Resenha Cinema: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares


Baseada no livro homônimo de Ramson Riggs, "O Orfanato tralala" (vou chamar assim porque eu quero e porque o título é longo pra cacete) é um filme roteirizado por Jane Goldman e (vamos ao que mais interessa) dirigido por Tim Burton. E é aí que mora o maior problema e o maior mérito do filme, mas calma que vou explicar o porquê.

A história gira em Jack Portman (Asa Butterfield) e seu avô, Abraham Portman (Terence Stamp). Jack é um típico adolescente loser e sem muitas perspectivas de vida que trabalha diariamente em uma loja de conveniência e tem dificuldade pra falar com garotas. Bom, tudo isso é contado mais rápido do que a Coca no braço da cadeira que estava sentado. O fato é que quando Jack era criança, seu avô lhe contava histórias fantásticas sobre crianças (tã dã) bem peculiares, tal qual uma que é leve que nem o ar e outra que é invisível, e lhe mostrava até fotos sobre isso. Fascinado sobre as histórias de seu avô, Jack as mesclava em sua realidade e como qualquer criança, sonhava em um dia ir para a ilha Galesa que seu avô apontava no mapa dizendo-lhe que esse Orfanato estava ainda lá.

O fato é que todos nós tivemos esses sonhos lúdicos, é uma das partes que nos fazem criança. Mas aí a gente cresce e a medida em que a realidade vem à tona, se percebe o quão tolas podem parecer essas histórias de dormir que nosso avô nos contava. Então Jack vai se despedindo dessa realidade, mas confrontado pela morte de seu avô, vê que esse sonho em que ele viveu durante parte da sua infância é o que ele precisa pra poder viver - já que seus pais pouco colaboram pra isso, sendo mais fúteis que o caderno da Hello Kitty.

Se é que dá pra dizer que o filme trabalha alguma coisa, o Orfanato de Tim Burton remete à essa época lúdica nossa de sonhos e fantasia, e como precisamos de um objetivo pra poder viver. No caso, o lugar que seu avô disse estar o Orfanato, é o lugar em que ele sente que precisa ir, já que não é só um adolescente perdido, mas como não tem muito o que fazer ali aonde está.

A questão que "O Orfanato tralala" é aquele filme que só Tim Burton poderia fazer, como a sua revisitação a história da "Alice No País das Maravilhas". Sua estética gótica e fantasiosa marcante aliada as lições infantis, marcou os anos 90 com dezenas de filmes do calibre de "Batman", "Edward Mãos de Tesoura", "Beetlejuice" e "Sweeney Todd", por exemplo, tornando a experiência de um bom roteiro única, já que essa estética de Burton é impossível de se reproduzir. A partir do remake da "Fantástica Fábrica de Chocolate" (que é deveras divertido porque o original era tanto quanto) senti que a escalada do diretor tinha um viés de queda. Não que fazer algum remake é ruim e Burton era esse cara capaz disso em relação à aquele clássico filme, contudo, esse foi o principal significado que o filme me passou e o tempo só confirmou o meu pensamento: Tim Burton nada mais virou que um cara que cuida das alegorias da escola de samba em vez do enredo - o que um diretor deveria cuidar primeiramente.

E assim vemos Tim Burton no automático, refletindo até em seus atores como Asa Butterfield (sim aquele "Menino do Pijama Listrado) e atrizes como Eva Green (uma das prostitutas de "Sin City") a Srta. Peregrine no filme, que são mais carismáticos que a pedra da casa do Patrick. Mas nada é tão decepcionante quanto os furos óbvios que até o mais distraído percebe, como quando Emma (Ella Purnell), a garota mais leve que o ar, mergulha com Jack aproveitando o peso de seus botas, mas logo depois nada com ele como se elas não pesassem nem uma grama; ou mais pro final quando o mau encarado Enoch (Finlay McMillan), que é capaz de reviver qualquer ser lhe construindo um coração, monta um exército para combater o vilão Barron (Samuel L. Jackson), sendo que o filme em si nem explica a rapidez com que ele é capaz de fazer tal coisa.

Obviamente optando por um caminho menos alinhado com o terror e mais direcionado a algo "sessão da tarde", Tim Burton apela pra personagens rasos em um filme rápido e sem carisma, como se fosse seu grupo de super-herois dirigidos para os pequenos. O seu "Orfanato da Srta. Peregrine" é até um filme que entretém por ser de... Tim Burton (e ele é legal pra caralho), mas muito comedido para a filmografia do mesmo - até é um filme feio se você comparar com outros do mesmo diretor. E como qualquer filme nada, esse é um filme esquecível assim que você sai do cinema, o que é muito pouco pra o que eu já vi dele. Mas enfim, enquanto essa preguiça durar, Burton continuará a ser um mero carnavalesco do cinema.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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