Resenha Filme: Um Estranho No Ninho


O valor da liberdade só é realmente medido pelo o quanto dela você busca ter; se você acredita a ter, é quando não a tem de verdade.

E numa sociedade atual em que a nossa própria liberdade é trocada por obrigações e benefícios que nos levam a ter uma virtual sensação deste estado, o premiado longa de 1976 "Um Estranho No Ninho", na talvez mais espetacular atuação de Jack Nicholson, nos lembra o valor dessa libertação e da necessidade de enfrentar o sistema e a vida, para buscar os momentos de felicidade na quebra de regras que nos ditam sempre o que fazer para ter uma vida supostamente melhor.

Numa alegoria perfeita de Governo x Povo tão leve quanto carregada de seriedade, Randall Patrick McMurphy (Jack Nicholson) é um condenado que finge ter um problema mental para ser transferido para uma clínica psiquiátrica para avaliação. Com os dias se passando, McMurphy vê os internados numa rotina estafante de remédios, descanso, recreação e jogos de cartas para seu suposto bem e o bem de todos que estão ali, e na rotina de enfrentar diariamente esse status quo personificado na serenidade e crueldade da "vilã" enfermeira Ratched (Louise Fletcher), ele promove sempre as mais variadas atividades talvez para ele mesmo não enlouquecer, mas sobretudo para deixar a vida daqueles internados um pouco mais normal.

E naquele branco enlouquecedor do hospital, entende-se perfeitamente como espectador que é só a liberdade que é capaz de fazer cada um de nós sentir-se vivo. No longa, a sensação de liberdade e a prisão constante daqueles seres nos faz perguntar: quem é realmente o louco dali? Como naqueles momentos em que McMurphy fala com o paciente surdo-mudo Chefe, causando a pergunta se ele está fazendo aquilo para ele mesmo não enlouquecer, ou se ele está realmente ouvindo o Chefe dizer alguma coisa. É louco quem tenta ir contra as regras do hospital da Enfermeira Ratched ou tenta ir contra elas proporcionando aos pacientes o verdadeiro sabor da vida?

Essa sensação sufocante de dúvida de quem é o louco, nos faz mergulhar ainda mais na história que em nenhum momento esconde sua mensagem real, ao mesmo tempo que deixa claro também que McMurphy em seu jeito impulsivo e raivoso é o responsável pela quebra daquela rotina. Mas sobretudo o que rouba a cena no longa e é o que dá ainda mais força ao roteiro são os carismáticos pacientes, que presos em seus próprios tempos, protagonizam as cenas mais agonizantes e aquelas mais engraçadas no filme transformando-os em nossos amigos também.

É impossível não se deliciar e torcer por cada um deles (entre eles Danny DeVito e Christopher Lloyd) para esses terem junto com nós a sensação que temos de sentir o vento no rosto e poder assistir a um jogo de futebol, saindo de toda essa loucura que é infligida naquelas paredes; alegorizando nossas paredes de nossa casa e do trabalho, da rotina diária de todos nós. Nos fazendo entender de que talvez, o louco seja apenas aquele que está perdido em um oceano de sua razão, escolhendo aceitar seu estado e vivendo suas próprias circunstâncias.

O longa nos faz abraçar a loucura e refletir acerca das nossas vidas, pois quem nunca se sentiu o "estranho no ninho" alguma vez?

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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