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domingo, novembro 27, 2016


Mesmo que Black Mirror tenha perdido com a sua popularizada nessa terceira temporada produzida pela Netflix a característica do choque (que ao lado de uma ácida reflexão provocavam um rebuliço em nossa cabeça suficiente pra não conseguir assistir outro episódio da série em seguida), a série ainda sucinta muitas discussões (nos dando aquele tapa na cara bem dado) e ainda mantém aquilo de mais importante: falar da tecnologia exagerando o presente. Sim, o presente. E costumo dizer que Black Mirror é aquela série da coceirinha eterna justamente por isso.

No episódio que abre essa primeira temporada chamado "Nosedive" discute-se o conceito de tecnologia aplicado à sociedade, falando do óbvio, mas abrindo um leque de discussão milenar que é a ânsia de notar e ser notado e como a tecnologia serve pra potencializar isso no sistema em que vivemos chamado sociedade.

Lacey (Bryce Dallas Howard) é a típica usuária de redes sociais - que eu e você conhecemos muito bem - e que passa o dia postando o melhor do seu dia para mostrar relevância e suposta felicidade de uma vida perfeita. No episódio, temos um app que simplesmente funciona como avaliador em tempo real do que você é para a outra pessoa; portanto, valerá de tudo para que você cause essa boa impressão alheia e aumente sua nota como se as relações sociais fossem um joguinho, não importando que isso seja moralmente falso.

Assim que a história vai se desenvolvendo, Charlie Brooker trabalha três em cima de três temas relevantes: em pessoas em que o número de shares e likes ditam sua vida provocando uma falsificação constantemente da sua realidade, a dificuldade e por muitas vezes a negação das pessoas em se relacionarem, e a elevação, e por consequência, segregação social que esses tais números provocam.

Basicamente você é o que você posta, não importa se aquilo está sendo real ou se é seu verdadeiro pensamento, vale o número de curtidas e compartilhamentos: como o Twitter por si só que sobrevive dos piadistas de ocasião. E sobre isto, a piada aliás só faz sentido se várias pessoas rirem, isto é ligada ao ego num fio que leva até a nossa felicidade e tudo isso nos leva ao consumismo tecnológico.

Obviamente você não curte algo triste e sim feliz, portanto daí é apenas um passo para que momentos sem sentido muitas vezes apareçam na sua timeline; é a satisfação de compartilhamento de momentos, de ver as outras pessoas curtindo o que você está comendo unido com a inveja que você possa provocar por este momento.

Isso vai de encontro ao sistema de ranqueamento social que "Nosedive" trabalha através de seu app em um flerte com a classe média imergida problema bastante comum, que é o desejo de pertencimento.

Lacey deseja sair da casa do irmão e vê uma casa em um bairro de classe média-alta que é o sonho propagado, mas como se não bastasse a surpresa dela quando a corretora lhe mostra o preço do aluguel esta também lhe diz que para o negócio ser fechado é necessário que ela tenha uma pontuação de 4.5 quando Lacey tem apenas 4.2.

Na brincadeira inocente, o sistema de pontuação ficcional do app meio que passa desapercebido por você diariamente, isto é, no mundo real você demonstra que a outra pessoa é legal curtindo algo dela, ou voltando mais no tempo, avaliando como sexy, legal, e confiável da época do finado Orkut. Afinal, o que mais seria o recado do "amei" numa selfie sua? Voltando a "Nosedive", em outras palavras, só é digno de morar ali quem está adequado a esta nota independentemente de seu valor social. Se o app ranqueia as pessoas na ficção, o que mais então significam nossas roupas na vida real? Já vemos evidências claras disso em sites de relacionamentos que só elegem pessoas que sejam de uma classe social maior vasculhando os perfis sociais buscando um padrão. Como disse, Black Mirror brinca com o presente.

Precisamos ser notados, precisamos da felicidade; e isto leva muitas pessoas a não serem o que são. Isto vai desde aqueles que criticam a ideia até aqueles que abraçam a mesma ideia, como o irmão da Lacey, que na briga que tem com ela corre para o app para ver a sua avaliação e avaliar negativamente a irmã num gesto de vingança. A ameba que critica a ameba por ser ameba está no mesmo barco.

Criticar é pop e por isso há tantos canais desse tipo no Youtube, o falem mal mas falem de mim nunca foi tão válido pois a popularidade se baseia em nada mais do que buscar pessoas que criticam tanto quanto você o sistema, sendo que você mesmo usufrui disso, como o irmão dela. Só que por mais falso e mesquinho que isso seja, o assunto merecedor de todas as críticas e revoltas que ocorrem desde que o homem aprendeu a fazer fogo faz parte de todos nós, isso é o que queremos.

Oras se detestamos tanto a elite, por que então queremos levar uma vida como elas? Por que passamos a vida criticando youtubers que ganham milhares de reais falando bosta sendo que "você faz isso de graça" diariamente? (Demonstrando na fala aquela pontinha hipócrita de inveja unida ao desprezo). O que vale no sistema em que vivemos é a propagação da sua ideia, dançarmos de acordo com a música, mas principalmente a satisfação que as suas ações lhe trazem.

Em outras palavras, o foda-se.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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