Resenha Cinema: Animais Fantásticos e Onde Habitam

quinta-feira, novembro 24, 2016


Ambientado no início do século, mais precisamente no ano de 1926, quase 70 anos antes do ano em que se passa a história de Harry, (o nome mais legal dos últimos tempos) Newt Scamander (Eddie Redmayne) desembarca em Nova York com apenas uma maleta. Bom, antes de prosseguir, digamos que Newt é um viajante "adestrador de monstros... fantásticos", um tipo de treinador Pokemon que coleta esses monstros que são muito ameaçadores para o mundo dos trouxas, basicamente para estudá-los e criá-los em sua maleta mágica servindo de lar a esses monstros fantásticos. 

Logo de cara, a vida de Newt é cruzada com a de um trouxa (ou no-maj como na nomenclatura norte-americana), Jacob Kowalski (Dan Fogler), que numa tipica confusão "chapolinesca" acaba trocando de maletas com Newt, assim dando início a confusões do barulho quando este, curioso, acaba abrindo a maleta. Mas antes de Newt descobrir a troca dos monstros por rosquinhas de um padeiro sonhador, a questão é que por ele ter usado da magia com um trouxa leva-o a ter problemas com o Congresso Mágico dos Estados Unidos (Macusa) que tem leis rígidas sobre a questão de segredo de bruxos x trouxas.

Dividido em duas partes, o filme tem representado na recuperação do (capricorniano) pelúcio (que rouba a cena literalmente) essa divisão da parte inicial, e mais divertida do filme, para a segunda parte, mais séria e por consequência mais emocional, que difere ainda mais a ideia que veríamos "mais do mesmo" para uma aventura que apesar de ser ligada ao bruxo, acaba se desenvolvendo sozinha ao dialogar com este público da série, agora já crescido, sobre questões mais sérias e constantemente atuais que pedem uma interpretação mais ampla que expandem a sempre abordada tolerância nos livros do bruxinho. Como a migração que é contextualmente interpretada logo no início do filme somente no olhar do policial para um suspeito bruxo inglês; e política, na questão das diferenças entre o Ministério da Magia de Hogwarts, mais progressista, e a Macusa, bem mais rígida, aceitando até pena de morte como julgamento (alô republicanos). Claramente se configurando numa crítica feroz a sociedade americana. s2

Isso não só desenvolveu a história naturalmente, mas aproximou a fantasia de Hogwarts agora para uma "realidade" mais mundana, fazendo a precisa função de oxigenar o universo bruxo para mais quatro (já confirmados) ou mais filmes abrindo sorri$os de orelha a orelha do pessoal da Warner.

E nesse contexto de tolerância aliás, o filme ganha força com seus personagens tão diferentes e complementares entre si. Como o deslocado Newt em relação ao relacionamento humano, a burocrata Tina (Katherine Waterston) que serve como ponte de Newt para o Congresso dos Bruxos, sua irmã Queenie (Alison Sudol) que lê mentes e consegue tirar de Newt informações que ele nunca revelaria, e o trouxa Jacob, que não só é o excelente alívio cômico do filme, como é aquele personagem que serve justamente para te trazer ainda mais perto do filme, sendo leigo ou não, para o mundo da magia ao reagir fascinado a cada movimento de varinha como justamente agiríamos se a gente pudesse entrar numa mala. Como ele mesmo diz: "Será que eu estou sonhando? Eu não teria imaginação pra isso...".

Já no outro lado temos Mary Lou (Samanta Morton) como a presidente implacável do Ministério, Percival Graves (Colin Farrell) que acaba por se revelar um fascista, o traumatizado Creedence (Ezra Miller) e Grindewald (Johnny Depp, em mais uma versão esquecível, agora rápida, do pirata bêbado qual você sabe qual é). Girando em torno de Newt, os dois núcleos claramente representam a luz e a escuridão, e o roteiro dá espaço a todos eles, explorando seus clichês, seu humor e seus medos confortavelmente, nos fazendo pisar em um terreno confortável.

Posso dizer que a sensação mais próxima que tive ao assistir no cinema "Animais Fantásticos e Onde Habitam" foi a plena de satisfação. E cara... como é gostoso sair assim do cinema sem muitas perguntas e sem busca de possíveis respostas, um reflexo direto do roteiro da escritora estreante nessa função que é simples mas se revela complexo na medida certa provando o quanto a escritora é habilidosa na arte de dosar terror com fantasia que na direção de David Yates (já familiarizado com o mundo do bruxinho) ganha ainda mais vida.

Em tempos aonde temos filmes de super-heróis para todo lado e a realidade decai sobre os ombros quase que numa obrigação, como se os personagens tivessem que serem críveis o suficiente para encaixá-los ao nosso mundo, mesmo que esses fossem apenas heróis, apenas ficção sobretudo. O spin-off de J.K Rowling sobre o mundo dos bruxos vem em boa hora para nos relembrar que fantasia também pode ser apenas... fantasia.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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