Resenha Documentário: Cooked


Quem vai ser o próximo MasterChef do Brasil? Quem vai ser o melhor confeiteiro? Quem vai fazer o melhor churrasco? Buddy Valastro, Paola Carosella, Henrique Fogaça, Alex Atala... etc. Confeiteiros e cozinheiros, todos são astros, até mesmo a Palmirinha.

As opções destes tipos de programas aumentam cada vez mais e a palavra MasterChef virou adjetivo, mas por que adoramos ver os outros se foderem cozinharem coisas que nunca vamos comer e no entanto caímos no paradoxo de que na verdade odiamos fazer isso? De um lado há o iFood, de outro há o orgulho de dar o check-in num restaurante e tirar uma foto da comida que o restaurante te serviu.

"O ato de cozinhar é o que nos torna humanos".

Com esta frase na cabeça a série documental baseada no best-seller de Michael Pollan e produzida pela Netflix circunda através da questão: por que há tantos reality shows de cozinheiros? Mas vai muito mais além. Quando essa paranoia sobre cozinhar se tornou comum?

Não é a toa que cozinhar virou um espetáculo. Ficamos tão estupefatos ao vermos aqueles pratos daqueles cozinheiros, que nem percebemos a industrialização do próprio alimento que está por trás e o verdadeiro jogo que se transformou o ato de cozinhar nos vendendo a ideia de temos que fazer tudo aquilo em pouco tempo senão nem vale de nada, como o próprio capitalismo nos diz a todo o tempo. Odiamos supermercado, odiamos descascar, odiamos esperar, odiamos limpar fogão, odiamos lavar louça. Nisso, resta um salve à procrastinação quando dizemos a nós próprios que não temos tempo para nada. Talvez passamos tanto tempo odiando tudo que nos resta odiar a falta de tempo que julgamos ter...

E não é gordice falar de comida, é fato: a comida aproxima as pessoas. E comer a própria comida, mesmo que seja um arroz e feijão bem feito, é motivo de orgulho. E é ainda mais quando alguém está ali para comer a própria comida que você irá oferecer, aliás, é motivo de orgulho lembrar da nossa avó. Pense bem, quantas vezes você lembrou dela pelo estômago?. "A comida que ela fazia só pra mim quando eu era criança". Então cozinhar, mesmo que seja algo simples, é uma demonstração de afeto. Mas quando perdemos isso?

Sobre isso no episódio água temos um imagem emblemática, uma família indiana sentada em frente a televisão (pai e filho gordos) pedindo hambúrgueres e fritas após a mãe declarar que não teve tempo pra cozinhar, enquanto ela mesma e sua filha estavam sentadas totalmente alheias mexendo no celular. É assustador que essa prática seja tão comum no século XXI. Não é que cozinhar seja papel da mãe, mas a cena diz por si só. Uma família grudada na televisão, sem conversar, somente interagindo se pede mais batata ao parente do lado mas se queixando de que não tiveram tempo pra cozinhar.

Através de quatro capítulos nomeados com os principais elementos: fogo, água, ar e terra. Ele discute como o ato mais básico e primordial de fazer a própria comida se perdeu com a industrialização e com o capitalismo e quando em favor dessa vida moderna deixamos a publicidade nos vender a ideia de que nunca mais precisávamos cozinhar.

"Calma, nós fazemos isso para você".

Aos poucos essa frase vai nos corroendo e sem querer ela te vende a ideia de que cozinhar é coisa da sua mãe, e que isso não é para você. Você é muito mais que isso. E se na Segunda Guerra tivemos o boom de alimentos processados para "proporcionar às mães maior tempo de convívio com sua família", hoje é a era dos alimentos ultra-processados que toma conta das prateleiras em que você nem prepara (tempera), só esquenta e come.

Quando você parou pra pensar que o suco detox é uma grande falácia tal qual o fato de que o glúten, a gordura ou o carboidrato e fazem mal? O pão que comemos tem de 31 a 37 ingredientes quando o original tem apenas 3, então será mesmo que o glúten é o vilão?

Cooked te faz refletir que tais alimentos aliados ao fato da vida moderna são vendidos pelo medo; ou você nunca comeu pão integral por alguém ter dito que ele ter menos sódio? Afinal, por quê os alimentos naturais são mais caros que os industrializados? Aliás, pão é pão, por quê então tem vários tipos? O fato é que comemos muito e comemos mal e isso vai ao encontro ao fato da "vida corrida" impossibilitar que façamos a nossa própria comida, então, a modernidade simplesmente vai de encontro ao capitalismo que resolve problemas criando outros, quer dizer, ao longo da vida te faz comer mais açúcar tornando-o com o tempo um diabético que só pode comer produtos sem açúcar.

A comida é a base do relacionamento humano tanto que o "eu vou lavar louça enquanto você descasca tal coisa" é prática comum, mas odiamos isso. Daí volto a frase que citei lá no início da resenha:

"Cozinhar é o que nos faz humanos".

Não, a série documental de Michael Pollan não está aqui para te criticar e nem pra te mandar pra cozinha com o rabo entre as pernas como a televisão constantemente te faz sentir sobre tal comida de tempos em tempos, mas sim pra te mostrar a relação do ser humano com a comida e te fazer questionar sobre como somos humanos menos humanos sem termos contato com a natureza.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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