Resenha Filme: Ponto Final: Match Point


"Match Point" começa assim:

“O homem que disse: prefiro ter sorte a ser bom, entendeu o significado da vida. As pessoas temem ver como grande parte da vida depende da sorte. é assustador pensar que boa parte dela foge do nosso controle.”

Desde que o ser humano se reconhece como um ser pensante usa seu raciocínio para prever o futuro. Somos naturalmente racionais e por mais que não reconheçamos de uma forma geral, nós detestamos o destino no fundo de nossos âmagos. 

Convenhamos que é simplesmente perturbador a ideia de não controlar o próprio destino, de sermos marionetes num grande jogo da vida como se fôssemos peões no banco imobiliário, no entanto, essa incerteza que nos move, ao mesmo tempo nos perturba ainda mais. Precisamos saber do nosso futuro, saber o que de bom e de ruim nos reserva para nos prevenirmos diante aos acontecimentos; necessitamos de um conforto de uma predestinação com o intuito de sempre darmos importância para cada uma de nossas ações. Uma parte de algo maior sempre. De uma explicação para o inexplicável quase que nos obrigando a sentir que "deus quis assim" diante da dor e a tristeza inaceitáveis. Como ateu, entendo a importância de crer em algo além por mais que eu tenha meus conceitos como inabaláveis.

Em vida, dizem que a sorte nada mais é do que o encontro da oportunidade com a capacidade, em outras palavras, o encontro entre a oportunidade que lhe é dada como causa de uma escolha e da capacidade de usufrui-la de forma que possa gerar outras possíveis escolhas. Contudo, reside justamente na sorte a ideia de que não temos destino, de que a ideia de vivermos um jogo nos propicia a coragem pra tentar, e deus nada mais é do que um afago que tornam as escolhas diárias menos pesarosas. 

“Há momentos em que a bola bate no topo da rede e por um segundo ela pode vir para o outro lado ou voltar. Com sorte ela cai do outro lado e você ganha. Ou talvez não e você perde”.

Mas voltando a sorte em si e a coragem que ela nos propicia, o 50/50 de chance de dar errado ou certo é a filosofia principal de Chris (Jonathan Rhys-Myers), um ex-jogador frustrado de tênis que vai para Londres e se torna um professor de tênis em um clube frequentado pela alta classe britânica.

Não demora muito para Chris ser convidado por um dos alunos, Tom (Matthew Goode), para conhecer sua casa e sua família, que acaba rapidamente se afeiçoando a ele e vê na irmã de Tom, a sem sal Chloe (Emily Mortimer) a oportunidade perfeita de um quebrado poder ingressar de vez na alta classe britânica. Em uma das festas constantes da família de Tom, ele encontra Nola (Scarlett Johansson), a namorada dele e, abalado pela beleza estonteante dela, logo se apaixona e se sente completamente atraído por ela. O lance é que rola uma química irresistível entre os dois, atraídos também pela conveniência de eles estarem naquela família por vislumbrarem um futuro melhor para cada um.

De um lado Nola representa a vida, o real; de outro Chloe representa a vida confortável, o social; no meio de tudo isso está Chris, um sujeito puramente sem caráter. No entanto, focado substancialmente em seu golpe de sorte e na supressão da vontade de algo improvável em favor da aceitação de uma realidade que ele não queria colocar a perder, ele faz sua escolha preferindo a sorte do que ser bom e contando de que talvez que esse golpe de sorte também o salvasse, afinal, a classe social influi muito sobre a justiça. 

Em suma, Chris escolhe uma estabilidade e conveniência que compõem uma realidade, que se não é perfeita, lhe proporciona algo que ele não tinha antes, mesmo que essa vida seja sem graça e planejada em seus mínimos detalhes - o que fica evidente na parte em que Chloe se sente mal por todas as amigas terem filhos e ela ainda não ou aceitando os ciúmes a desconfiança de uma traição de Chris em favor de um bem maior que era o casamento. 

Essa atmosfera criada por Woody Allen bate num ponto: a escolha. São pequenas escolhas que podem afetar o futuro, às vezes de maneira irremediável; pequenas decisões de 50/50% que podem conspirar tanto à favor como contra nos levando a ideia da sorte e nos fazendo relembrar da cena da rede no início do filme, numa linha de pensamento simples em que tanto faz o quanto você pode se esforçar ou simplesmente ter a iniciativa de tentar, as situações estão fora de nosso alcance e as escolhas são simplesmente apontamentos que podemos dar a esse caso, em suma, a sorte sempre vai nos regir de maneira implacável. Woody Allen provoca uma discussão interessante ao espectador atrelando toda a vida do personagem a essa torta situação, como na cena já no final do filme em que ele se livra do anel e mais uma vez somos confrontados pela ideia da rede.

"Match Point" não tem aquela virada surpreendente na história, mas guarda uma outra discussão profunda sobre nossa existência. A fuga tanto de Chris e tanto de Nola nesse louco caso revela o desespero da fuga da realidade dos dois na busca por uma fagulha de vida, mas racionais o suficiente para planejar a própria morte. 

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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