Resenha Filme: Homem Irracional


A vida é aquele troço engraçado em que a nossa felicidade se vai a medida em que o nosso sono fica mais raro. A felicidade é rara. E daí vem a pergunta: O que move o homem são as suas ideias, ou as ideias é que movem o homem? Então num mundo cada vez mais louco, ganancioso e amoral, como definir o que é certo ou errado?

Nicolau Maquiavel ensinava que os fins justificam os meios. Claro que seu livro "O Príncipe" foi voltado aos reis da época como um tipo de guia para essas pessoas gananciosas galgarem ao poder; mas dentre sua didática difícil e intrincada, a obra também guarda uma crítica voraz à sociedade que ele via se formar no século 16 e que está fadada a nunca se alterar por mais que os séculos avancem em um eterno "feitiço" que envolve os humanos. No caso, a fome pelo poder é dada a mania de grandeza e prepotência naturais do ser humano.

Em um andamento bem mais sério e lento que sua conhecida e extensa filmografia em que contamos nos dedos seus filmes mais introspectivos, como o fantástico "Crimes e Pecados" de 1989, Allen é o diretor que sempre coloca dilemas morais em seus filmes, dos mais simples aos mais difíceis e dos mais sociais aos mais pessoais. Ele sempre desenhou uma figura otimista do amor, mas talvez por causa dele, o homem numa forma atabalhoada acabe idealizando tanto esse sentimento que termina em solidão, totalmente desenganado. É como se o homem tivesse esquecido do amor num todo em detrimento de uma mesquinheza e egoismo sem tamanho, em que no alto de sua prepotência, definisse uma desinência a uma grandeza esquecendo-se de que os outros são semelhantes a ele.

Woody Allen construiu Abe (Joaquin Phoenix) como a figura do homem moderno, solitário e descrente nos outros e nele mesmo, de uma barriga proeminente e andar curvado, como se fosse para ilustrar a rotina que torna a vida como uma morte lenta, Abe é o homem em que todos esperavam mais, mas frustrado pela intermitência da vida, ele é muito menos. Ex-jornalista que cobriu uma guerra violenta e sem sentido (como todas as guerras), agora ele leciona filosofia numa pequena cidade e com citações a Sartre, Kant e Heidegger - este para quem se baseia ao escrever seu livro e constantemente adia - Abe anda da casa para a faculdade e da faculdade para casa procurando a sua garrafa de whisky no único escape prático que ele vê.

Num universo aonde escolhas e suicídio se tornaram praticamente o mesmo, é o ato de se questionar e ver os outros cometerem atrocidades com o intuito de compreender o certo e errado, que a tarefa de uma vida sem sentido algum se torna um fardo insustentável e somente a quebra de moral que ele incentiva constantemente a seus alunos a fazer, poderia por terminar essa dor.

Mas a vida de Abe muda quando ele escuta uma conversa que desperta-lhe uma luz, um propósito, um sentido. É matar para viver. A quebra dessa moral foi lhe posta a frente ao decidir pela vida de um homem que se está praticando constantemente o mal, não faria falta se deixasse de existir. Seria uma missão para um bem maior, como um heroísmo torto.

É irônico que essa depressão pelo ato de viver seja atraente no final das contas para as mulheres, no caso duas, que veem em Abe aquele que ou desnudam suas crenças, ou em alguém que não está nem aí. No caso, respectivamente, Jill (Emma Stone) e a professora Rita Richards (Parkey Posey). Uma está em um namoro sério mas é a típica aluna que se encanta pelo intelecto do professor que através das conversas pessimistas, acaba por saciar a sede da aluna de questionar a visão de uma confortável vida que está pré-estabelecido pra ela; outra está em um casamento fracassado e nem hesita em imaginar-se fugindo com Abe para qualquer lugar, mesmo desconfiando de que ele seja um assassino - na verdade isso pouco importa pra ela que quer somente um homem que a coma bem. Assim, não temos no filme uma história de um triângulo amoroso tradicional, mas sim uma ampla discussão sobre moral e ética.

Mas afinal, as ideias movem o homem ou o homem é movido pelas ideias? Diria que pelo poder. Maquiavel via isso e se baseou em supostas moralidades impostas socialmente para escrever a frase que o define até hoje num mantra atemporal. Mas Dostoiévski criticou essa visão em "Crime e Castigo". Ali vemos que se os fins justificam os meios, essa justificativa acaba por não preencher esses fins. Podemos decidir pela vida de outro homem em benefício maior próprio e a sociedade em geral? E num mundo tão violento, ganancioso e cada vez mais insano, como a moralidade se define? Estamos destinados ao quê nesse mundo afinal?

Woody Allen, misturando filosofia e drama, trouxe essas discussões se inspirando especificamente nesse livro para roteirizar seu "Homem Irracional", que a medida em que a trama avança, passamos a entender perfeitamente a irracionalidade dos dias comuns. Na trama, Abe viu o que fez como bom, não sentiu culpa pois foi pela vida ou morte da sua alma. contudo, Abe transformou-se naquilo que abominou naquela guerra sem sentido que cobriu: um assassino.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

Voltando
Next Post »
Comentários
0 Comentários
0 Comentários