Resenha CD: Metallica: Hardwired... To Self-Destruct



“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.” 


Talvez de que você já leu ou ouviu essa frase em algum lugar por aí - e se for amigo meu com certeza. 

Essa frase de Heráclito de Eféso (535 a.C. - 475 a.C) exemplifica muito bem como somos seres eternamente mutáveis, assim como absolutamente tudo que podemos sentir ao nosso redor. Uma pessoa que diz não mudar é aquela que se prende em preconceitos e se limita a certos paradigmas da vida, em outras palavras, cessa a busca pela felicidade. Portanto, a mudança é benéfica pra qualquer ser humano que pensa em ser alguém melhor em qualquer tipo de aspecto.

Claro que esse não é um post filosófico, é um post sobre um disco do Metallica, mas vamos lá para a explicação: os fãs do Metallica são um dos fãs mais insuportáveis do mundo ao lado dos do Iron Maiden, Slipknot e Avenged Sevenfold. Sim, também vou explicar isso. A questão curiosa é que é só surgir um lançamento do Metallica ou simplesmente revisitar sua discografia para surgirem puramente entendidos de afinação de guitarra, afinação, bateria, mixagem, letras, quantidade de riffs, duração de solos... O que é extremamente irritante pois esses tais fãs e certos admiradores de música, julgam mais as comparações do Metallica em si do que se o disco que eles lançaram acabou sendo bom ou ruim. O que me remete a uma grande estupidez e guerra ideológica pra ver quem "odeia mais bonito" a banda devido a sua popularidade, afinal, penso que se "Load" tivesse sido lançado por um outro nome seria agraciado com louros e mais louros entre os fãs de Metallica. Não canso de bater nesse tecla de que o nome Metallica é uma maldição.

Certo que o Metallica (como o Iron Maiden por exemplo) é uma banda expoente no cenário do rock em geral. É simplesmente a maior e mais bem sucedida banda do gênero que já existiu na história e por mais que você possa questionar o trabalho dos caras elegendo um álbum como melhor que outro, eles sempre lotarão estádios e chamarão a atenção para onde forem e o que fizerem. Simples assim. É além de um gosto pessoal reconhecer tal fato, assim como eles envelhecem. O que levanta um questionamento muito interessante sobre a psique de um "metaleiro": odiamos que nossas bandas mudem. É como um amigo, odiamos que ele mude e se arrisque a percorrer outro caminho e é aí que Heráclito entra. Envelhecer traz aprendizado e aprendizado traz mudanças, e o os homens de preto odeiam mudanças, por mais que elas possam ser benéficas. 

O que mais noto em fãs do Metallica em geral é que pelo altíssimo nível visto nos álbuns dos anos 80, aquela época precisa voltar, como se "um homem pudesse mergulhar duas vezes no mesmo rio", sendo que estes mesmos reclamam quando uma banda se repete. Porém, sobre isso é também importante perceber que cada álbum do Metallica - em sua extensa carreira e não tão extensa discografia - é que um álbum é diferente do outro e pela maioria das vezes uma continuação espiritual do último. Víamos um Metallica simplesmente furioso em "Kill'em All", e que gradativamente absorveu influências melódicas e desenvolvimento musical dos próprios músicos até desencadear em "...And Justice For All" e por fim em "Black Album" que marcou a banda para sempre na história aliando peso e o temido termo "pop".

A partir daí chegamos em "Load" (e para muitos a linha final do Metallica bom) que era simplesmente uma continuação do "Black Album", enquanto "Reload" era o irmão desse e foi retomando o peso até chegarmos a bagunça de "St Anger", o justo "Death Magnetic" e agora em "Hardwired". Portanto se percebe que a linha não é reta, é cheia de altos e baixos e experimentações (que diga "Lulu") de uma banda que entre sua petulância proposital de se negar a dar aos fãs o que eles queriam, sempre propôs álbuns com faces diferentes se adequando às influências e musicalidade que a própria banda absorvia. Isto é música, fazer simplesmente o que gosta e o que está afim de fazer. A decisão é dos membros e simplesmente deles, e por isso surgiu um "Load" eu acredito; não foi só a influência comercial que motivou o corte dos cabelos na época.

(Estou pensando aqui agora "que bom que o Metallica demora a lançar álbuns". Sim, pois a cada lançamento teria que dar a mesma explicação de uma forma diferente exalando admiração para responder ao ódio por muitas vezes mimizento).

Agora falando sobre o álbum, "Hardwired" vem depois de longos 8 anos desde "Death Magnetic" e acho que para compensar essa demora eles logo lançaram um álbum duplo com seus 77 minutos totais de duração. 

Não, não é um retorno triunfal do Metallica ao trono de maior banda de thrash metal (como se isso precisasse acontecer), o que vemos claramente em "Hardwired" é uma banda madura, disposta a calar a boca de críticos, ao mesmo tempo em que desceu do pedestal mostrando uma bela mescla de sua época de ouro com suas influências atuais em um poderoso álbum de heavy metal, dando aquilo que os fãs mais queriam no final das contas. 

Em outras palavras, "Hardwired" é um álbum para relaxar e apreciar. Fugindo dos padrões do Metallica, aqui não veremos surpresas e nem muitos altos e baixos, o peso aqui é constante e seus defeitos e qualidades também. As qualidades são as inquestionáveis faixas "Hardwired", "Atlas, Rise!", "Spit Out The Bone", "Moth In Flame" que calam a boca de qualquer crítico que dizia que o Metallica não era capaz de revisitar seu passado e "Here Comes Revenge", "Now We're The Dead", "Murder One", "Confusion" e "Dream No More" que mostram a faceta mais moderna do Metallica que citei. Mas os defeitos começam justamente onde as qualidades terminam, são todas as outras faixas que não citei, como "Am I Savage?", "ManUNkind" e "Halo On Fire" que poderiam ser esquecidas ou suprimidas tranquilamente em quem sabe um CD bônus pois infelizmente não acrescentam muito ao material em geral. 

Para finalizar, "Hardwired... To Self-Destruct" é um álbum excelente do Metallica e afirmo que é a melhor coisa que já ouvi desde 'Load" e a mais empolgante desde "Black Album" apesar de seus exageros percebidos em certos momentos e sua cadência à la Black Sabbath que desagradará aos fãs mais inveterados (para variar). Aqui Kirk Hammett está tão bom na guitarra desde sempre e deixou seus famosos wah-wahs mais na gaveta, enquanto Lars Ulrich mostrou uma bateria bem mais diversificada do que em "Death Magnetic". 

Só achei que "Hardwired" poderia ser um disco mais enxuto, mesmo com apenas as nove músicas que citei estaria bom demais, tornando-o assim menos cansativo e menos motivador de pulos de faixa nos players alheios e no meu. Bom, mas isso é a velha mania do Metallica de encher a capacidade de gravação do CD totalmente desde sempre...

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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