A solidão de Travis em Taxi Driver


Filmes que são rompem a barreira do tempo são aqueles que se renovam a cada vez que o vemos, quer dizer, que para cada um esse tem uma interpretação diferente. E talvez um dos filmes que mais bem exemplifique bem essa dualidade seja Taxi Driver. Scorsese na sua obra máxima fez um filme em que o roteiro só dá andamento ao mesmo, com começo, meio e final; e o que você tira dele é o que acaba importando no final das contas.

"Ele é um homem solitário desesperado em provar que está vivo".

É só olhar para o famoso pôster de Robert de Niro com as mãos nos bolsos andando cabisbaixo meio que sem rumo, para entendermos do que se trata e qual é a reflexão que o roteiro tenta nos passar: até que ponto a solidão de um homem pode quebrá-lo?

Travis é um ex-combatente do Vietnã (suposto, vou explicar o porquê) que talvez envolvido num choque pós traumático, sofre com uma insônia violenta e constante. Para curar sua insônia ou não, Travis escolhe arrumar um emprego como taxista em Nova Iorque, claro, no período noturno. Putas, bebida, fumaça de cigarro, crimes, sujeira. A limpeza moral está cada vez mais distante e Travis só observa tudo rodando pela cidade. 

“Um dia uma chuva de verdade virá e levará toda essa escória para fora da rua“

Mas eis que nessa direção sem rumo adentra uma passageira, se trata de uma prostituta de apenas 12 anos, Iris (Jodie Foster). Como proceder? Talvez pela moralidade que lhe resta e ainda mais inconformado no que a noite é capaz de oferecer, Travis se torna obcecado em "salvar" a criança daquilo tudo pois ela representava o que era mais podre de toda essa decadência - mesmo que ela relutasse a tal julgando que seu cafetão era sim uma boa pessoa. 

Enquanto Iris (Jodie Foster) fica intrigada com Travis, em contrapartida ele se envolve com Betsy (Cybill Shepherd) e identificados pela solidão que lhe cercam de formas diferentes os dois acabam se aproximando e esta aceita sair. Travis leva Betsy para um cinema, mas para ver um filme pornô. Inadequado? Não para a inocência quase que absurda de Travis em apresentar para ela a única parte do mundo que conhece. A solidão mostra a inabilidade principalmente de Travis em parecer... humano. 

Há dois tipos de solidão, a emocional e a espiritual. A física é aquela necessária, é quando precisamos de um tempo para respirar sozinhos e ficarmos com os nossos pensamentos; a emocional é aquela que nos "quebra", que quase como um vírus se alastra e transforma a sociedade e a perda de alguém em uma bolha que sem querer nos faz querer se isolar cada vez mais de tudo o que nos cerca. Esse tipo de solidão nos faz sentir que não nos encaixamos em nada mais fora dessa bolha e a partir daí é um pulo pra decidir o que presta pra nós ou não, trocando a aceitação pela comparação.

Isso constantemente fazemos por causa do amor, quebrado ou não correspondido, leva um tempo para nos recuperarmos. Mas a sociedade adoentou Travis, a régua moral que ele impõe depois do isolamento é sobre certo e errado, em princípios morais de verdade. Assim ele se revolta contra essa solidão, tenta fazer algo por ele e por alguém como se aquilo desse sentido para a sua vida agora. É essa a régua moral, errada, mas certa para ele. Ele se revolta por não entender mais o sentimento alheio, se revolta contra a sociedade que o adoentou dessa forma. 

Lembra que questionei se ele era um ex-combatente do Vietnã? Há vários indícios, passando pelo seu físico de pombo até a justificativa sempre vaga sobre o que ele passou na guerra, então seria um personagem criado a partir de sua solidão? Tanto que ao final se preparou para uma guerra que talvez ele nunca tenha participado, a famosa parte "you talkin' to me?". A desilusão a respeito de todos lhe afeta ferozmente, e alegar ser um ex-combatente meio que dá um sentido mais prático a essa decadência moral que ele vê, tanto política quanto social. Como se poupasse o trabalho de ter que usar muitas palavras. 

Travis tem insônia porque não vê sentido em nada do que vê, trazendo junto sempre um sentimento de não pertencimento. Travis era alguém que procurava algo, ou simplesmente desistiu disso. Creio que ele cansou de ver o tempo passar numa dimensão linear. E é justamente por isso que torna Taxi Driver um filme atemporal, intacto; cabendo a cada um uma interpretação pessoal sobre a jornada de Travis Bickle e do o porquê ele faz o que fez.

"Em toda rua há ninguém que sonha em se tornar alguém". 

A solidão é algo permanente, como a escuridão; essa inexistente sendo apenas uma ausência de luz. Solidão, como a escuridão de nós mesmos, é permanente e inexistente; essa apenas uma ausência de companhia. O norte, o motivo, é o que nos faz tornar vivos. Travis não tinha nada disso e se perdeu.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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