Resenha Filme: Bonequinha de Luxo


Holly Golightly (Audrey Hepburn) é uma acompanhante de luxo, uma garota meiga e sonhadora de Nova York que quer se tornar uma atriz em Hollywood e que nas suas andanças pela loja Tiffany's tinha um objetivo bem claro: conhecer e casar com um milionário. Mas essa suposta futilidade de Holly começa a mudar quando um escritor frustrado chamado Paul Varjak (George Peppard) se muda para o apartamento ao lado e revela a Holly que vive graças ao dinheiro oferecido pela amante rica em encontros casuais, num contraponto interessante da história, já que Holly enquanto não encontra um ricaço, vive ás custas do mafioso Sally Tomato que a paga para encontrá-lo na prisão de Sing Sing todas as quintas-feiras.

Só por esse parágrafo já dá para perceber claramente a mudança de paradigma que tem-se sobre o filme. As fábulas por si só existem graças a literatura e o cinema deu imagens a esses sonhos, mas a fábula que "Bonequinha de Luxo" parecia ser "cai por terra" se mostrando ser justamente o contraponto ao nos mostrar uma realidade suficientemente factível e triste, mas de uma forma absurdamente leve e graciosa, como a apaixonante Hepburn é através de cada olhar que desnuda o espectador de qualquer tipo de maldade que uma garota de programa poderia transmitir - aliás isso é algo que eu nem me lembrei enquanto via o filme.

E essa impressão que tive sobre "Bonequinha de Luxo" é exatamente aquela que "Clube da Luta" teve em mim e que fez o filme ser um fracasso de bilheteria, em que por vezes o título esconde quase que completamente o que o filme se mostra ser, esse no caso, um thriller psicológico e inquietante sobre a sociedade moderna. Então antes de ver uma história, precisamos entendê-la pois há filmes que são só mais que uma breve interpretação de texto, e isso significa que sobretudo precisamos entender a mensagem que a história acaba nos passando. Lembra de "não julgar um livro só pela capa"?

Diria que não somente precisamos existir, mas sermos; e mais do que sermos, precisamos pertencer a algo. Mas essa ideia de pertencimento, principalmente no começo do século, era facilmente confundida com posse em relação às mulheres. E o drama literário de Truman Capote, escondido debaixo das risadas e da leveza da linda e jovem Hepburn na versão transportada para o cinema de Blake Edwards, deixa bem claro a crueza urbana do pertencimento atrelada ao dinheiro que existia na época e existe até hoje.

Essa "futilidade" de Holly facilmente confundida com seu jeito extremamente dócil, esconde um sentimento de eterna fuga de um sofrido passado em que foi obrigada a se casar muito cedo com um homem que tem a idade para ser seu pai, sentimento de frustração simbolizado na figura de seu gato chamado somente de Gato. Para ela, dar-lhe um nome seria tomar posse dele e por ela sentir que não pertence à aquele lugar não acha justo fazer isso com ele; então o que Holly e seu Gato acabam passando é a ideia de que não pertencemos a ninguém.

E o lado romântico do drama acontece nesse momento, pois a figura de Paul se torna fundamental na mudança de Holly que ao ver um homem se sentir totalmente indiferente à sua presença e sem desejo carnal algum, confia sua amizade sincera a ele. Algo que o frustrado Paul também procurava tendo uma vida tão quanto fútil a dela, como se ele recém vindo de algum lugar, fosse o que Holly exatamente imagina para se afirmar, ele vindo e ela indo. E nessa forma leve de contar a história, o drama simplesmente mostra duas pessoas que somente querem vencer na vida.

Vencer na vida é algo que todos queremos mas que não fazemos a mínima ideia do que significa. A sociedade nos mostra que vencer na vida é ter um bom emprego, uma boa casa e uma boa família, mas penso que "vencer" é muito mais do que um sonho idealizado e arranjado. Só que a mesma vida ensina por A + B que quanto maior o sonho, maior a queda; faz a ideia do sonho por si só ilusória mostrando que a ideia do tão temido fracasso é uma constante difícil de engolir, mas que temos que suportar. E ter amadurecido é finalmente ter reconhecido o valor disso.

É o momento em que como se aquela frase do Rocky Balboa finalmente começasse a fazer o real sentido, já que aquelas lutas pelo pertencimento adolescente aventureiro que eu e você tivemos, agora simplesmente não fazem o mínimo sentido de acontecer novamente. Leva-se um tempo indefinido para entendemos que não devemos pertencer a nada e nem a ninguém, mas sim que constantemente devemos agraciar os outros com o desejo de pertencimento. E na leveza de "Bonequinha de Luxo", Holly e Paul acabam nos mostrando isso na leveza de sua amizade entre a contrastante vida real dos dois, onde eles acabam encontrando um no outro o que precisavam para sentirem que venceram na vida. Achando finamente o lugar em que deviam pertencer.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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