Resenha Livro: O Guia do Mochileiro das Galáxias (Douglas Adams)

domingo, julho 03, 2016


"O Guia do Mochileiro das Galáxias" em suas primeiras páginas já deixa bem claro que será um livro do tipo "ame ou odeie", claro, se trata de um livro de humor e acho que pela capa colorida e sem muito sentido desta edição lançada pela Editora Arqueiro creio que as pessoas deveriam deduzir isso (o óbvio). O humor em si é delimitado pela dualidade de opiniões e o sorriso amarelo na verdade é só simpatia. Bom, mas se tratando do ser humano, não deve-se surpreender com o absurdo de não notarem o óbvio e por isso esperarem algo completamente diferente, claro, é bem mais fácil julgar quem é nerd como um cara que obrigatoriamente ama a ficção científica e as aulas de matemática; e "O Guia do Mochileiro das Galáxias" como um livro sem noção alguma por não dar a mínima pro Planeta Terra. Em outras palavras, o absurdo mesmo é quando as pessoas leem ou veem o absurdo e são capazes de ignorar completamente a piada que está inserida nisso. A verdade absoluta e mesmo se você for um tapado é capaz de descobrir isso, é que o "Guia do Mochileiro das Galáxias" é não só o livro mais divertido que li nos últimos tempos, mas um dos mais criativos e inventivos da geração. E não é exagero.

Somos seres absurdos capazes de dificultar a simples resolução de problemas, desde responder uma pergunta diretamente com um sim ou não e tornar o sim ou não falta de educação, obrigatoriamente temos que dar uma explicação pro quem nem sabemos bem sobre o que é realmente. O "posso terminar de falar?", já ouviu isso? Já disse isso? Bom, planetinha absurdo esse em que a burocracia é intrínseca em cada um de nós, tal qual a impaciência em andar mais rápido do que quem está a nossa frente ou descer correndo uma escada rolante; enfim, vivemos num lugar aonde pra comprar um produto é extremamente fácil, pra pagar nem tanto, e pra trocar e/ou cancelar nos ensinam desde cedo a desistir.

Artur Dent é o típico inglês dono de uma vida medíocre que está para ter sua casa destruída porque imagino que ele more justamente no ponto C, aonde o ponto A e ponto B passam também. Deitado em frente ao trator vislumbrando a situação absurdamente burocrática que no fim o transformou em ativista sem ele nem querer, Ford Prefect, seu melhor amigo, ator desempregado e extraterrestre do planeta Betelgeuse, conta que o planeta Terra está para ser destruído. Bom, não desse jeito dramático. O lance é que os Vogons vieram pra cá e na construção do Universo perceberam que o nosso planeta fica exatamente no ponto C aonde o ponto A e o ponto B passam também. Assim Dent é salvo por Ford Prefect, sugado pela nave de seu meio primo Zaphod Beeblebrox, aonde estão Trillian e o sábio androide paranoide Marvin, o seu amigão de plástico, e saem pelos confins do espaço infinito.

Um dos principais pontos para se entender (ou tentar) entender o non-sense da trilogia de cinco do "O Guia do Mochileiro das Galáxias" é apreciar o livro aos poucos e ler certas partes mais de uma vez. A escrita de Douglas Adams é fluida e suas ironias sobre a vida, o universo e tudo mais são tão sutis e ácidas que cada página do livro - e principalmente aquelas aonde estão trechos do "Guia do Mochileiro das Galáxias", o verdadeiro, aonde estão todas (ou quase todas) as dicas necessárias para a sobrevivência no Universo - que relendo você acaba descobrindo ou se dando conta de muito da sua própria existência.

Na minha interpretação, Douglas Adams nos ensinou aqui que as coisas não tem realmente muito sentido, nem nós mesmos e nem pra onde vamos. O trecho aonde Slartibartfast, do planeta Magrathea - planeta criador de planetas que ninguém sabe se realmente existia até Zaphod teimosamente pousar por lá -, mostra a Arthur sobre a gravação do da criação do planeta Terra é até edificante no sentido que... o sentido da vida, o Universo e tudo mais é 42. Bom, passei a saber que somos espionados por ratos de laboratório e que os golfinhos, antes de os Vogons invadirem nosso querido planeta, tentaram nos avisar de nosso destino e nunca demos muita atenção, mesmo quando esses deram cambalhotas para trás assobiando o hino dos Estados Unidos, já que no alto de nossa arrogância demos risadas e pensamos que somos os seres mais espertos. Mas dica: os golfinhos são os seres mais inteligentes e não somos nem os segundos.   

No mais, "O Guia do Mochileiro das Galáxias recomenda: Pegue sua toalha.

Você pode enrolá-la ao redor de seu corpo para ficar aquecido quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; você pode usá-la para deitar sobre as areias de uma praia, no caso de Santraginus V; você pode utilizá-la como cobertor e dormir sob ela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; você pode navegar por um rio usando-a como uma vela para um pequeno bote para atravessar as águas lentas e pesadas do rio Moth; você pode molhá-la para utilizá-la em combate corpo a corpo; você pode colocá-la em volta do rosto para se proteger de vapores tóxicos ou mesmo para evitar o olhar do Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode te ver - estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode balançá-la em casos de emergência – ela servirá como um sinal. E naturalmente, você pode se secar com ela caso ela ainda esteja limpa o suficiente.

Um homem que está com sua toalha é visto por um estrito (não mochileiros no caso) como um alguém preparado, munido de sua escova de dentes, bússola, mapa, barbante, sabonete, uma lata de biscoitos, repelente, capa de chuva, etc e etc. Um sujeito capaz de lutar contra os principais perigos do Universo, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda saber aonde está sua toalha, merece respeito.

A toalha só não te ensinará a pronunciar os nomes impronunciáveis contidos neste livro. Mas não entre em pânico!

Como disseram os golfinhos: "Até, mais e obrigado pelos peixes!".

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários