Resenha Série: Westworld (1ª Temporada)


"Westworld" é uma série adaptada por J.J. Abrams, Jonathan Nolan e Lisa Joy do filme homônimo de Michael Crichton de 1973 que conta sobre um parque temático aonde ricaços passam suas férias imersos em um mundo de velho oeste com robôs caracterizados. Então se baseando nessa ideia, a série desenvolveu amplamente as questões filosóficas que esse circo armado nos apresentou. Não nos dando mais detalhes, temos aqui um mundo entediado em que o desenvolvimento tecnológico nos levou a um futuro em que ninguém mais morre de alguma doença ou fatalidade, quer dizer, perdemos o contexto principal que o medo da mortalidade move a vida para termos sido transformados em meros livros de um começo meio e fim inalterados.

O mundo é recheado de insatisfeitos e a imagem e semelhança em que somos criados é através de um... erro. Quer você ou não, fomos criados por uma conjunção de erros, uma dose de sorte e de coincidências astronômicas que a maioria das pessoas relutam a acreditar, julgando a perfeição de um milagre que talvez sejamos mesmo... O fato, é que "Westworld" é nada mais que o reflexo de uma realidade, uma historinha contada para a humanidade dormir em mais uma tentativa de elas serem o que no fundo elas queriam ser, fazendo aquele lugar mais real que o real de fato. Um erro que nos faz errar ainda mais.

Nos livros de história, diz-se que a revolução industrial modificou totalmente o mundo no século XVII e posteriormente no século XIX. Mudamos nossa forma de consumir, pensar e agir; nossas vidas se tornaram mais práticas e logo mais automatizadas, e entendo que o que pensamos de rotina e sociedade nada mais é do que uma conjunção de fatores que levam à automatização; vivemos para trabalhar, ter sucesso, criar e morrer; para a vida seguinte a nós fazer a mesma volta seguidamente. E é interessante perceber como o parque simplesmente serve para refletir o jogo da vida e a transformar em um jogo para viver, aonde nessa construção para a derrota, moralmente os anfitriões (máquinas) que são feitos para se encaixarem em um loop infinito, são mais humanos que os visitantes. 

Certo que o parque foi construído para o desejo de os seus usuários revelarem seus instintos mais sujos e imorais, como cometer assassinatos e praticar estupros, em busca de uma desesperada vivacidade perdida na invulnerabilidade, em que o suicídio é o único escape de abreviação da vida. Portanto, a pergunta aqui a ser feita é o que os humanos se diferem de uma máquina? Seria sua biologia, seria sua capacidade de raciocínio? Sua autoconsciência de ser? Afinal, o que devemos viver? É aquilo que é programado ou devemos viver realmente aquilo que queremos? A série não nos diz sobre o mundo real em que os humanos vivem, mas é certo que esse desenvolvimento tecnológico exemplificado na série aproximou uma máquina de um humano tão intimamente que apenas a mortalidade serve para diferenciar um de outro, não o sentido de sua existência.

Podemos especular muitas coisas a respeito desse futuro distópico, mas acredito que "Westworld" trabalha principalmente sobre a liberdade e faz uma reflexão acerca ao desenvolvimento da consciência e do pesar que a escolha pela liberdade inflige. Falando amplamente, a liberdade não se dá somente pela conquista da escolha, mas é alcançada plenamente no domínio do próprio intelecto e do desenvolvimento de uma ampla consciência da realidade que vive e naquela em que poderá viver. E é justamente na programação dos robôs do parque da Delos é que percebemos também que a consciência por si só é um fardo da humanidade. É como diz o Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) a Bernard (Jeffrey Wright) no S01E09 "The Well": “nunca confie nos humanos, eventualmente eles vão te decepcionar”.

A forma cartesiana de pensar é uma forma de padronizar o que sentimos através de um desenho geométrico, uma linha traçada como se ela nos servisse para exemplificar a vida sobre as reviravoltas através de suas ondas e o sentido inalterável da vida através da reta que é. Descartes dizia que se pensamos, logo existimos; e se eu existo, sou alguém por completo. E a verdade surge através da dúvida e da dedução, e é da dedução que surgem as escolhas; e a escolha é aquela que muda tudo. 

E em talvez seu melhor papel na sua longa e gloriosa vida, Anthony Hopkins constrói um poderoso Dr. Ford na personificação mais exata do desejo do ser humano de se aproximar e ser também um deus, dando o sopro da vida ao mesmo tempo em ele desenvolve uma paixão tão grande com suas criações ao privá-las da perfeição naquilo que mais nos faz humanos: a autoconsciência e por consequência a dor, em talvez mais uma tentativa de entender o sentido e a criação da vida. E sobre isso, numa conversa de Bernard (Jeffrey Wright) com Dolores (Evan Rachel Wood) no S01E10 "The Bicameral Mind" sobre a autoconsciência: "Ela não é uma jornada para o topo, mas para dentro" ou na fala de Dr Ford para o mesmo Bernard sobre uma perspectiva da pintura "A Criação de Adão" de Michelangelo no mesmo episódio: "O dom divino não vem de um poder maior, mas das nossas mentes", e aí temos a demonstração perfeita que no final das contas de que a verdade e a compreensão absoluta está somente dentro de nós.

Prevista para ter cinco temporadas, "Westworld" é uma belíssima e divinamente bem construída série que aborda questões complexas sobre a existência em um roteiro em que Nolan e Lisa Joy demonstram saber exatamente aonde querem ir, porque ir e para onde devem ir, não proporcionando ao espectador um segundo de distração por um ritmo mais lento ou em que as peças deixem de se encaixar em seu final apoteótico em que o detalhe mais interessante e incomum é ter sido sem ganchos, mas ao mesmo tempo suficientemente forte para despertar a nossa curiosidade do que poderá acontecer dali pra frente. 

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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