Resenha Filme: Adeus, Lênin


No início do filme, é mostrado que a RDA (o lado socialista, ou oriental) está alcançando finalmente níveis de reconhecimento internacional, a nave (a SOJUS 31) é lançado do solo soviético e Sigmund Jahn é o primeiro cosmonauta da RDA, objeto de admiração da criança Alexander Kerner (Daniel Bruhl, ele mesmo do "Bastardos Inglórios") que assistia o acontecimento pela TV e sonhava maravilhado por ser "levado ao espaço com bravura" o sonho socialista, mostrando que sim, este era um progresso. Mas como todo sistema, nem tudo são flores e os tempos de prosperidade aos poucos iam sendo quebrados. Em 1989 com a comemoração dos 40 anos da RDA, a marcha da apresentação de armas em frente casa dos Kerner, contava com personalidades políticas do calibre de Mikhail Gorbatchov, e agora o jovem e mais maduro Alexander já não via mais com deslumbre o que acontecia, que pra ele, não passava de uma celebração de velhos sacanas sobre si mesmos, contrariando sua idealista mãe, Christiane (Katrin Saß), que era ferrenha defensora do modelo socialista e tinha esperança de dias melhores.

Neste ano o muro cai, começam as negociações para a reunificação e as reformas de Gorbatchov que comandava uma URSS forte, mas isolada e efervescente. A Alemanha Oriental neste ano de comemoração, tinha um povo insatisfeito e os protestos eram cada vez mais frequentes, A natural repressão dos militares tomavam conta das ruas e a mãe de Alexander, que se dirigia de táxi para as comemorações, vê seu filho sendo brutalmente preso e sofre um ataque cardíaco.

Entrando em coma durante oito meses, nesse meio tempo em que Christiane permaneceu no hospital o Muro de Berlim caiu e agora a Alemanha sofre profundas e aceleradas transformações políticas e sociais. Desperta do sono profundo, Christiane não sabe o que aconteceu e Alexander tem a recomendação dos médicos para que sua mão evite totalmente qualquer tipo de exaltação. Como ferrenha defensora socialista que é, Alexander agora se vê em uma encruzilhada e leva sua mãe para casa para protegê-la dessa realidade que se criou.

A partir dai o filme se constrói em torno da bem humorada e absurdamente compreensível ideia de Alexander em, aproveitando da fragilidade da mãe, praticamente recria a RDA como era buscando uma tranquilidade para sua mãe em seus últimos meses de vida, mudando decoração, costumes, comidas e até programas televisivos criados pelo seu parceiro de trabalho Denis era um trabalho extremamente custoso.

A divisão da Alemanha que se iniciou ao final da Segunda Guerra, causou não só um choque político, mas principalmente da cultura dentro das famílias alemãs que agora eram obrigadas a conviver com parentes que não poderiam ver pois estavam do outro lado do muro; e esse talvez seja um dos principais motivos para Alexander ter pegado aversão a RDA. Abandonado por seu pai que preferiu a RFA (o lado capitalista, ou ocidental) quando ainda este ainda era criança, ele vê, agora mais maduro, um sistema que não prezou pelo social do nome, mas sim um país isolado que construiu um muro para delimitar ideologias ao invés de proporcionar mais direitos a aqueles que moravam em seu país, de qualquer um dos lados; impedindo Alex, por exemplo, de rever seu pai Robert (Burghart Klaußner). E essa queda da pátria socialista, que a medida do tempo foi contra aos pensamentos de igualdade em que ela mesmo propagava, assim, caindo esmagadoramente em um referendo popular para a reunificação do país, é a derrocada da principal personalidade que Alex admirava quando criança e que representava a ascensão da RDA diante ao mundo. Sigmund Jahn deixou de ser cosmonauta para virar motorista de táxi, o que consumava o fracassos dos projetos especiais e o desemprego que assolava o lado oriental.

Seguro e extremamente didático (e até atual se formos pensar em repressão e principalmente o que muros podem causar, oi Trump), o filme de Wolfgang Becker, se passa no período entra a Guerra Fria e a reunificação da Alemanha, sempre se baseando em fatos e justificando eles ao longo do filme, assim, não parecendo um documentário ou algo incompreensível para alguém que não vivenciou a época.

Sendo uma rica demonstração cultural e até uma fonte educacional, o filme alemão de 2003 "Adeus, Lênin" soa pelo nome politicamente carregado e até pedante - dado também nosso momento político em que nos afastamos de qualquer notícia sobre para não causar ainda mais náuseas. Contudo, este acaba sendo não só é uma mostra de como o choque da mudança do comunismo com o capitalismo afetou profunda e rapidamente a Alemanha (que se dividiu totalmente em 1959 após uma invasão Soviética dez anos antes), mas uma lição verdadeiramente bem humorada de como qualquer sistema é irrelevante se muros são construídos em volta dele.

Tendo um outro ataque cardiaco após revelar um segredo referente à seu marido e um tanto confusa por ter saído do quarto e visto a transformação que o país dela sofreu, Christiane volta ao hospital e Alex para finalizar o "conto de fadas" que criou ao refazer a Alemanha socialista para a sua mãe, pede à seu amigo Denis para gravar um derradeiro vídeo encaixando a queda do muro ao sonho socialista de sua mãe, proporcionando assim a ela uma morte mais feliz.


E após lançar as cinzas de Christiane aos céus, Alex nas suas palavras derradeiras diz: “o país que minha mãe deixou era um país no qual ela acreditava e que nós mantivemos vivo até o último segundo dela. Um país que de fato nunca existiu desta maneira. Um país que na minha memória estará sempre conectado à minha mãe”.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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