Resenha Cinema: Capitão América 3 - Guerra Civil

domingo, maio 08, 2016



Capitão América 3: Guerra Civil carrega consigo não somente a cisão de dois líderes de opiniões e humor distintos que já vimos em outras tantas oportunidades, mas sim se responsabiliza por inteirar o espectador sobre as decisões e consequências do heroísmo. E desde já para aquele leigo bicho do mato que não viu nenhum filme do universo cinematográfico da Marvel ainda, cara, é preciso se inteirar. Não que "Guerra Civil" seja um filme que se distancia dos leigos, mas na minha humuilde opinião, para sua total compreensão é plenamente necessário de que você assista principalmente os dois filmes dos Vingadores para se inteirar do que está acontecendo e até mesmo sobre os personagens, já que o Jarvis/Visão (Paul Bettany) e a coisa fofa da Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) não surgiram de uma hora para outra...

Mas vamos lá, disse que Guerra Civil trata de decisões e consequências certo? Bom, por mais que possa parecer uma comparação idiota, sentado no cinema foi impossível não lembrar do recorrente bloqueio do WhatsApp semana passada aqui no Brasil. Não, o bloqueio do grupo dos Vingadores no zapzap não fez o geek Stark querer dar uns murros no Bandeiroso porque ele é da época do meu avô e só sabe mexer em máquina de escrever, mas essa comparação cabe ao questionamento de até aonde vai e deve ir o poder do Estado sobre a liberdade e até aonde ela mesma deve ir.

Vivemos em uma democracia representativa e o mundo está mudando cada vez mais rápido, como a tecnologia, que é parte preponderante para isso acontecer na sociedade atual na disponibilização de apps como WhatsApp e Uber que constantemente estão no olho do furacão e são alvos justamente porque seu funcionamento - específico no caso do Uber - afeta diretamente o advento da liberdade e da justiça. Mas afinal zezinho, será que a coexistência é possível? Não vou ser mais específico pois a resenha é sobre o filme, mas a questão é basicamente a mesma: Será que o Estado democrático e que diz defender a liberdade deve se basear em uma decisão de uma só pessoa para defender essa mesma liberdade a todos?

Sócrates já se questionou sobre isso no ensaio publicado por Platão chamado "A República": Não é o desejo insaciável desse bem e a indiferença por todo o resto que muda um Governo e o leva a tirania? O filósofo falava especificamente da democracia no ensaio, mas podemos perfeitamente estender ao cerne da segurança, que é o que o filme fala e se origina o Tratado de Sokovia. Decisões e consequências lembra?

Ah o "bem maior" que Visão (Paul Bettany) diz em um trecho do filme... Bom, isso é tão complicado, afinal, como não transformar uma batalha em tragédia? E baseado em Nova York, Washington e Sokovia que o Estado americano personificado pelo General Ross (William Hurt) acerta com a ONU o tal tratado visando a supervisão e buscando esse "bem maior", mas a cisão entre Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Steve Rodgers/Capitão América (Chris Evans) também se dá justamente por eles discordarem de o Estado usar de seu poder para se meter numa questão que deveria ser resolvida entre eles. De um lado Stark se sente responsável, acha que deve-se impor limites, até mesmo pela questão de reconquistar uma confiança perdida com uma parte do povo por eles provocarem acidentalmente mortes de pessoas que eles deveriam zelar; de outro Rodgers acredita que além de o Governo não ter o direito de se meter em questões que ele mesmo não entende, não acha certo meia dúzia de engravatados cercearem a liberdade que os super-heróis devem ter para serem super-heróis. Não há batalha ganha sem perdas.

O que é super se torna super, não dá pra comparar a violência social que o Homem-Aranha luta contra no Queens com uma batalha de super heróis contra um vilão extraterrestre como o Loki que ameaça toda a humanidade, certo? Por mais que os dois violentos pontos sejam errados e mereçam atenção, se por um lado o Governo tem todo direito de se defender contra aqueles que tem poder suficiente para escravizá-los (oi Thor, Wanda e Visão), quem garante que o Governo irá dar a liberdade aos Vingadores para agir em questões que eles acham que eles tem que intervir para salvar vidas indiferentemente de nação? Abrir mão da liberdade abre precedentes, assim como o bloqueio do WhatsApp definitivo abriria precedentes para que outros tantos apps sofressem tal destino. Agora sacou a comparação?

Agora vamos a pergunta de um milhão de reais: O filme é mesmo baseado na HQ? Bom, a resposta certa para essa pergunta é "adaptação". Ao melhor estilo darwinista, o filme da Guerra Civil apenas se baseou no conceito político que ela trouxe e habilmente criou uma outra história quase que completamente diferente que expõe tão bem quanto o que a mesma HQ trouxe à tona - palmas aqui para a Marvel. Assim como nela e até mais do que ela, não há vencedores, por isso não acreditem em seus amiguinhos e coleguinhas que adoram dar spoilers e viram primeiro o filme do que você, de que fulano é vencedor ou até que beltrano morre. Não, o que temos aqui é uma discussão que traz consequências definitivas para o universo da Marvel, assim como ocorreu nas HQs subsequentes da editora e só tudo isso.

