Resenha Filme: Cidadão Kane (1941)

domingo, julho 03, 2016


Produzido, roteirizado, dirigido e protagonizado por Orson Welles (um moleque com 22 anos na época), "Cidadão Kane", além de ser presença constante na eleição de melhores de todo os tempos realizados por alguma coisa bem especializada, é bem mais conhecido do grande público por ser "aquele filme do Roberto Marinho" fundador das Organizações Globo, e como Charles Foster Kane, um magnata das comunicações que tem uma importância tão grande que até página na Wikipédia ele tem.

Mas o que deixa essa figura tão misteriosa? Se você pensou que é a "crítica velada a mídia", ou a suposta "lição de moral" à la o discurso belíssimo de Charles Chaplin ao final de "O Grande Ditador" que por causa do filme ser tão ligado ao Jornalismo te faz entender, esqueça. "Cidadão Kane" é um drama sobre alguém que construiu um império e morreu só, na verdade, um drama acima de tudo excepcionalmente bem executado e tão cheio de detalhes que é preciso vê-lo mais de uma vez para absorver corretamente essas nuances.

Essa aura de mistério se inicia nos primeiros minutos do filme, quando por cerca de 10 minutos num tom de documentário, somos informados sobre a morte do magnata das comunicações Charles Foster Kane e que a última palavra que ele disse foi a maldita... ROSEBUD. E que porra é essa? Está aí a grande sacada, tal qual as circunstâncias da morte de Kane (que não são reveladas e nem interessam) ninguém sabe e somos movidos por essa curiosidade até o final para um final surpreendente na desconstrução de Kane, onde presenciamos o auge e a queda.

Ao final do "documentário" lotado de transposições de telas entre a mansão e a morte de Kane e a atuação dele em vida, somos levados de volta a vida real a reunião de pauta dos jornalistas que realizaram a edição. Mas e a tal Rosebud? Todos sabem o que Kane foi em vida e o que representou, então, a pergunta natural é porque um homem tão poderoso iria pronunciar essa palavra sem nexo no seu leito de morte?

Bom, o jornalista Thompson é encarregado dessa tarefa entrevistando diversas pessoas que estiveram em vida com ele, como sua ex-mulher (Dorothy Comingore, como Susan Alexander), seu antigo melhor amigo (Jedediah Leland, interpretado por Joseph Cotten), seu mordomo, etc. E cada um deles conta uma história de forma magnífica, costurando assim o nosso magnata e nos fazendo tão presentes quanto Jerry Thompson (William Alland) na sua busca de descobrir o que significa a palavra Rosebud.

Claro que não vou contar, por mais que "me morda" querendo dar o spoiler mór por ele ser tão bem encaixado na trama, mas "Cidadão Kane", como disse, se trata da ascensão e queda de um magnata das comunicações que quando jovem, com uns 5 ou 6 anos de idade, foi forçado pelos seus pais a abandonar tudo aquilo para ser "muito rico". Portanto, Kane foi criado para ser o que foi e o enterro de seu trenó na neve que caia onde ficava a casa de seus pais representa exata mente isso. O olhar frio da mãe Mary Kane (Agnes Moorehead)  e a dúvida velada de seu pai Jim (Harry Shannon), são a quebra abrupta da infância de Kane, assim como o corte de cena para o momento que Kane já está com seu tutor Walter Parks Thatcher (George Coulouris).

Criticado na época, "Cidadão Kane" foi indicado a oito Oscars e ganhou apenas um como melhor roteiro e ficou famoso por ser tão criticado pela desconstrução do "mocinho". Na verdade nem tem um aqui, Charles Foster Kane é arrogante, prepotente, egoísta, sujo, capaz de pouco se importar com seus melhores amigos se estes não lhe ajudaram na sua maior busca: pelo amor; mas não pelo seu amor, como se vê bem claramente na relação dele com Susan principalmente, mas sim pela luta para que todos lhe amem e lhe vejam.

Uma frase ficou bem marcada na minha mente: "as pessoas vão acreditar no que eu quero que elas acreditem". E no contexto dessa frase dita pelo personagem podre de Kane que faz de tudo pelo poder, constantemente preenchendo com quinquilharias nostálgicas a infância que ele não teve, temos a crítica a mídia que é tão falada. O dono do jornal Inquirer multiplicou a tiragem do jornal simplesmente colocando notícias sensacionalistas sem se preocupar diretamente com a fonte. Os caça-cliques de hoje? Bom, a denúncia ao sistema está ali na nossa cara. Diziam: nos anos 40 a guerra estava lá fora e esse cara se preocupando com isso? A crítica ao filme também foi essa e creio que muita gente se levantou do cinema e foi embora.

Não costumo entrar em detalhes técnicos, afinal, sou um mero cara que curte boas histórias. Contudo, "Cidadão Kane" tem um brilho inquestionável e inesquecível no que se trata a atuações, maquiagem, uso da luz e sombra, fotografia, enquadramentos... É só prestar atenção a Thompson, sempre envolto em sombras representando o desconhecido, a narrativa não-linear e inteligentíssima, revolucionando completamente o modo de fazer cinema naquela época, a maquiagem de Welles e de todos os outros personagens que evidenciam os 70 anos de transição da história, a atuação reverenciável de cada um dos atores iniciantes (algo que o próprio filme em sua mensagem final deixa claro) que forçados pelo próprio orçamento do longa foram convidados, e sem vícios do cinema, puderam dar a obra toda sua potencialidade nos seus papeis das suas vidas, etc.

A impressão que temos de filmes antigos é que são "inassistíveis", e de certa forma são, se formos nos atentar para a linguagem e tecnologia empregada na época. Em outras palavras é como ler algum Machado de Assis, Franz Kafka, ou se voltarmos mais no tempo, "Os Lusíadas" de Luís de Camões; e tantas outras obras históricas. Com certeza ao inveterado, ou ao leitor de primeira viagem, quer dizer, aquele que busca um entretenimento a mais, a linguagem empregada nessas obras é difícil - até incompreensível se formos falar d'Os Lusíadas, afinal, é uma obra que tem lá seus 500 anos.

Mas voltando a cinematografia, apesar de ser um vovô de 75 anos, ao assistir "Cidadão Kane" pela primeira vez (sim!) tive a impressão de assistir a um filme que saiu ontem em DVD e que foi propositalmente filmado em preto e branco, um exemplo vivo da obra que revolucionou o cinema ao todo ao usar ao máximo toda a perspicácia e habilidade de todos os envolvidos da época, fazendo dessa uma obra que será atemporalmente atual dado a sua complexa compreensão e imensurável importância.

PS: Pra quem não sabe esse meme famoso mundialmente, é retirado daqui. Palmas Welles!


Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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