Resenha Série: Stranger Things (1ª Temporada)


O que define nostalgia? Saudades de um tempo que se foi? Saudades de um tempo que não se viveu? De um tempo em que só se ouve elogios? Se você leu a resenha ou viu o filme "Meia-Noite em Paris" sabe justamente o que essa sensação de nostalgia traz no coração, às vezes, da saudade do nem se sabe o que exatamente. A verdade é que desde que temos a consciência do que é ser alguém realmente, adulto quer dizer, a vida lá atrás era sempre melhor. A partir desse momento crucial que essa sensação de insubstituivel nostalgia, entendemos porque nosso avô dizia que "no tempo dele era melhor"; agora somos chatos e ranzinzas que nem ele, do nosso jeito. Entendemos agora porque os bailes da saudade existem e que só assumiram a denominação de "festa" porque os anos 80 eram cercados disso, era cafona e colorido a ponto de usar uma gravata de bolinhas vermelhas no meio da rua e não ser taxado de palhaço. Entendemos que, ser criança era o que havia de melhor.

Ah os anos 80... Talvez a década mais cafona, mais emblemática e mais criativa da história da humanidade. Vamos pegar um período aleatório... O fenomenal período de 1982 a 1985 por exemplo: Tivemos o já citado "Poltergeist", "Blade Runner", "Conan", "De Volta Para o Futuro", "Os Goonies", "Christine", "Flashdance", "Star Wars VI", "Scarface", "Um Tira da Pesada", "Indiana Jones", "Karate Kid", o primeiro "Exterminador do Futuro", "Gremlins", "Caça-Fantasmas", "Footloose", "A Hora do Pesadelo" e o surgimento um carinha chamado de Steven Spielberg com um tal de "E.T.", puta que pariu! E na música então? Se nesse período Madonna, Micheal Jackson e Cyndi Lauper estouravam nas rádios, bandas do quilate de Red Hot Chili Peppers, Megadeth, Metallica, Guns N' Roses e Bon Jovi se formavam lá fora enquanto Ira!, Sepultura, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana surgiam na praça aqui no Brasil. 

É, existia música em terras tupiniquins...

Uma série com essas referências a ponto de fazer o Capitão América passar mal, teria como dar errado?

Junte a aventura de "Os Goonies", o contato com o sobrenatural de "E.T.", o jogo de luzes de "Poltergeist", a fantasia de "Dungeons & Dragons", o sombrio de Stephen King e Wes Craven, o monstro babão de Alien, os pôsteres de "Evil Dead", as referências a mil de "Star Wars", walkie-talkies, a bandana do Rambo, um pouco de Freddy Krueger, algumas mix-tapes carregadas de Joy Division e The Clash, a treta da Guerra Fria, e traga tudo isso até 2016. Ufa, pronto, nessa viagem no tempo você terá Stranger Things, a nova série exclusiva da Netflix e viral da última semana nas timelines alheias. 

Nessa temporada curtinha e sensacional de apenas 8 episódios feita pelos irmãos Matt e Ross Duffer, temos uma história ambientada na fictícia cidade de Hawkins, Indiana, onde os inseparáveis amigos Will (Noah Schnapp), Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) passaram horas no porão jogando "Dungeons & Dragons". E numa noite escura de Hawkins que sabemos de cor e salteado que algo vai dar errado, a caminho de casa, Will é atacado por um monstro e some misteriosamente sem dar pista alguma. Puf.

No dia seguinte, a mãe de Will, Joyce (Winona Ryder) se dá conta do desparecimento do filho e vai até a polícia para relatar o ocorrido. Inicialmente o entediado Chefe Hopper (David Harbour) dá de ombros, até por ela ser mãe solteira e por isso ser supostamente desleixada com os filhos; porém a medida em que o caso vai se desenrolando e revelando fatos realmente estranhos, Hopper acaba por se envolver diretamente com o caso, muito pelo próprio passado dele com a mulher e a filha. 

Percebeu que eu disse "filhos"? Joyce tem em Jonathan (Charlie Heaton) a principal força restante, e aquele que na loucura em que Joyce está metida, ainda tenta ainda racionalizar tudo colhendo e apresentando fatos, como pacatamente distribuir panfletos com a foto de seu irmão por aí; claro que sem resultado algum. A perda de Jonathan acaba sensibilizando Nancy (Natalia Dyer) que está naquele love com o popular e tipicamente babaca Steve (Joe Kerry). Mas como nada aqui é normal, numa festinha na piscina em que Nancy é chamada por Steve, sua amiga Barb - que segura uma monumental "vela" - desaparece também misteriosamente atacada por um monstro desconhecido, o que acaba juntando os dois na busca por Will, e agora por Barb (Shannon Purser).

No outro lado não tão distante da história, temos Eleven (Miller Bobbie Brown), uma garotinha de cabelo raspado que é "encontrada" pelos três amigos de Will que por si só resolvem fazer uma busca pelo amigo perdido. Revelando-se alguém de pouquíssimas palavras, até certo ponto inocente e de poderes psíquicos a fazendo parecer uma verdadeira representante dos X-Men, como bem observou Dustin, Eleven é a força motriz da série e é aquela que coloca o Dr. Martin Brenner (Matthew Modine) na história, nos mostrando que "Stranger Things" realmente é muito mais do que uma série de monstros atacando uma pacata cidade. 

Vamos ver. Hopper se vê no meio de uma conspiração governamental das mais cabeludas, Joyce é uma maluca que "fala com as luzes", Jonathan e Nancy estão num verdadeiro filme de terror, e o trio de garotos juntamente com Eleven estão num verdadeiro RPG. Porra!

Uma qualidade diretamente ligada a mistura extremamente bem feita da série é não ter brechas. Sabe aqueles momentos típicos de filmes dos anos 80 em que alguém faz uma cagada ou deixa de ver algo tão extremamente óbvio que te faz arrancar os cabelos? Algo clássico e charmoso da época, mas sinônimo de tosquice agora? Em "Stranger Things" não há isso, todos pensam rápido e resolvem rápido as situações justamente praticando o óbvio e duas cenas específicas que exemplificam bem isso ficaram na minha cabeça. 

A primeira é quando o povo está na busca pelo portal para o "mundo inverso" e Dustin se dá conta de que as bússola que ele carrega nem sempre está apontando para o norte, aí ele logo acaba percebendo que o tal portal altera a carga eletromagnética endoidando a bússola, justamente como seu professor acabou lhe dizendo em outra oportunidade. A outra situação está mais para o final da série, quando Steve está arrependido depois da surra que levou e estupidamente entra na casa em que Jonathan e Nancy estão esperando o monstro, porém mesmo sendo botado pra fora pelo "crush" e assustado pela aberração que apareceu, resolve tomar coragem e aparece pra dar um cacete bem dado no dito cujo.

"Stranger Things" separa totalmente o que é clichê do que é homenagem, usando todos os conceitos apresentados para construir uma história sucinta e coesa entre essas histórias paralelas que citei acima. Todas com o objetivo de encontrar Will, mas cada uma apresentando uma faceta que nos faz sentir climas diferentes em cada uma dessas histórias paralelas. E num formato curto, mas extremamente básico e perfeito de 8 episódios, faz com que cada cena seja fundamental para o andamento de história e impossibilitando totalmente de que algum personagem esteja mais deslocado da história ou em algum episódio específico. Todos que participam ativamente, até Barb, são fundamentais para o andamento da história e no envolvimento de cada um numa cidade em que todos até podem se conhecer, mas nem todos são amigos, e isso se nota claramente no desenrolar da série. A união se faz pela dor em comum, ou pelo monstro em comum. LOL 

E sobre isso, é na relação de Eleven com Lucas que temos uma das coisas mais fofas daquilo que se chama de amizade construída em cada waffle compartilhado, aliás, essa sensação de pureza transpira em todo o companheirismo envolvido nos três moleques; uma referência agora das nossas vidas, da nossa infância, em que tínhamos aqueles amigos inseparáveis que topavam qualquer parada, o que só faz aumentar a nossa simpatia ao torcer por eles em cada passo nessa aventura. 

Realmente Lando Calhassian é um grande traidor mesmo! =D

Esqueçamos o restante do ano de 2016, "Stranger Things" é uma série que não é de ficção científica, nem é de terror, nem é de aventura, é tudo isso! É uma série que você pode matar em um fim de semana preguiçoso, ao mesmo tempo que é uma das melhores coisas que poderiam surgir nesse ano. Então pula pra 2017 logo manolo!

Com ambientação perfeita e fortes personagens que se desenvolvem mutuamente ao longo da história, a série - começando pelos sintetizadores da abertura - traz consigo absolutamente todas características mais marcantes da época no cinema e é carregada pela atuação notável de seu enxuto elenco, principalmente de Winona Ryder que transpira emoção, intensidade e desespero em cada cena, e das crianças que roubam a cena construindo cenas incríveis em que a fantasia e a realidade se misturam deliciosamente, com uma pitada de ciência e nerdice como não poderia deixar de ser.

E sim, vamos a pergunta do século: Teremos uma segunda temporada? Sim, teremos. Obrigado Netflix!

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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