Resenha Cinema: A Piada Mortal

quarta-feira, julho 27, 2016


Primeiramente em "A Piada Mortal" não temos uma adaptação, e sim uma transposição, como deixei claro no início da resenha. Obviamente quem gosta da cultura pop sabe bem que mexer em histórias clássicas das HQs é mexer em vespeiro e qualquer tipo de alteração pode levar o roteirista à ser enforcado em praça pública, vide Zack Snyder, que se teve seu filme cheio de falhas, ao menos foi corajoso para colocar suas ideias diante aos fanáticos e é por isso é ainda mais amado e odiado. E é também aí que "A Piada Mortal" desperta uma questão interessante sobre as diferenças de adaptações e fidelidade.

Pense comigo, será que você iria querer que num sonho molhado a "Guerra Civil" da Marvel fosse transportada fielmente as telonas, sem tirar, nem por? Claro que numa animação baseada numa HQ não espero nada além do que "A Piada Mortal" entregou, um roteiro primoroso, mas o mesmo que li nas páginas da HQ e ganhou vida nas telonas. Sai com um sentimento de "tá, ok", meio gosto de pão amanhecido aonde o ingresso poderia ser revertido para o DVD e pizza portuguesa. Sei lá.

Bom mesmo é quando você sai da sala com milhares de discussões dentro de si, bom mesmo é quando saio da sala tentando externar tudo o que penso para vocês aqui no Descafeinado. Se um filme fosse realmente fiel a HQ ou livro como é largamente cobrado em fóruns da internet, antes e depois, será que seria bom a nós mesmos? Bom é causar discussão, mas bom mesmo é uma mídia se sentir livre para complementar uma história já lida anteriormente, como "Guerra Civil" que apesar das claras diferenças entre o filme e a HQ, se complementam e compartilham da mesma essência; ou você acha mesmo que "Senhor dos Anéis" foi uma péssima adaptação de um livro de mais de 1200 páginas de um escritor notadamente detalhista como Tolkien?

Outras mostras claras são "Game of Thrones" e "The Walking Dead", enquanto a primeira nas temporadas iniciais resolveu seguir a risca aos livros para depois se distanciar e provar que o nível de excelência se mantinha o mesmo, "TWD" apenas pega emprestado a essência e referências nas suas HQs, como a do olho do Carl, para fazer os fãs consumirem justamente as duas coisas. Uma amiga minha após ver GOT resolveu ler o primeiro livro da série e me disse que era exatamente o que estava lá, então cadê a graça? Aí se entende o distanciamento da série dos livros, até porque eles precisam continuar a produção sem esperar a boa vontade do velhinho George R.R. Martin. 

Para deixar claro de novo como se o negrito que coloquei não fosse suficiente, não estou criticando a animação e muito menos não estou atrás de filmes que me desagradem só pra criticar aqui. Não. Como disse, não esperava nada além do que a animação entregou, mas a exibição das mesmas animações nos cinemas a preços salgados (paguei R$40) traz à discussão de como é idiota o mimimi de adaptações "que não são fieis" e a reflexão da necessidade desse show acontecer. 

Enfim... Vamos a critica.  

Após um prólogo sem muita graça mostrando Bárbara Gordon, a filha do Comissário Gordon, ainda como Batgirl, mas importante para situar o espectador mais leigo sobre quem é realmente a Bárbara Gordon ao mesmo em que adiciona tempo a animação propriamente dita; mergulhamos em uma grande história em quadrinhos animada na telona do cinema. E que lindo que fica!

"A Piada Mortal" através de flashbacks espalhados em suas páginas e cenas, revela a tragédia de um péssimo comediante stand-up que não consegue sustentar sua amada esposa grávida e acaba se envolvendo meio que a contragosto em um roubo a uma fábrica de baralhos que trabalhava. Obviamente o plano pé-de-chinelo dá muito errado e surpreendidos pela polícia, os comparsas são mortos e o agora Capuz Vermelho se encontra frente a frente com o temido Batman, mas tremendamente assustado e sem enxergar quase nada, assim bem tosco, antes que o morcegão possa pegá-lo ele cai num tonel de produtos químicos e acaba se "transformando" no Coringa, o Jóker, o Paiaço. Mas voltando à realidade, na história violenta contida nos traços de Brian Bolland, após o prólogo, o Batman aparece indo ao Asilo Arkham para dialogar com seu principal inimigo para tentar dar um "fim" a espiral de violência que marca a convivência de ambos, mas ao interrogá-lo, ele descobre que o Coringa fugiu do sanatório.

A real aqui é a máxima que para se render a loucura basta um dia ruim. Esse é o argumento do Coringa e principal ponto para provar para o Batman de que eles dois, não são nada diferentes, afinal, bastou um dia ruim para os dois se transformarem no que são. E para provar seu argumento, o Coringa escolhe sequestrar o Comissário Gordon, que para todos é o exemplo de correção e honestidade transformando seu dia em um verdadeiro inferno. 

O roteiro irretocável da HQ de Alan Moore se apoia na pergunta de até aonde um homem pode aguentar sem surtar. A cultura pop é apoiada nisso, desde o icônico filme "Um Dia de Fúria" aonde o personagem estrelado por Michael Douglas sai do carro com uma 12 totalmente surtado até a construção do sociopata Walter White que fez tudo o que fez sempre apoiado no argumento da família, os dois tem em si contidos o mesmo argumento do Coringa, boas pessoas que tiveram dias ruins, os piores das suas vidas. Aí é importante percebermos que nós também não somos distantes de um Coringa, bastando uma decisão de chutar o balde escolhendo destruir nossas vidas em favor de uma ordem que não acreditamos mais existir. 

Ele é mau porque é mau? A verdade é que o Coringa, como sabiamente disse Alfred no "Cavaleiro das Trevas" de Nolan, que ver o circo pegar fogo, se afundando num abismo moral e renegando qualquer tipo de entendimento sobre a ordem real das coisas; para ele é tudo sem sentido algum e talvez por isso ele seja tão perigoso. Ele é amoral e não escolheu não ter medo, apenas se entregou a pura anarquia transformando toda essa ordem em uma grande piada. 

A HQ é responsável por expandir o breve entendimento da maldade além de nos mostrar de que as pessoas se tornam assim pelo ambiente que as cerca. Ou como diria Rousseau: "Nenhum ser humano nasce mau, a sociedade o corrompe", ideia que leva diretamente a um dos entendimentos do que é um sociopata. Não é uma maldade propriamente dita, mas sim o distanciamento do bem. 

O corrompimento causado por um Sistema enraizado nas moralidade que nos diz o que é bom e o que é ruim e que fez Walter White se endeusar durante as cinco temporadas de Breaking Bad, torna a culpa motivo de punição, alheia e a nós mesmos, aliando a tragédia aos dias ruins das nossas vidas de areia movediça. Isso dá total sentido a linha de pensamento do Coringa de que dado ao ambiente que nos cerca, nunca deveríamos ser diretamente responsáveis pelos nossos atos de loucura. Loucura essa que o Batman se entregou ao ver a morte dos pais e que fez ele se entregar à piada no final da animação, que como na HQ, não deixou clara se o Batman mata ou não o Coringa colocando por terra seu guia moral, mas ao mesmo tempo, também deixou mais clara a ideia da suposta morte do vilão.

Resumindo, "A Piada Mortal" mostra um Coringa até certo ponto humanizado e aproximado ao espectador a um Batman que está em cheque e não sabemos até que ponto é capaz de tomar alguma decisão racional, na verdade, durante a HQ inteira ele toma decisões assim, mas e no final? Será que a pergunta que ele fez a si mesmo no começo não foi respondida? Sua trajetória de justiceiro é questionável pois a mesma anarquia que o Coringa se apoia, é também praticada pelo Batman. Afinal como podemos definir racionalidade? De um lado ela aponta para o Batman dar um fim ao Coringa pois ele é o caos, mas matá-lo é uma decisão racional por si só? E se é assim, será mesmo que ele tem o direito de julgá-lo?

Cai-se num paradoxo. Primoroso.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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