Resenha Filme: O Show de Truman


Truman Burbank (Jim Carrey) é um homem que tem sua vida filmada 24 horas por dia e 7 dias por semana interruptamente desde o início da sua vida. Acontece que ele foi o "sorteado" entre cinco recém-nascidos para um reality show colossal que se propôs a ser o "primeiro show real" da história. E para a ideia de Christof (Ed Harris) de reprodução da era moderna funcionar, foi construído um gigantesco estúdio cinematográfico do mundo, a ilha chamada Seaheaven (que ao lado da Muralha da China são as únicas construções vistas da Lua) com toda a concepção de mundo real. Casas, ruas, sol, mar. Tudo ali é "fabricado" artificialmente da forma mais crível possível para simular uma vida real que Truman se sinta confortável para ser fadado a viver e não querer sair disso. É um mundo dentro de outro mundo com uma verossimilhança assustadora com cerca de 5 mil câmeras espalhadas ao seu redor e milhares de figurantes que interagem com Truman dentro de um roteiro pré estabelecido e podem ir e vir de acordo com sua necessidade, menos Truman, claro, que é a estrela do show.

Transmitido de forma ininterrupta, o show tem sua publicidade veiculada de uma forma inovadora dentro do próprio programa, em que rigorosamente tudo que está ali está a venda, desde produtos alimentícios, a roupas, carros utilizados e até as casas que compõem o cenário. Tendo uma vida miserável portanto, Truman tem seus dias reproduzidos rigorosamente da mesma forma, dando "um bom dia, uma boa tarde e uma boa noite" como ele diz à seus vizinhos felizes, e trabalhando em uma empresa corretora que também faz parte do sistema de negócios do show. 

O filme começa no dia 10.909 da vida Truman e entre os flashbacks que explicam um pouco da história do personagem e porque ele acaba sendo fadado a permanecer nesta inércia, ao mesmo tempo em que nos questionamentos porque ele simplesmente "não resolve sair dali", Christof numa entrevista deixa claro: "aceitamos a realidade que nos é apresentada". E isso passa não só por Truman, mas creio que por cada figurante e cada telespectador que acompanha de forma ininterrupta a vida de alheia sem se importar minimamente com a sua própria. 

Impossível não ligar isso à crítica voraz a sociedade calcada no entretenimento e o papel que a mídia tem na sociedade, esta sociedade humana que ao contrário de qualquer outro ser vivo constrói o habitat a seu redor, transformando assim a mídia como um fator regulamentador desta ordem. Os reality shows são cada vez mais frequentes na sociedade e numa mídia que se importa primeiramente com o lucro, ela se importa (e com razão) em aquilo que VOCÊ deseja ver, e a curiosidade da vida alheia fez despertar a sensação de ser vigiado o tempo inteiro, transformando em sonho um desejo por um prêmio, este o bife preso no anzol de uma vara de pescar, fazendo-os, tanto espectador como participante, ignorar completamente o estado de direito dele próprio (no caso do BBB, por exemplo) e de Truman à sua privacidade. Sim, a pessoa (não Truman, claro) abriu mão disso se quis participar de um programa assim e não tiro a razão dela, mas tais programas existem somente porque tem público mais do que suficiente para consumi-las, relacionando a ignorância social a preguiça de ficar em frente a televisão (o Brasil é o país que mais assiste televisão, ficando mais de 4 horas em média em frente dela).

Truman começa a questionar o mundo em que vive a partir do momento em que começa a perceber suas falhas, como a interferência da frequência do rádio do carro dele e por lembrança de pessoas que resolveram contar a verdade sobre a plasticidade do mundo inacreditável dele. Aí vem a maior inspiração do filme ao traçar um paralelo interessantíssimo com a Caverna de Platão.

Publicado em "A República", este mito fantástico trata-se do Homem, que acorrentado a uma caverna, sendo assim, obrigado a permanecer de frente para as sombras e de costas para a luz; mesmo que este escolhesse se libertar, acabaria escolhendo as sombras, pois o mundo que a luz o mostra é ofuscante, desconhecida e não faz sentido para ele; fazendo-o assim escolher as sombras pois isto lhe é mais confortável e afagador. Com a diferença que Truman é o único que está nessa caverna, pois todos os outros podem entrar e sair de acordo com sua vontade. 

Lembram do entrevista que citei a três parágrafos atrás? A pergunta do entrevistador a Christof era "porque Truman não questionava o mundo a seu redor?". Bom, a resposta já disse, e a fala vai de encontro justamente com a comparação de Christof com deus e a necessidade de busca as respostas para o sentido da nossa vida mesmo que isso nos iguale ao ridículo ao abrirmos mão de uma vida recomendada e pré-estabelecida. 

Há de termos a coragem de questionar e superar nossos medos, como o paralelo entre o castigo divino e o medo do mar que Truman adquiriu, por ter visto seu pai se afogar quando tinha somente 8 anos de idade e a coragem que este teve em quebrar sua rotina clamando pela imprevisibilidade que era necessária para superar seu medo da água. E é interessante notar que mesmo sendo fabricada a morte como um ato importantíssimo para prender ainda mais a audiência, ninguém que está assistindo questiona sua decisão, mesmo que isto arrisque a vida de Truman, o que não só transmite a ideia do senso de ridículo que cada um está apto a ver alguém sofrer, como eles necessitam desse entretenimento fútil que alegoricamente é demonstrado pelo cara que vive na banheira. 

É sensacional aí a comparação que cabe à quebra de rotina. Podemos não viver numa cúpula de fato e as leis garantem nossa garantia de ir e vir, mas ao mesmo tempo que a liberdade seja uma conquista garantida, ela mesmo é aprisionada pelo sistema em que acabamos vivendo e a rotina é a palavra que define isso. Nascemos, crescemos, trabalhamos e morremos. Somos pressionados a ter um sucesso e proporcionarmos a nós mesmos uma casa, um carro, um amor e um cachorro numa vida de sonhos; e como jovem que sou, sou diariamente pressionado pela a ideia da obrigação de uma vida acadêmica bem sucedida para que eu possa ter as coisas que me satisfaçam, como se a formação fosse digna de definir a capacidade de um homem. Quantos de nós fomos ignorados simplesmente por isso em seus empregos? 

Cristof tem o papel de deus, mas também tem o papel máximo de senhor da lei da vida de Truman ao controlá-lo fazendo-o ser exatamente o que ele quer que ele seja. Ele diz a Truman que ele pode ir a qualquer momento, como a Constituição diz a nós, mas como o filme deixa claro, não é assim. Precisamos do imponderável pra viver e só ele faz Truman acordar e ir atrás do seu sonho independentemente da vida que lhe é dada, que é sem preocupações e sem risco. E mesmo que o seu amor adolescente tenha sido calado pela revelação da verdade e mandado a Fiji (justamente uma ilha), como se alguém contasse a um desentendido que deus não existe ou que o sistema não presta, a irracionalidade desse sentimento acaba fazendo Truman e acredito que cada um de nós a acreditar no imponderável que nos faça encarar o mundo, não só viajando, mas escolhendo aonde nos sentimos encaixados. 

Acredito que um dos papéis da arte seja expandir a mente sensorial do ser humano para níveis antes inexplorados, ao criticar a zona de conforto comum à todos e provocando a disseminação de ideias para que aquele homem comum conheça o desconhecido, compreendendo e passando essa sua sabedoria a frente. É isso que faz essa obras serem atemporais proporcionando essa percepção fundamental na construção de um caráter, e o filme dirigido por Peter Weir e escrito por Andrew Niccol lá de 1998, é fantástico ao repassar diversas reflexões da forma mais sensível e simples, entrelaçando o questionamento de temas atuais, como a responsabilidade midiática perante a construção social, a coragem em quebrar nossa rotina dando voz ao imponderável, e ao próprio deus que construímos e adoramos.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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