Resenha Série: Luke Cage (1ª Temporada)

domingo, outubro 30, 2016


A Marvel sempre teve consigo o charme de ter heróis que são mais aproximados a humanidade, quer dizer, gente como a gente. Claro que vamos deixar o Thor um pouco de lado, mas a questão é que todos os outros tem em comum entre si o heroísmo como um fardo a ser carregado, algo que nós, guardadas as proporções, também carregamos. 

O que quero dizer, é que por mais que o Tony Stark tenha o cu entupido de dinheiro e o Peter Parker seja um pobretão fracassado, a humanidade que eles carregam dentro de si faz o suposto heroísmo ser algo que se torna indefinível. Afinal, o que ele é? Algo pra alimentar o ego? Algo que te faz ser prepotente? Algo que te dignifica? Algo que te enfraquece e te fortalece ao mesmo tempo? Talvez seja tudo isso. 

É ai onde se encaixa o grupo de heróis urbanos da editora formado por Demolidor, Justiceiro, Luke Cage, Punho de Ferro e Jéssica Jones. Criados também por Stan Lee, eles são meio que aquelas pessoas que inspiradas por alguém maior resolveram encarar um sistema falho e quebradiço em que eles vivem pra fazer justiça por suas próprias mãos ou simplesmente resolver seus problemas. E num placar de 3x0, a Marvel poderia muito bem se assentar numa fórmula que estava dando certo com Demolidor e Jéssica Jones, mas com Luke Cage ela resolveu virar o jogo novamente e jogar com um novo estilo de narrativa. 

Em seus 13 episódios, Luke Cage (Mike Colter) apresenta a história um homem que na busca de encontrar seu norte, resolveu fazer justiça com as próprias mãos por ver sua nova vida impedida de ter tranquilidade pela constante violência do seu bairro. A habilidade de ricochetear balas é um mero detalhe. O que importa aqui é o próprio Luke e aonde ele vive, um lugar que é rodeado de injustiça e corrupção, mas também lotado de pessoas que tentam fazer o certo diariamente. Como no bairro que a gente vive. 

E essa é a grande diferença de Luke Cage para as outras séries do estúdio. Ela não é construída necessariamente em cima dele e de quem ele quer liquidar, o que era o caminho natural, mas sim sobre o Harlem, sua cultura e suas pessoas. Sobre o que o negro norte-americano é. E para isso precisamos de um pouco de contexto:

Luke Cage foi criado nos anos 70, talvez o auge da cultura negra norte-americana, onde o país via surgir um fenômeno conhecido com "Blacksploitation", um movimento cinematográfico realizado por atores e cineastas negros feito para negros, reflexo claro de um país ainda fortemente segregado, aonde tanto negros e tanto brancos (até hoje) não acabam tendo o mesmo espaço. Aproveitando-se desse momento, Stan Lee cria Luke Cage com a mensagem forte de ser sobre um "herói negro à prova de balas", como a Netflix faz questão de ressaltar na idolatria dos habitantes do bairro por Luke, que veem nele uma imagem de justiça, por não confiarem nem um pouco na polícia, ou sistema no caso. 

Bom, pouco vimos de Hell's Kitchen, mas o Harlem é muito vivo. E uma boa mostra disso é que até a vilania é dividida em vários personagens, como se ela crescesse e amadurecesse, se mostrando cada vez mais enraizada a cada passo que Luke dá em busca de sua redenção. Que no final das contas também sofre por um sistema totalmente falido, dando razão à super humanos como ele de existirem. Nos sentimos tão frustrados quanto ele ao ver que (parafraseando a Hydra) "aonde se arranca uma cabeça, surgem duas".

Mas nem tudo é perfeito, infelizmente pareceu que os roteiristas fizeram bastante esforço para preencher os 13 episódios devido à seu começo muito parado, em suma, o que foi resolvido em 13, poderia ser em 10; e isso me frustrou um pouco, mas nada que chega a atrapalhar. Ao chegar ao final da série percebi que isso acaba se justificando e valeu à pena. Só que esse alongamento acaba fazendo mais mal que bem às séries da Marvel, já que poderiam ser facilmente resolvidas por estarem hospedada na Netflix, e não numa rede de televisão aberta condenada a avaliação da audiência. 

Resumindo, o saldo da parceria entre Marvel e Netflix é mais positivo do que negativo mais uma vez. Luke Cage não se trata de heroísmo, trata-se da tentativa de ter uma redenção, da revolta de um cidadão e da sobrevivência à injustiça. E apesar de ser uma série parada para os padrões da Marvel e que pode entediar quem espera que uma série de super-herói seja mais heroica, Luke Cage é uma serie extremamente competente. Ela não é melhor que Jéssica Jones e nem Demolidor, mas o mais urbano dos heróis da Marvel se mostra muito mais forte do que aparenta, mantendo acesa a curiosidade pela série do último dos Defensores, Punho de Ferro.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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