A lição dos Vikings para os mortos vivos

sexta-feira, janeiro 06, 2017


Ontem foi ao ar o S04E16 de Vikings e lembrei de The Walking Dead.

Calma, os vikings em questão não se transformaram nos mortos-vivos, mas é justamente na inevitável comparação entre uma série a outra que pude mais uma vez perceber o quanto The Walking Dead é uma experiência que acaba sendo frustrante e que ao mesmo tempo traz um grande pesar por poder ser muito mais do que entrega.

No S04E15 All His Angels, Vikings matou seu principal personagem, aquele que simplesmente moveu a série por quatro temporadas e que tem um peso histórico inestimável: o rei Ragnar Lothbrock. Mas como uma série pode sobreviver sem seu principal personagem?

Para quem acompanha a série, a um certo tempo e principalmente a partir do primeiro episódio da quarta temporada iniciada no dia 30 de novembro do ano maléfico de 2016, víamos um Ragnar amargurado. O peso de ser rei, o peso de ter visto seu irmão Rollo ter traído o seu povo, o peso de ver seu melhor amigo matar Athelstan simplesmente porque "foi um chamado dos deuses", o peso de ter seu mito quebrado pela derrota sofrida na França e por ver seus principais sonhos de prover a expansão de seu povo arruinados e brutalmente massacrados nas terras inglesas, inevitavelmente provocou a Ragnar uma reflexão e isolamento.

A S04E10 The Last Ship em seu final arrepiante com a já emblemática frase "who wants to be a king?" foi um episódio decisivo em demonstrar o quanto o poder pode arruinar psicologicamente uma pessoa e o quanto somos condenados pelo mesmo. Ragnar não queria mais esse título, ele foi quebrado por causa dele. Ele não era um mito, era uma pessoa; muito esperta por sinal, mas uma pessoa. Ser um rei era um peso muito grande a carregar e seus louros de glória foram apagados por uma derrota e pelos seus erros em confiar em quem não podia. Ao desenrolar dos episódios seguintes vimos sua derrocada, sua saudade dos tempos mais simples de fazendeiro e sonhador. O desafio de Ragnar era agora desafiar os deuses e ir para Valhalla porque era uma decisão dele, e não do destino de uma batalha. Para ele que teve tirado seu melhor amigo Athelstan, agora a vida espiritual, seja em que lugar, seja qual o deus cristão ou pagão, era em cumprir um objetivo.

Em um roteiro muito bem amarrado e seguro desde o começo, Vikings premia o espectador com uma série sempre eletrizante e sem episódios somente feitos para o entretenimento mais barato, mesmo agora tendo sendo estendida sua temporada de 10 para 20 episódios - o que me causou um medo, mas tenho me render à competência de Micheal Hirst.

Obviamente a morte de Ragnar escondeu um propósito de sacrifício talvez por algo maior, mas não cabe aqui comentar isso. A questão é que sua morte foi sobretudo para mover a história para frente, sem frescuras. Desenrolando um fim de uma era e passando para outra, onde Ivar, Bjorn e Lagaertha assumiriam seu nome e sua glória. O roteiro entregou um Ragnar genial e genioso, fez dele sua principal força, mas com uma agilidade invejável desenvolveu tantas outras histórias paralelas e fortes o suficiente para segurar a série durante muitas temporadas ainda. A série se inspira de forma muito competente em fatos históricos para saber quais são os próximos passos, no caso, a já revelada jornada pelas águas do mediterrâneo até a Espanha muçulmana. Mas para onde mais Bjorn pode ir? Sabemos que os Vikings chegaram a América, mais especificamente em terras canadenses. A história é riquíssima para nos deleitarmos.

E The Walking Dead? Ragnar foi morto em Vikings pois era um personagem suficientemente forte para balançar as certezas que tínhamos sobre a série e movimentar o destino dos outros personagens. Para onde ele vai agora, o que ela vai fazer? The Walking Dead enrola para revelar a já cantada morte de Glenn até a outra temporada, e é incapaz de deixar claro seu próprio intuito de sobrevivência. Em um mundo pós apocalíptico a noção de perigo a qualquer momento é naturalmente altíssima, mas o clã formado por Rick, Michonne, Carol e Darl é supostamente invencível.

Não prego a morte de Rick, mas bem que a série podia apelar pra mortes significativas e para um roteiro mais ágil em desenvolver seus núcleos de forma paralela, e não isoladamente em cada episódio. Mas enfim, essa é uma contínua frustração ao longo das sete temporadas, de uma série que é capaz de entregar momentos simplesmente épicos e uma dezena de episódios frustrantes, ficando cada vez mais longe de uma qualidade que tantas e tantas outras séries tem mostrado ter. Talvez caiba uma reflexão para Greg Nicotero, como Ragnar Lothbrock teve a sua sobre mortalidade.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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