catástrofe, basta uma eclosão de uma boa ideia para que isso possa virar realidade. Filmes como "A Onda", aonde um professor vê seu aluno desafiar sua tese ao dizer que o Nazismo era um partidarismo político soterrado pelo tempo e pela suposta evolução cultural nossa, prova astutamente de uma brincadeira experimental utilizando da revolta e desejo de inclusão arraigados nos âmagos e convicções de cada um dos seus alunos e que acaba no final das contas resultando num "jogo" com consequências muito sérias, causa uma profunda reflexão sobre o que o "pensamento de manada" pode fazer, tanto aqui como nesse episódio de Black Mirror.

Através desse episódio absurdamente inteligente Black Mirror não só se notabilizou por ser uma série que trouxe sérias discussões sobre as consequências tecnológicas no presente e no possível futuro que estamos talvez estamos "dopados" demais para nos dar conta (como em "The Entire Story of You" S01E03), mas alerta para o fato de grande parte da sociedade estar intelectualmente cada vez mais vazia e preguiçosa vendo no Facebook sua principal tábua de protesto e em vídeos de gatos a sua principal fonte de humor; mas que principalmente tem a política como um clero formado por uma classe de engravatados que dia após dia entram em um picadeiro, falhando miseravelmente em entreter e representar verdadeiramente a população que os assiste.

Por isso o infame Waldo representa alguém, e não se engane, o Tiririca também representa.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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