Qual o preço do objetivo alcançado?


Eu apenas fiz o ENEM, mas sem loucuras e apenas buscando um bom resultado com o intuito de entrar numa faculdade. Estranho né? Por que alguém que não mora com os pais e se rendeu a uma vida cheia de cobranças e responsabilidades financeiras faria isso? Eu realmente preciso de mais dinheiro, preciso gastar pouco...

Já conformado em ter que me render a um sistema que, baseado em oportunidades, acaba por priorizar os mais abastados financeiramente do que os mais pobres, e consequentemente mais necessitados, de uma faculdade pública; saberia eu que também se "matar" de estudar largando mão de qualquer tipo de lazer e prazer em virtude de uma vida acadêmica, não seria simplesmente o que sou, portanto não seria o que me faz feliz. E com o início dos vestibulares da Unicamp e da Fuvest no intervalo dessa semana, sempre me vem aquela pergunta na mente: Por que estamos fazendo isso? Pra sermos realmente satisfeitos com o futuro abrindo mão totalmente do presente? A verdade é que somos responsáveis pelas nossas obsessões.

O filme "Whiplash" de David Chazelle, é perfeito se quisermos comparar os vestibulares com a música, e como a cultura da cobrança por ser o melhor, a devoção pelo perfeito em ser o "novo melhor alguém", levam uma pessoa ao descontrole da própria vida.

Andrew Neiman (Miles Teller) é um baterista de jazz do melhor conservatório musical dos Estados Unidos e sonha em ser o novo Buddy Rich, seu ídolo; do outro lado temos Terence Fletcher (J.K. Simmons), professor do conservatório e que está sempre a busca de novos talentos para a sua banda. Baterista reserva de sua banda, Andrew é recrutado por Fletcher (com uma insistência, claro) para ensaiar as principais composições da banda, porém os métodos de Fletcher são combinados pela competência e crueldade. Fletcher quer "salvar o jazz", como vários querem "salvar o rock" e ser o grande novo Charlie Parker é a régua que mede o sucesso. Se você não quer ser que nem ele, não será o melhor; e se não quiser ser o melhor, saia daqui. E vemos os efeitos colaterais dessa busca pela perfeição em um de seus alunos, que mesmo com a bênção de seu professor, por causa de tanto sacrifício acaba desenvolvendo depressão e ansiedade e se suicida.

"Whiplash" acaba meio abruptamente, o que nos leva a diferentes compreensões do que nos acabou sendo mostrado ali. Não sabemos se Andrew realmente se tornou o novo Charlie Parker ou mesmo se tornou seu ídolo Buddy Rich, vimos apenas uma satisfação trocada pelo seu professor e aluno. Mas através desse suicídio acabamos entendendo o que essa rotina de treino pode provocar às pessoas, mesmo quando elas alcançam seu objetivo e acabam falhando em alguma oportunidade na vida. É um suposto final então?

A perfeição fica na mente, precisamos continuar assim porque nosso máximo já foi atingido, se falharmos nisso somos preguiçosos. Para que dormir, comer, ter um fim de semana, um amor? Se você buscar uma dessas coisas não está levando a sério. Então abrir mão disso é o sacrifício, o esforço. Se outro conseguiu, porquê eu não consigo? Se eu não conseguir, sou alguém que desistiu, que não batalhou o suficiente

Esse vírus da promessa do sucesso profissional nos é implantado na mente sem que nós percebamos, começando na fase da infância, que em vez de ser uma fase de descobertas e brincadeiras, são uma fase de mini adultos que já tem uma rotina de estudos em tempo integral atrelados à natação, judô, inglês... Tudo muito bem regrado pelos pais, que escravizados pela mesma vida acadêmica que eles planejam para os filhos acabam os largando à uma educação diária de aulas e mais aulas para desenvolver o físico e a mente, os preparando para um futuro bem-sucedido em que eles possam sofrer o menos possível. Que é a fase adolescente/adulta, aonde a competitividade cruel acabam lhe obrigando inconscientemente a ser o melhor se você quiser ser alguém, portanto, supostamente essa criança não precisaria passar pelo calvário de estudar 15 horas por dia buscando o seu sonho, abrindo mão de uma alimentação decente, sono regulado e lazer com os amigos. Mas sabemos que não é bem assim.

Eu tenho 27 anos e ainda não sou formado na faculdade, na verdade ainda não entrei em uma ainda por diversas questões pessoais de amadurecimento e financeiras mesmo, afinal, pra que também buscar esse caminho se eu nem sabia direito o que iria cursar? Nós estamos em uma eterna mudança e nossos objetivos também, se uma criança deveria estar uma fase de conhecimento, o jovem precisa estar em uma fase de amadurecimento. E em vários trancamentos, mudança de curso ou mesmo a cada infelicidade residida naqueles que fazem algo por fazer, vejo que fiz uma boa escolha. Só que não ser assim na minha idade e principalmente depois dos 30 anos é sinal de fracasso.

Crescemos numa geração de bilionários de 20 e poucos anos, caras normais que estão ali porque supostamente "se esforçaram", Não ter um diploma acadêmico lhe faz parecer pior e totalmente incapaz de aprender alguma coisa perante quem o tem, sendo mais um forte exemplo de como a meritocracia quando existe, é simplesmente um pedaço de papel que define sua sabedoria e caráter perante aos outros. No final das contas acaba importando o que está escrito, não se você é realmente bom.

Não me dizem, mas os ecos da sociedade acabam me dizendo:

"Esse cara não deu certo"

"Ele não quer nada com a vida"

"Por quê você não é assim?"

"Como assim você tem 27 anos e não é formado ainda?"

Mas por quê a vida financeira é tão importante sobre o que você quer fazer da vida? Tias dizem: faculdade de História não dá dinheiro, faça Análise de Sistemas. Quem já não ouviu isso? A piadinha sobre cursos de humanas em vender miçangas na praia é recorrente e preocupante se pensar em como essa cultura do mais forte é enraizada socialmente, e muitas vezes quem nos tem que dar apoio, faz uma pressão para sermos o que eles foram ou simplesmente não são devido a mesma falta de oportunidade que pessoas como eu passam.

Numa vida em que nos é ensinado desde sempre que a boa vida requer sacrifícios, temos um exemplo básico da meritocracia aí, afinal, nos dizem que quem quer, consegue. Nos dizem e ensinam que é simples na mídia, afinal, a catadora de lixo que achou um monte de livros de cursinho acabou passando em Cambridge, por que não eu? Um "tá vendo!" ecoa. Desde aquele palestrante daquele livro de auto-ajuda que você leu até aquele seu professor de cursinho mais exigente, a cobrança por ser alguém melhor e maior, a cobrança pra ser alguém bem sucedido, a cobrança por ser o que alguém não foi ou ser sempre o melhor é sempre constante. É claro que nada cai do céu, mas ser o 1% do 1% não nos leva a satisfação necessária para uma vida bem vivida, e nem mesmo esse 1% chegam ao final dessa corrida pelo pote de ouro, que por diversas vezes nos leva a caminhos indesejados pois nem temos ideia ainda de quais eles são.

Quem você quer ser? Essa é a pergunta que só você pode dizer

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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