Donald Trump e Waldo, Black Mirror ataca novamente

quarta-feira, novembro 09, 2016

Se você não percebeu, este é Donald Trump

O ser humano por si só detesta a sensação de igualdade, temos que nos categorizar, nos hierarquizar, dizer com o peito cheio que somos melhor do que o outro; precisamos dizer aos outros que o lugar aonde moramos é bom e confortável, precisamos ter orgulho de nossos vizinhos e do país: "a minha casa é melhor que a sua, chupa", portanto as mudanças trazidas pela democratização e tentativas de um socialismo são constantemente soterradas por esse sentimento bélico que os EUA trazem na sua suposta "governança mundial". É essa sensação de grandeza que faz pessoas que majoritariamente defendem os brancos, os ricos e os tradicionalistas em torno da "velha política que se vê que não dá certo".

Num contrato social Hobbesiano, abrimos mão de nossa liberdade para ganharmos uma sensação de conforto, e no caso, a sensação de mudança é muito mais valiosa do que a dúvida por Trump ser partidário de ideias conservadoras e preconceituosas. Apoiado num discurso prepotente voltado para o americano branco e elitista que ele mesmo faz parte, prometeu fazer a América voltar a ser grande, o que acabou por conquistar esses e outros americanos que querem seu conforto e um mundo nostálgico que era supostamente mais simples.

Será que eleger "gente como a gente" é a melhor solução para um cargo em que é preponderante que haja o bom senso? Não ser político é a correta renovação? A eleição desses políticos personagens como Trump e sua xenofobia e protecionismo indo na contramão de um mundo cada vez mais globalizado, somente refletem um povo que é igualmente como ele, mesmo que seja naquelas "brincadeirinhas" supostamente inocentes e sem graça dos papos de bar da sexta-feira. A arrogância americana está de volta mais do que nunca numa guinada inversamente proporcional à simpatia de um Obama. Trump foi eleito e qualquer personagem político será ao dizer o que esse povo frustrado por não ser "grande" quer ouvir.

Com a eleição de Donald Trump, vislumbramos uma perigosa guinada a direita sobre o mundo, mas ao contrário das consequências políticas que vimos tanto no século XIX quanto no XX com a explosão do fascismo, comunismo e dos diversos regimes ditatoriais (principalmente na América do Sul), agora temos a explosão dos políticos que não são políticos que seriam cedo ou tarde, uma consequência direta da democracia e da liberdade. Mas é justamente nesse momento de incertezas sobre a liberdade que deve-se refletir o que tem sido a política e qual o papel real do povo nela.

Tenho certeza que você já ouviu algumas dessas frases em algum lugar.

"Eles estão roubando nossos empregos"
"Pra que existe esse sistema de cotas se eles clamam por igualdade"
"É essa minoria que está sendo preconceituosa com quem verdadeiramente trabalha nesse país"

E por aí vai...

Primeiro o Brexit, agora a eleição de Trump, o mundo anda cada vez mais dividido pelo dinheiro e ideologicamente; e mais do que qualquer governante, é o medo que governa. Cada vez mais esse medo fazem os povos historicamente elitistas se fecharem em torno de si mesmos regredindo décadas de esforços diplomáticos em cerca de alguns anos acreditando cegamente numa meritocracia que não há, nisso Dória e Trump (e Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, não se esqueçam) são parecidos. São políticos empresários, gestores, que surfaram na onda do cansaço político; modelos da meritocracia, que saíram de baixo e venceram a eleição contra tudo e contra todos sendo grande vitórias de um marketing esperto e funcional, ligando a mensagem democrata a um socialismo que os americanos odeiam.

Receio que esse ano de 2016 será um grande meme para exemplificar a todos o que há de pior. E nesse cenário em que Os Simpsons ganharam destaque por prever a eleição de Trump a 16 anos atras, quando a fantasia somente era uma mais uma piada absurda, se torna impossível de hoje não relembrar de Black Mirror e o desenho animado de Waldo's Moment (S02E03) numa caricatura real e absurda sobre uma sociedade cansada politicamente.

Não será surpresa se Bolsonaro vencer contra tudo e contra todos em 2018, para isso, só é preciso tomar metade do Brasil.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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