Mas talvez a principal diferença esteja residida no Homem-Aranha que tem o papel de um "filtro moral" e ligação entre a HQ e o leitor, no filme esse papel cabe a Bucky Barners/Soldado Invernal (Sebastian Stan) que é tipo uma bomba-relógio que foi dominado mentalmente pela HYDRA, talvez até você já condene o cara por tudo que ele fez no filme anterior. Pois é, um cara legal se tornou um ciborgue cara poderoso a solta que por meia dúzia de palavra se torna um assassino em potencial. Complicado hein? E o próprio Capitão sabe disso, sabe que ele sempre piora as coisas, mas sabendo que a lei não está mais a seu lado e em favor dessa enorme amizade e gratidão por tantas outras coisas que vimos bem em "Capitão América: O Primeiro Vingador", é o segundo motivo de causa de desequilíbrio sobre um assunto tão delicado,

E vamos a segunda pergunta que faz você se coçar aí na cadeira: afinal zequinha, você achou o filme melhor do que Batman vs Superman? Bom, por mais que deteste comparações e reconheça que elas sejam inevitáveis de serem feitas, até porque os dois filmes tiveram campanhas publicitárias e foram lançados no cinema em datas tão próximas, o primeiro confronto titânico entre a DC e a Marvel nos cinemas deu em vitória para a Marvel. Sinto muito DC, mas assisti aos dois filmes com igual atenção, e por mais que comparar a DC com a Marvel tenha um lado injusto de a Marvel ter "somente" 18 anos de existência e a DC/Warner nem saiu das fraldas além de as duas produtoras terem o conceito de heróis diferentes, o sucesso de construção dos dois filmes é tão abissal que chega a ser risível a comparação.

Enquanto deu vontade de aplaudir os Irmãos Russo durante toda a sessão, na sessão de Batman vs Superman a minha sobrancelha levantou pelo menos umas cinco vezes para tentar entender o que Zack Snyder estava fazendo. Tivemos aqui uma aula de como se adaptar ou se basear numa HQ, e principalmente, em como proporcionar fan-services sem parecer forçação de barra como o arquivo rar. no notebook do Lex Luthor. E posso dar vários exemplos, desde a cena da Flecha envolvendo o Homem-Formiga (Paul Rudd) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) até a cena da luta entre o Homem de Ferro e o Capitão América na caverna sinistra da Sibéria. Fan-services que o Érico Borgo adora não se tratam de serem gratuitas, mas sim de se encaixarm no contexto da história naturalmente. É assim que aquela sensação de querer levantar da cadeira vem à tona, ouviu DC? Aqui em Guerra Civil o "pau quebra" de verdade!

Mas o que me fez dar mais aplausos mentais além das sequências de luta espetaculares que parecem que só os Anthony e Joe Russo sabem fazer e que a Viúva Negra rouba a cena de novo e mais uma vez (ei Marvel, pelo Tesseract do peito do Tony quando vão fazer um filme solo dela caceta?), foi em meio a tantos heróis ainda sim o roteiro conseguir dar o protagonismo que o Capitão América deve ter, afinal, a Guerra Civil é o terceiro filme solo do cara né? Sem se perder em nenhum momento, não me lembro de um filme, até mesmo da Marvel, que tenha tido um roteiro que não tivesse deixado nem uma "ponta solta" nem para pensar no dia seguinte e que tenha me deixado tão plenamente satisfeito como esse. Até mesmo o vilão Barão Helmuth Zemo (Daniel Brühl, com trema mesmo porque ele é foda) que tem a motivação de um Coringa com sofrência em querer ver o circo pegar fogo entre os heróis (ei Jesse Eisenberg), tem na minha opinião um brilho que os vilões em outros filmes da Marvel não tiveram - até mesmo pelo filme ter tanto foco no confronto entre os "mocinhos".

Sobre o cabeça de teia, a sua participação além de ser pontual e sem frescuras, serviu para apagar mentalmente - assim como ocorreu com o Demolidor saca? - as participações insossas que ele teve nos últimos três filmes produzidos pela Sony. O Peter Parker que é nos apresentado é um moleque do Queens e sua Tia May (Marisa Tomei <3) é gata (apesar de eu não me ter acostumado a isso) e apesar de seu uniforme meio esquisito todo feito em CGI e extremamente fiel aos quadrinhos, sua pequena participação na cena épica do aeroporto é a melhor personificação do personagem no cinema. Nerd, tagarela, fanboy, é bem distante do descolado Andrew Garfield e do ótimo e sisudo Tobey Maguire me deixando bem mais ansioso para o que está por vir em seu filme solo. Pois é, a Marvel chutou bundas novamente!

"Capitão América 3: Guerra Civil" é o melhor filme da Marvel até agora, disparado sobre os outros e superando por pouco o segundo filme do Bandeiroso, coincidentemente dirigido pelos mesmos diretores. Guerra Civil é um filme que traz consequências permanentes no universo dos Vingadores e até dos super-heróis em geral e até por isso é o filme mais sério e um dos mais concisos, não vilanizando ninguém, apenas trazendo questões pertinentes para que VOCÊ decida quem é mais certo e quem é mais errado. Nem o Barão Zemo escapou disso, felizmente. =)

Claro que as piadinhas existem (a do fusquinha azul é sensacional!) como a participação de Stan Lee é obrigatória, mas não temos aqui o principal argumento de quem é fanboy da DC e cospe em qualquer coisa da Marvel como nos melhores momentos entre a batalha PT x PSDB de que os filmes da Marvel são para crianças. E com todo orgulho digo: Não, não são, seu doido varrido.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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