Resenha Série: The OA (1ª Temporada)

terça-feira, dezembro 27, 2016


Para muitos, os sonhos são apenas vislumbres às nossas lembranças mais recentes, para outros é uma manifestação intensa dos nossos desejos mais profundos, e para outros ainda é uma fonte poderosa de premonições. Independentemente do que você acredita, os sonhos e seu significado são ainda cercados de mistério e o único consenso existente é da paz que eles são capazes de trazerem.

Cercados dessa rotina cada vez mais estafante, são nas horas de sono que encontramos a tranquilidade que despertos não conseguimos sequer chegar perto de encontrar. É talvez aí que o constante desejo de fuga do próprio ser seja mais aflorado.

Nessa estranha série "The OA" (OA = Original Angel), Prairie Johnson (Brit Marling) é a personagem que confronta essa dor de não pertencimento à realidade em que vive ao mesmo tempo que é nos seus sonhos que acredita ter algo melhor a esperando, em uma outra realidade.

Nina Azarov/Prairie Johnson/OA é uma garota filha de um magnata russo que após um acidente, por questões misteriosas, tem sua visão totalmente perdida e nos EUA é adotada pelo casal Abel (Scott Wilson) e Nancy Johnson (Alice Krige) e em busca de seu amado pai biológico vislumbrado através de seus sonhos, acaba desaparecendo por longos sete anos, e volta agora, por questões ainda mais misteriosas, enxergando. Há muita resistência da moça em contar o que realmente lhe aconteceu e porque desapareceu por tanto tempo. E "The OA" gira em torno disso.

A estranha garota com cicatrizes horríveis nas costas acaba reunindo cinco discípulos - Steve Winchell (Patrick Gibson), traficante de drogas e bully da escola local, Alfonso “French” Sosa (Brandon Perea), um garoto que luta para cuidar da mãe e ao mesmo tempo destacar-se nos estudos, Buck Vu (Ian Alexander), um menino transgênero, Jesse (Brendan Meyer), um jovem sem perspectivas e Elizabeth Broderick-Allen (Phyllis Smith), uma professora que acabara de perder o irmão gêmeo – que acreditem piamente nela e nós temos que seguir esse mesmo caminho. E nesse "senta que lá vem história" todo, somos convidados assim como eles a mergulharem nessa história, hora acreditando piamente, oras servindo de apoio a nós, questionando se aquilo tudo tem alguma veracidade.

"Existir é sobreviver a escolhas injustas."

Em comum, todos tem a fuga dentro de si, desejando ir para fora do seu ser numa crença às vezes cega e esperançosa de que a sua mera existência não seja só aquilo e que algo a mais deva ser reservado a eles; não por suposto merecimento mas pela perda de sentido se suas vidas, ou pela perda de alguém amado ou pelo desgosto sobre a humanidade. É na busca esperançosa e cega de Prairie pela tal dimensão, que naquela casa, ironicamente, se abriu uma outra, aonde eles se encontraram numa empatia quase que inigualável e que finalmente, em torno de algo que eles nem sabem o que é, puderam se sentir finalmente ligados a alguém. Demonstrando que a conexão emocional, muito mais que a física, é uma questão de sobrevivência; assim como pra Prairie mesmo.

Confrontando ciência com misticismo e espiritualidade, "The OA" fomenta as discussões filosófico-transcendentais através da abusiva pesquisa de Hap (Jason Isaacs) sobre a EQM (experiência de quase-morte) de uma forma direta e crua. Afinal, a ciência é para pisarmos mais firme onde estamos ou para voarmos ainda mais alto, descobrindo coisas que fogem ao alcance do entendimento da própria ciência? Aliás no que Hap crê? A verdade é que talvez por mais que haja ciência e explicações, talvez nunca entendamos nossa mera existência. E no seu antagonismo residido no universo bem particular de Prairie, na sua obsessão quase apaixonadamente doentia por descobrir algo que o fascina, é aonde a série se sustenta e acaba funcionando tão bem. 

Num ritmo sempre cadenciado que tropeça às vezes no limiar da prolixidade (principalmente na primeira metade), a série acaba roubando totalmente a nossa atenção. Apresentando oito episódios e produzida por Brit Marling (sim, a Prairie) e Zal Batmanglij e que teve sua estreia no último dia 16 exclusivamente pela Netflix, "The OA" tem uma lógica invertida que logo de cara nos coloca sob os olhos da personagem. Guardando um começo e um final que gera críticas automáticas, que eu mesmo me peguei em diversos momentos no momento WTF?, é dentro de sua estrutura que a história faz todo sentido nos levando a caminhos corajosos, questionando nossas próprias crenças e desafiando o espectador a pensar "fora da caixinha".

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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