Resenha Série: Sons of Anarchy (2008-2014)


Entre toda sua simplicidade ao entregar uma trama carregada do "espírito sexo, drogas e rock n' roll" por cima das amadas Harleys, Sons of Anarchy mostra basicamente o dia-a-dia da luta entre gangues na cidade fictícia de Charming, Califórnia. Mas o que tem de interessante nisso?

Bom, a evolução de um ser humano. Além de Sons of Anarchy se revelar um drama espetacular e surpreendente, o andamento das sete temporadas da série se assemelham muito a Breaking Bad no que Walter White nos ensinou lá no primeiro episódio da série. Assim como Walter, a SAMCRO e Jax, cresceu, caiu em declínio e se transformou.

Jax Teller (Charlie Hunnam) é apenas só mais um garoto bonitão e rebelde, filho de um dos fundadores da SAMCRO, Jackson Teller, e que gostava de motocicletas e de umas brigas de vez em quando; mas o ponto central para a mudança da história é quando ele encontra as cartas de seu falecido pai. Até então Jax fora ensinado pela sua mãe, Gemma Teller (Katey Sagal) e pelo seu padrasto e presidente do clube de motoqueiros (também fundador) Clay Morrow (Ron Pearlman), que seu pai tinha falecido em um acidente de moto - o que já é uma premissa estranha dado ao seu amor por motos que lhe faria perceber se havia qualquer defeito. Nas cartas Jax, ao contrário do que podia se interpretar, viu seu pai como uma pessoa problemática que sofria e que via o seu amado clube Sons of Anarchy como algo que estava muito distante de seu sonho, já que o clube estava metido no tráfico de armas com o grupo extremista irlandês IRA indo contra qualquer tipo de "amor pelas motos".

Até então Gemma, que faz tudo "pelo amor ao clube", descobre que Jax pegou tais cartas e fica amedrontada com a ideia de ele estar buscando a verdade. Que verdade? Isso não posso contar.

Para mim, Sons of Anarchy se apoia em três pontos principais: mentiras, família e sacrifício.

Hoje é muito comum os amigos de internet, aqueles de bares e de rolês avulsos aonde se escolhe entregar a vida de peito aberto num risco constante de quebra de confiança resultando no mais puro sofrimento e descrença. Que adolescente não passou por essa baboseira, afinal, que tipo de satisfação devíamos a quem nunca vimos e jurávamos amar quando nem sabíamos o que era realmente isso?

Essas pessoas descartáveis naturalmente você perde, sofre e ri num círculo de aprendizado que entram também aqueles amigos que jurávamos ter para sempre, que crescem e desenvolvem através das experiências e adquirem gostos totalmente diferentes dos nossos se afastando cada vez mais. A medida em que envelhecemos e as nuvens passageiras vão embora, percebe-se que temos também que evoluir, nos modificar, e se arriscar a beleza de cultivar aqueles amigos em que realmente confiamos através do respeito e do amor. É muito se carregamos um amigo de infância, e se há na sua vida, você venceu nela. Contudo, são justamente esses pilares dessa relação primitiva que podem destruir da forma mais profunda um ser humano já calejado.

Na Shakespeariana dança sangrenta de Kurt Sutter num mundo em que não há super-heróis e nenhum tipo de clemência onde a paz tem a fragilidade de um castelo de cartas no meio da ventania; via-se a cada final de temporada as tentativas de um equilíbrio totalmente arruinados a cada verdade revelada por debaixo de outra mentira. O crescimento, declínio e transformação passaram-se a aplicar perfeitamente a Jax Teller quando essas verdades, não só de seu pai, iriam se revelando uma a uma enquanto restava a Gemma a muleta da família como uma desculpa para seu egoísmo doentio. Na verdade, as pessoas que acreditávamos serem amigas, iriam se esvanecendo uma a uma.

Costumo pensar que amizade é como sono, quanto mais você envelhece, menos tem, e o que Sons of Anarchy ensina é o que a verdadeira amizade é capaz; não a de "romper barreiras" e blá blá blá, mas sim aquela que aguenta aos tremores mais fortes capazes de sustentar a SAMCRO mesmo quando ela não tem mais nada em pé. São esses poucos amigos que vamos carregar até o túmulo, são esses que levarão parte da nossa vida quando esses encontrarem a morte e que devemos cultivar. A amizade de infância é o verdadeiro legado que podemos deixar pra nossa vida em vida, e a morte de um membro de infância pela sua irresponsabilidade é que deixará Jax sem chão, talvez resoluto do que deveria fazer.

Jax cresceu graças as verdadeiras pessoas em que ele tinha ao lado e fez o seu destino graças a eles. Mas percebeu também que era um covarde, que como seu pai, ele não aguentava mais a ideia de viver naquele tipo de vida presa em um círculo em que acordar era ter o sangue em seu tênis, numa rede de mentiras em que todos ao seu redor estavam envoltos, amigos, filhos e mortos se era impossível de se escapar ileso. Jax não aguentava mais ser constantemente destruído, e nem eu também, na estrada mais tortuosa que tive desde Breaking Bad.

Foi onde ele precisou deixar toda merda pra trás e proteger todos quem ama, o clube e família, escolhendo se revelar a seus filhos o que realmente era: um egoísta assassino e criminoso da pior espécie que aprendeu a frieza de tirar uma vida. Jax Teller escolheu cultivar a verdade que nunca teve por completo.

Curiosidades:

- A música da sequencia de abertura da série chama-se This Life e é cantada pelo cantor americano Curtis Stigers;

- Katey Sagal, a Gemma, é casada com o criador da série, Kurt Sutter, desde outubro de 2004;

- Outra curiosidade sobre ela é que na vida real, Katey tem um filho chamado Jackson, mesmo nome do seu filho na série;

- Sabe o medo que o personagem Tig tem de bonecas? Então, ele é chamado de pediofobia e Kurt Sutter sofre disso na vida real;

- Wayne Unser, o xerife da cidade onda a história se passa, é claramente controlado pelo clube. Seu sobrenome (Unser), em alemão, quer dizer “nosso”;

- E claro as participações especiais que você vê no álbum abaixo:


Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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