Resenha Série: Legion (1ª Temporada)


Esquisito. Encontrado com dificuldade, raro, precioso, fino. Desconhecido, estranho, exótico. Incomum. Anormal, estranho, extraordinário, fora do comum, invulgar. Excêntrico. Que se desvia do centro ou afasta de, situado fora do centro... Poderia dar vários adjetivos para Legion, mas essa aula de português termina por aqui.

Confesso que torci o nariz para a série quando ela foi anunciada, não porque não admire a enxurrada de heroísmo no cinema e na televisão, mas é previsível você soltar um "mais uma?". Lógico, salvo as diferenças de cada uma, todas elas guardam o mesmo estilo de narrativa - o estilo sombrio da Netflix ou o entretenimento pipoca da televisão aberta.

Legion é uma desconstrução de tudo isso que conhecemos. É uma série pra nos deixar desconcertados, é um outro nível que não funciona se invadisse o cinema. Facilmente é a primeira série com super-heróis a ter a potencial chance de abocanhar um Emmy, e falo sério.

Com uma aura de mistério, confusão, e psicodelia, entramos na mente de Legião, ou David Haller (Dan Stevens), Não tendo nada de conversa sobre origem, a série simplesmente te joga na narrativa. David é um jovem perturbado que é levado ao manicômio Clockworks por ter sido diagnosticado com esquizofrenia. A questão aqui é que ao conhecer Syd (Rachel Keller) aos poucos ele começa a se questionar se as vozes em sua mente são reais, e aí partimos pra uma jornada de auto-descobrimento sobre o que se era, o que se é, e o que se pode ser.

É curioso. É estranho. É espiritual. É impossível eu contar alguma coisa a mais da série pois penso que é impossível de explicar a viagem. Não é coincidência tão somente termos um manicômio com referência clara a Laranja Mecânica e a namorada de David ter o nome de Syd Barrett (ex integrante do Pink Floyd), além da trilha sonora contendo Talking Heads, Radiohead, Robert Plant e The Who. A coisa vai muito além da narrativa, é algo que transcende facilmente a tela da televisão e que me fez pensar bastante ao seu final.

Legion é uma série tão ampla que podemos traçar vários paralelos, mas o principal deles é o medo. E na jornada em entender o que caralhos está se passando na tela afinal, a perfeita compreensão da narrativa passa por entender plenamente o que David está enfrentando. E nesse jogo de cores, sons e movimentos em um anacronismo perceptível em quase toda sua duração, é o medo que está presente o tempo todo; bloqueando não só o passado de David, mas como toda a nossa curiosidade do que estamos instigados a descobrir. Sim, Legion chega a ser tão parado em certos momentos, até chato de tão confuso, mas é instigante demais para se parar na metade.

Detentora do título de série de maior nó no cérebro recente, a jornada de David Haller requer atenção, e nos faz sentir exatamente dentro da sua mente confusa que busca a compreensão de si mesma.

Tendo traços dramáticos e da boa e velha ficção científica, Legion é sobretudo uma série de super-heróis que usa e abusa do colorido, da fantasia, dos superpoderes e até do non-sense em nos jogar na cara um musical nos fazendo acreditar que aquilo fará algum sentido ainda pra trama.

É fundamental se atentar aos detalhes e entre esses detalhes aos poucos vamos percebendo que se a ligação com os X-Men se faz presente, ela é pouco perceptível. Apesar de se basear no mais complexo e mais poderoso mutante já existente numa linha do tempo já inexistente dos X-Men, o termo mutante e super-herói cessam por aqui. Legion se destaca com louvor justamente por ser uma série baseada em quadrinhos que anda totalmente com a própria narrativa, sem precisar das páginas dos tais quadrinhos e das referências para se sustentar diante aos fãs.

Legion é uma série de super-heróis em sua essência aonde os heróis são a alegoria que dão a base ao roteiro e não ao contrário, entregando uma narrativa aonde a impressão principal é de que não iremos construir nada juntamente com a série, e que sim que ela nos fisgará para essa viagem. E por mim, tudo bem.

Que venha a segunda temporada.

Entre tantas coisas que eu penso, na verdade, não tem nada melhor na vida do que meus heróis, um bom rock n' roll, cerveja, fritas, e um bom papo com uma boa companhia.

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