Resenha Documentário: Five Came Back

quinta-feira, maio 25, 2017


Frank Capra, George Stevens, John Ford, John Huston e William Wyler. Esses cinco diretores surgiram na mesma época e todos foram convocados para trabalhar junto ao exército norte-americano em tempos de guerra, inicialmente focando em produções documentais, de treinamento ou quaisquer registros junto ao público militar que ajudariam a delinear a história no período.

Se no primeiro episódio "The Mission Begins" o ritmo é moroso comparado a sua conclusão, é porque essa parte tem por responsabilidade contextualizar o cenário em que os EUA até o ataque em Pearl Harbour não assumia responsabilidade alguma diante ao domínio nazista na Europa, quer dizer, o problema deles deveria ser resolvido entre eles. Mas diante ao ataque japonês, tudo mudou. E aí começamos a ver o poder real de "Five Came Back" explicando porque o cineastas da época ajudaram a história ser escrita com um H maiúsculo como a conhecemos hoje em dia e a própria sétima arte, com a existência de obras mais contemporâneas como "A Lista de Schindler" e pós-guerra como "O Diário de Anne Frank", por exemplo.

Com o início do envolvimento norte-americano na guerra, os renomados cineastas são convocados para educar e propagandear os atos do país na guerra tendo a responsabilidade inicial de incutir na cabeça dos norte-americanos quem era bom e mau naquela situação. Era o nós contra eles, e é motivo de orgulho e comoção a entrega que cada um teve com as filmagens. Foi muito interessante ver como os renomados cineastas lidaram com os desafios de produção e de roteiro numa época de pura pressão, onde era de fundamental importância entender o que os alemães tinham entendido e tinham como maior força: as ideias. Frank Capra aliás, assistiu ao documentário nazista “O Triunfo da Vontade”, de Leni Riefenstahl, e de tão impressionado, intimamente, achava que era impossível vencer os alemães naquela altura.

Mas a medida que a guerra foi avançando e os diretores entendiam melhor o que estava se passando e do porquê que era importante participar daquele confronto, no segundo episódio "Combat Zones" o poder de crítica do cinema também ganha forma, e isso se nota claramente na parte em que o documentário nos conta do esforço dos militares naquela altura em fomentar o sentimento nacionalista, mas não de direcionar o ódio a todo povo alemão, porém, sem o mesmo cuidado com os japoneses. Não era tão nós contra eles e a importância de derrotar o mal não deveria ser a todo custo. Isto, ganhando ares hipócritas na parte do documentário em que mostra o impacto social do docudrama "The Negro Soldier", mostrando como os "inimigos destituídos de humanidade" de certa forma também residia nos soldados brancos que se não tratavam com igualdade os soldados negros - algo que obviamente não passava desapercebido principalmente pelo imigrante Capra e o judeu Wyler, sumariamente silenciados pela hierarquia militar na época.

Dá pra traçar algum paralelo com o agora né?

Certo que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mas se graças ao bom bule voador não nos matamos um aos outros, é porque o sentimento nacionalista acaba no final das contas sendo superado pela humanidade que ainda reside em cada um. E em "Five Came Back", principalmente no terceiro e último episódio "The Price of Victory", entendemos o quão importante foram o papel destes cineastas de em favor à arte demonstrar de forma neutra e direta as mazelas que a guerra trouxe diferentemente aos dois lados, ajudando a construir muito da moralidade que ainda temos hoje.

As imagens dos campos de concentração em Dachau feitas por Stevens foram de fundamental importância para o histórico julgamento de Nuremberg, revelando para o mundo um fato que jamais será esquecido e mudando os cineastas para sempre, refletindo diretamente em seus filmes até o final de suas vidas mas ainda capazes ainda de gerar obras primas elogiadas e premiadas como "Let There Be Light", retratando com fieldade a luz humana que era capaz de ascender diante à descrença de que podíamos ainda ser melhores naquela desolação toda.

Talvez se "Five Came Back" tivesse sido dirigido por um norte-americano e não pelo francês Laurent Bouzereau, não teria tido o mesmo impacto ao contar como Capra, Ford, Huston, Wyler e Stevens foram de fundamental importância para o que o cinema é hoje, influenciando diretores e fundamentalmente pessoas como Guillermo Del Toro, Steven Spielberg, Paul Greengrass, Francis Ford Coppola e Lawrence Kasdan, que sabem do poder que está em suas cabeças em propagandear uma ideia, mas também do poder do cinema em sua capacidade de educar e documentar a verdade,

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários