Resenha Filme: Meia-Noite Em Paris

domingo, julho 17, 2016


Talvez o mais complicado dilema de um cineasta e/ou roteirista é buscar na história o senso comum com o público; quer dizer, unir a fantasia, nem que seja um pouco, à nossa realidade fazendo com que tenhamos aquele sentimento de que sim, poderíamos fazer parte daquele mundo. Vejam os filmes de super-heróis e perceba a ligação mais característica que Stan Lee trouxe aos quadrinhos. X-Men por exemplo é nada mais do que o sentimento de esperança e a luta por uma inclusão de uma minoria, Peter Parker é nada mais do que um cara comum assalariado que é picado por uma aranha radioativa. Percebe a ligação da fantasia com a realidade? Nem que seja pelos dilemas humanos de um personagem de ação, o que importa é que saiamos do cinema satisfeitos e lúdicos se imaginando um Homem-Aranha ou um James Bond ao caminhar na rua.

Se podemos citar a característica mais firme da filmografia de Woody Allen (e com certeza a melhor delas), é a capacidade de ele conversar com o público constantemente. É a sensação de estar em um terreno em comum como se a vida dos personagens fossem parte da nossa vida, ou simplesmente sentir que os desejos do personagem principal também são nossos desejos. O ato de rir e questionar sobre os constantes mistérios e enganos que cercam a nossa vida, faz sentir com que eu esteja conversando com o diretor num bar aqui perto de casa, rindo das tragicomédias que cercam a vida, mas agora apelando também pra fantasia que nos faz sonhar.

Em "Meia-Noite Em Paris", Gil Pender (Owen Wilson, ótimo) é um escritor e roteirista americano que viaja com a sua noiva Inez (Rachel McAdams) e seus sogros para Paris, cidade que idolatra e talvez a discrepância mais óbvia entre os dois se dá justamente no que a "cidade das luzes" representa pra cada um.

Enquanto para Inez e seus pais republicanos que vem da classe alta e claramente tem outra percepção da vida, Paris é mais uma viagem de férias e de preparativos para o casamento; para Gil, roteirista de sucesso em Hollywood e escritor frustrado na mesma medida, vê a mesma viagem como um momento em que ele pode finalmente se sentir solto daquela aura enlatada de Hollywood. Gil precisa de inspiração, e estar nas mesmas ruas em que F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Salvador Dali e Pablo Picasso caminharam nos anos 20, é nada mais que estar aonde ele quer mais estar.

Paris é o sinônimo da arte, a cidade onde qualquer artista pode se sentir acolhido por ela dar a sensação de prestígio ao mestre, ao dono da inspiração. Fugir do "pseudointelectualismo", do "enlatado" é a constante mensagem do filme e uma tendência das obras de Allen.

A arte, qual ela seja, desde as estátuas de Rodin ao heavy-metal do Metallica, é para ser admirada, sentida; e não usada como um bastão de conhecimento. Esse personagem pedante de todos os dias está em Paul Bates (Micheal Sheen), amigo e algo mais de Inez que vê em cada passeio por Paris uma oportunidade de mostrar seu conhecimento, algo que Inez se encanta, talvez pela oportunidade que tem de diminuir um pouco mais seu amado Gil.

É exatamente a meia-noite de um desses desagradáveis dias, bêbado e perdido pelas ruas de Paris que a magia da cidade vem à tona, e em um desses momentos em que vemos um Gil extasiado ao ver Hemingway e envolto naquela aura de pessoas apaixonadas pela arte, em que ele acaba se apaixonando por Adriana (Marion Cotillard) vendo-se obrigado a confrontar a ilusão de que uma vida diferente poderia ser melhor que a atual. É aí que Woody Allen toca num dos pontos de nossa geração e de qualquer outra que conhecemos, que é a nostalgia. A sensação de ter nascido na época errada sempre será permanente, mas em contrapartida a sensação de satisfação será momentânea pois o amor e os dilemas que o envolvem sempre serão os mesmos. O que é necessário é buscar a tranquilidade para poder conviver harmoniosamente com o presente.

Gil aprende que ama Inez, mas de um jeito que ele nem se dava conta, pois ela frustra na mesma medida seus sonhos e desejos a cada vez que ironiza seu amor pela obra de Hemingway e sua busca por inspiração, o afastando da simplicidade que todo e qualquer artista como ele idolatra. Como o desapego para com si mesmo em andar na chuva, lembrando diretamente de Amélie Poulain. Talvez esse seja o momento mais emblemático do filme para mostrar que nunca podemos sublimar os nossos desejos sempre buscando alguém que saiba o valor inestimável que isso tem. Andar na chuva é como o prazer de estar envolto pelo silêncio. São as sensações mais simples, a de desapego e a de despreocupação é que nos completam em um mundo na qual temos cada vez menos contato com nós mesmos.

E ao debater com certa melancolia e bom humor esses e outros casos, em "Meia-Noite Em Paris" percebe-se também a mensagem mais óbvia, de que a arte é aquela que nos ajuda a entender a vida.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários