Resenha Série: Mr. Robot (2ª Temporada)

sábado, setembro 24, 2016


Num panorama rápido sobre Mr. Robot, a organização fictícia Fun Society configurou-se em uma grupo secreto de hackers anarquistas que queriam derrubar o maior conglomerado do planeta chamado E Corp (ou Evil Corp, como queira), que é mais ou menos aquela organização financeira controla até o que você come - numa "distopia" não muito distante de se a Apple resolvesse comprar todos os bancos que a gente conhece. O objetivo era derrubar o conglomerado e provocar uma crise financeira mundial liquidando as dívidas de todos os cidadãos que se sentiam presos ao sistema capitalista que vivemos, de nascer, crescer, trabalhar, aposentar, trabalhar, morrer e após a morte, quem sabe continuar pagando pela nossa estadia nesse planetinha. Lúdico não é mesmo?

Porém o que poderia ser uma série simples em se portar como mais uma voz à aqueles que querem realmente que uma mudança de sistema aconteça, em um plot twist desgraçado que ampliou totalmente seu espectro dramático, a série se revelou uma história de um filho que não superou a morte de seu pai e que finalmente juntou a persona Mr. Robot (Christian Slater) a Elliot Alderson (Rami Malek). Mas o charme de Mr. Robot se dá durante todos os episódios que compuseram a série até sua maior revelação, compondo um ambiente de mistério suficientemente bom para até nos entregar o que iria acontecer sem que dessemos importância a isso. Chega a ser risível tão quanto fantástico. E de novo temos isso nessa temporada na alegoria fantástica da prisão em que Elliot foi parar, mas por quê? O que ele fez?

A segunda temporada deixou de lado os múltiplos personagens para se focar quase que exclusivamente na mente de Elliot numa viagem simultânea que enlouquecia tanto Elliot como quem estava assistindo, e essa ambiguidade deu uma liberdade de roteiro absurda a Sam Esmail que soube explorar muito bem essa vantagem do real e não real pra si.

Sem medo de errar, Mr. Robot, entregou episódios misturando passeando nos mais variados gêneros, drama, terror, suspense e até comédia (S02E06 eps2.4_m4ster-s1ave.aes), sempre se aproveitando muito bem da mente conflituosa de Elliot como na cena do S02E10 eps2.8_h1dden-pr0cess.axx em que Elliot enquanto comprava equipamentos e dispositivos ao vislumbrar Mr. Robot enquanto este desaparecia quando o celular de Elliot tocava. Será que ele será fadado a conviver com este inferno para sempre? Em todos os doze episódios da segunda temporada Sam Esmail deixou claro que Elliot era o garoto que mal sabia o que estava acontecendo, o protagonista que é os olhos do espectador, que se perguntava também o que raios estava acontecendo naquele momento e quem era afinal aquela pessoa que apareceu para ele.

Artifícios esses, que junto aos enquadramentos característicos que por exemplo cercavam o mistério de cada momento em que a misteriosa White Rose (BD Wong) aparecia com sua filosofia do tempo, ou de qualquer silêncio entre dois personagens na série, só deixam Mr. Robot sensacional por ser tão detalhista em seus planos que não revelam quase que nada. Afinal, o que é esse tal de plano 2? O que é essa tal de Dark Army? O que a E Corp quer com a China? Elliot está tão confuso sobre si mesmo como nós.

Esse mistério é ao mesmo tempo cercado por questões pertinentes e realistas acerca da tecnologia, como a casa inteligente e assustadora do S02E08 eps2.6_succ3ss0r.p12 nos lembrando do futuro extremamente conectado do 5G e sobre as consequências que o romantismo desenfreado de qualquer organização social ou hacker, que a fsociety é baseada, trouxe a todos: grande desemprego e empobrecimento do povo, causando um caos social de saques e apagões nos mostrando que o capitalismo - assim como acredito que qualquer sistema - não só é um complemento a sociedade, mas aquele que nos faz ter um norte para sobreviver dignamente. Sistema esse sendo ao mesmo tempo algo tão enraizado a cultura do poder que ele se torna inquebrável justamente por causa daqueles 1% do 1% que Elliot tanto tinha medo e ainda tem desde a primeira temporada, dando também as claras de que esse golpe hacker, talvez tenha sido uma colaboração nefasta da E Corp para introduzir um novo tipo de moeda que veremos muito no século XXI: os BitCoins - teoria essa que o chefão da E Corp, Phillip Price, dá a entender.

Somos regrados por três lemas: poder, poder e poder. e talvez Elliot tinha noção disso, ciente que deveria dar de ombros ao romantismo indo mais além. Essa segunda temporada mostra um pedaço disso. Mostra que Esmail fez questão de aumentar a aura de mistério e deixou claro que ninguém ali se revelou o que é completamente, nem Elliot, nem o ressurgido Tyrell Wellick (Martin Wallstrom) e sua ambiciosa mulher Joanna (Joanna Olafson), nem a supostamente inocente Angela Moss (Portia Doubleday) e nem a própria agente do FBI Dominique "Dom" Di Pierro (Grace Gummer).

Mas talvez essa segunda temporada de Mr. Robot possa decepcionar alguém mais impaciente justamente por isso: ela não entrega nada e traz um monte de perguntas. E parece que Sam Esmail levou a sério o slogan que diz que "o controle é uma ilusão" transferindo isso também para nós resolvendo nos entregar menos ainda que qualquer um esperava, deixando de lado aquela história mais hermética que vimos na primeira temporada, logo, não combinando muito com o esquema semanal justamente por isso. Talvez o esquema Netflix de entregar todos os episódios de uma vez seria mais adequado à complexidade da série.

Bom, recentemente ele revelou que Mr. Robot terá "quatro ou cinco temporadas", sendo assim, fico ansioso pra saber o que há por vir imaginando que Esmail tenha já pensado em uma história que se alongasse durante todas as suas temporadas e não resolvendo algumas durante uma apenas, algo que podemos sentir na investigação feita pela agente do FBI que há muito mais a revelar e principalmente sobre papel de Angela nesse rolo todo. Nem sei mais se Elliot é o "mocinho"...

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários