Resenha Cinema: Logan


Stan Lee é um velhinho tão reconhecido, não somente por ter inventado dezenas de heróis que aprendemos a amar com a vida, mas sim criar heróis que se identificam com a vida em que suas realidades se mesclam com as nossas.

O que dirá um Peter Parker que foi criado para ser o cara como você sonha ser; com poderes pra poder combater as injustiças que lhe cercam, alguém que rala diariamente pra viver no subúrbio com a sua tia, que é inteligente e carrega a dor de ver parte da sua família vítima da violência e da fatalidade da vida. O que dirá a equipe dos X-Men que foi criada com a ideia de traçar um paralelo com a discriminação corrente que vivemos até hoje; da supressão do diferente, do diferente que se sente superior, do normal que se acha no direito de seu lugar ser somente seu lugar, da incapacidade de grande parte dos seres humano de indiferenciar o bem do mal...

Para entender Logan é preciso entender seu contexto e seu título. Quando Logan foi anunciado como apenas Logan, simples assim, sem tradução ou com um subtítulo para passar a ideia de mais uma aventura do Wolverine, o filme começou a tomar forma do que ele se tornou agora. E ao final de Logan, você passa a entender exatamente porque o Wolverine é mostrado quase sem ser chamado de Wolverine, e sim Logan. Logan é uma pessoa e o filme mostra essa pessoa. Logan é um homem cheio de dor, cansado das lutas, das batalhas perdidas e das mortes que causou (ou não). 

O ano é 2029 e o filme conta muito pouco do que aconteceu, mas o bastante para termos toda a ideia do que se passou e a falta de detalhes só abrilhanta a importância de sua ausência. Nesse "mundo que não é como antes" (algo que Logan faz questão de frisar) e mundo esse que Logan (Hugh Jackman) vive e Charles Xavier (Patrick Stewart) como nonagenário sobrevive, os dois são os últimos mutantes conhecidos. Há pelo menos 25 anos não é encontrado mais nenhum mutante e a esperança se foi juntamente com sua família chamada X-Men. 

Nesse futuro distópico em que a gente logo liga com "Dias De Um Futuro Esquecido" meio naquelas "se tudo desse errado", Logan agora é James, um motorista de uma espécie de Uber que apenas busca juntar um dinheiro para levar Xavier para o meio do mar, onde eles poderiam viver sem incomodar mais ninguém e nem serem incomodados.

Logan além de mais um filme de super-herói é um filme dramático, e é fundamental entender esse contexto antes de você sentar com essa bunda gorda (ou não) na poltrona do cinema. Logan carrega o drama de um homem que perdeu sua família, que vê seu mentor debilitado, que vê seu maior poder o envenenando diariamente e que vê não ter mais forças pra lidar com isso. O poder de seguir a vida lidando com a dor de não poder ter feito nada para o que aconteceu e a dor de não sentir que tem mais um propósito. Seus amigos se foram, Logan ficou, e apesar de seu fator de cura já estar falhando (e os óculos são um detalhe simples e impactante sobre isso), Xavier em breve irá também e os laços que os prendem ao passado glorioso e que ele tenta esquecer. Nada dói mais que ficar, e a ausência desse propósito denota a destruição de um homem. Logan é um homem quebrado.

E após a divulgação do título que deixou aberta a possibilidade de que íamos ver um filme sobretudo um filme sobre o homem que está por trás do collant, a trilha usada no primeiro trailer do filme escancarou a porta do que iríamos ver no cinema quando Logan estreasse: a luta de homem por um propósito e a carta de despedida que esse filme foi. 

Escrito por Trent Reznor e lançado como a última faixa do álbum "Downward Spiral" do Nine Inch Nails, "Hurt" é a música sobre a busca da autodestruição por um homem que não suportava mais sua dor por não ver nenhum propósito que faça dar sentido prático ao ato biológico de ainda continuar respirando, e que tomou ainda mais forma na voz de Johnny Cash - a versão que foi utilizada no trailer, e em um clipe que foi a carta de despedida mostrando um homem de um passado glorioso vencido pela ação do tempo.

E então Laura surge, esse propósito surge. Os mutantes não nascem mais, agora são criados. E além da alegria que Xavier sente em voltar a encontrar uma mutante e em voltar a ter a esperança num lugar aonde tenham mais dela o faz renascer e Logan ao assistir ao vídeo da hispânica Gabriela, o faz entender o propósito de ajudar a quem precisa ser ajudado, em suma, os diferentes a quem ele já pertenceu e de como a humanidade os vê, como meras armas de destruição em massa; como Xavier é e ele próprio fora criado pra ser e que o "clone sem alma" X-24 é. Wolverine foi um projeto e os mutantes agora são só isso.

Como X-23 (Dafne Keen), Laura é aquela raiva que Wolverine já foi, ele se enxerga nela e o grande mérito do filme é a forma como ela é apresentada. O universo "poeirento" nos recebe de braços abertos e apenas vamos junto, doce como Xavier é nas palavras que usa. Tudo aqui é muito sutil, e nessas 2h30 somos apresentados a cada personagem e a esse contexto sempre de forma muito suave, adotando os três como parte de nós; com James Mangold alternando partes de ação desenfreada com a mais pura calmaria e contemplação, demonstrando que a FOX tenha entendido uma importante alternativa a fórmula Marvel de fazer filmes (ouviu DC?).

Apesar das cabeças rolando e do sangue sempre presente em toda cena de luta, Logan se mostra não apenas como um filme. X-23 é dona de uma raiva nunca vista, mas apenas uma criança que senta em um cavalinho mecânico por horas. Xavier é aquele doce avô ainda sonhador. Logan fugia do passado, mas através desse propósito, desenvolveu um relacionamento de um pai com uma filha. 

O roteiro é simples, mas tudo é muito tocante, sincero e faz refletir acerca a nossa própria vida. 

"Não seja o que fizeram com você"

Tal frase fez cair um cisco no olho, como em outros momentos, e faz a gente pensar como acima de tudo é importante sermos nós mesmos. 

Sim, não existem mutantes, mas a ignorância da aceitação da diferença é a mesma e seria a mesma se existissem mutantes. Os X-Men foram criados como uma crítica ao preconceito, e seja ele pela cor, pelas convicções, pelo passado... não seja como os outros fazem você ser. 

Seja sempre como você.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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