Resenha Livro: Ensaio Sobre a Cegueira (José Saramago)


"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." - José Saramago.

Sendo breve, "Ensaio Sobre a Cegueira" conta a história de uma inédita epidemia de cegueira, inexplicável, que se abate sobre uma cidade não identificada. A tal "cegueira branca" - assim chamada, pois as pessoas infectadas passam a ver apenas uma superfície "leitosa", uma luz branca, manifesta-se primeiramente em um homem no trânsito e lentamente espalha-se misteriosamente pelo país. Aos poucos, todos da cidade acabam cegos e reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. À medida que os afetados pela epidemia são colocados em quarentena e os serviços do Estado começam a falhar, a trama segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afetada pela doença.

Por que aconteceu isso, será um episódio de "The Walking Dead"? Por que todos foram acometidos pela doença menos a médica? No começo do livro nos fazemos diversas perguntas, mas a graça de "Ensaio Sobre a Cegueira" é justamente mergulhar de cabeça no mundo de metáforas e filosofias que José Saramago traz na sua ficção.

De acordo com o dicionário, a palavra ficção é um sinônimo de fantasia, é a elaboração e criação imaginária, fantasiosa ou fantástica; mas ao terminar de ler o livro é simples de se perceber que o autor traz diversos questionamentos que, de acordo com a declaração dele que coloquei no início da resenha, são dolorosos, mas sem dúvida alguma indispensáveis pra nossa vida. E dentre das metáforas a mais marcante, claro, é a cegueira. 

O livro não se trata somente de uma cidade que de repente fica cega e que os humanos de repente tem que se adaptar a isso, e talvez a própria "cegueira branca" demonstre exatamente a diferença da cegueira comum que o autor propõe. A cegueira aqui é aquela que acomete a todos nós, dia após dia, que não só nos esquecemos ou simplesmente nos negamos a perceber, se interessar e sentir certas coisas ao nosso redor, mas simplesmente no respeito que temos a pessoa alheia ou a falta dele. Essa cegueira vai daquela pessoa que só lê a seção de esportes no jornal até aquela pessoa que fura a fila, a "cegueira branca" ignora o que lhe é inconveniente e difícil, é difícil ler sobre política, é difícil ser respeitoso com todo mundo; se trata justamente da zona de conforto que muitas pessoas inertes a ela e ao sistema se negam a abandonar.

Com a sociedade sendo reduzida a nada, no começo do livro acompanhamos os desdobramentos horríveis desse "apocalipse" que decaiu sobre aquela cidade, com o Exército colocando os cegos em quarentena e os enfiando de qualquer jeito em um alojamento, passando a os tratar como nada, nem como seres humanos. E nessa situação extrema, não importa se ainda se vê ou não, para cada um, soldado ou cego, o instinto reduziu parte daqueles que estão ali em animais e a parte do alojamento serve muito bem para exemplificar o lado absurdamente egoísta de cada um, que mesmo passando pela mesma situação do próximo olha para o próprio umbigo.

Mas o mais belo da história é o quadro que Saramago pinta sobre a sociedade atual: a solidariedade, o respeito, a simplicidade, a humildade, o egoísmo, a alegria e a tristeza; o que está em falta e o que sobra somente quando perdermos alguma coisa. Ao abrir o livro vemos a frase: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara", e a partir da primeira pessoa ser atingida pela cegueira vislumbramos como o ser humano pode ser reduzido a pó, afinal, podemos viver sem energia elétrica mas não sem os olhos, percebe a gravidade? Aliás, o fato da cidade e as personagens não terem nome dá a real dimensão da inutilidade disso perante a situação. Somos o cara da padaria, o cara da banca, o cara do óculos, o velho, a criança... e a forma de Saramago os tratar dessa forma só aproxima ainda mais a história do leitor como se cada um dali fosse algum de nós, fazendo a gente se perguntar não só como nos lidaríamos a essa situação lastimável, mas no que passaríamos a valorizar na nossa vida relembrando o que está esquecido.

A jornada de cada um deles os coloca frente a frente com seus medos e fraquezas e Saramago deixa cada situação extremamente verossímil de se imaginar. Só damos o valor devido a algo ou alguém quando o perdemos, é só quando sentimos a pontada da saudade e da perda que passamos a perceber o que fizemos e o que deixamos de fazer de verdade, e é a falta da visão que os fazem ficar mais fortes diante a esses sentimentos, passando a valorizar tantos outros que passam a serem mais sentidos do que ditos em circunstâncias normais, como o amor. É emocionante o crescimento da rapariga de óculos escuros em toda a jornada, como ela passou de alguém que só busca o prazer para alguém que é capaz realmente de amar e perceber o que realmente importa na vida além da visão que ela um dia podia recuperar.

Falando da mulher do médico, esta é a única que vê, e ela serve como os olhos do leitor e na minha interpretação como os olhos do autor diante a essa mazela. Não é explicado em nenhum momento porque ela foi a única em toda a cidade a não ser atingida pela epidemia, mas tão dolorido como ser a única pessoa que tem olhos num mundo de cegos, a personagem é admirável e penso que ela não ficou cega porque ela justamente foi a que em nenhum momento se entregou, bravamente lutou contra as dificuldades e cuidou de todos do grupo igualmente, não perdendo o sangue-frio e a esperança de um dia ver todos recuperarem sua visão. Em certos momentos do livro parece que essa foi uma penitência a ela, mas em outros tantos momentos a vi como a pessoa mais valorosa dali como se ela tivesse algum "merecimento divino" ou a missão de ser os olhos de quem não vê.

 "Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança".

A impressão que tive ao terminar de ler "Ensaio Sobre a Cegueira" é que ele um livro difícil que requer paciência do leitor - até porque o estilo de escrita característica do autor dá essa dificuldade -, mas fantástico em suas metáforas sobre a vida. Não, não é um livro de auto-ajuda propriamente, é uma ficção sim; no entanto penso que Saramago quis justamente nos fazer sentir angustiados e sujos com essa cegueira, ele quis nos fazer perceber como um mundo sem esperança, sem respeito ao próximo, lotado de medos e sem uma reflexão em nossas atitudes, realmente nos faz cegos.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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