Resenha Série: Master of None (2ª Temporada)


O que vamos assistir agora? Aposto que você ficou pela página da Netflix rolando os pôsteres para o lado, verificando de um a um, adicionando na sua lista para ver "mais tarde" e avaliando aquele filme que você já assistiu para melhorar a curadoria da IA do serviço, porém, ainda assim você se pergunta: "o que vou assistir agora?" - e depois de mais de uma hora passada você acaba não vendo é nada. Nesse ritual quase catártico, você já deve ter percebido o bolo de produções originais da Netflix e refletido que em quase 100% das vezes elas acabam cercadas pela nossa indiferença, infelizmente em certos casos porque pelos seus olhos pode passar "Master of None".

Nesse bolo temos invariavelmente séries que ganham o público e a moda como se fossem praticamente moldadas para nós, vide "House of Cards", "Stranger Things" e até o tão falado "13 Reasons Why" (que não tive a menor vontade de ver), e outras que devido a liberdade que o serviço por si só dá ao seu criador por não exigir praticamente nenhuma contrapartida - algo que é quase imediato - dificilmente estariam na televisão aberta norte-americana atual. E recomendado por uma amiga, "Master of None" foi aquela que da forma mais verdadeira preencheu meu coração e cessou qualquer "zapeada" a mais que pudesse dar pela Netflix, com sua primeira temporada servindo como um atestado de arrependimento pra me fazer prestar mais atenção a essas produções originais (como curta e bela "River").

Criada pelo comediante americano e filho de indianos Aziz Ansari, na série temos como protagonista Dev Shah, um ator de meia-idade de ascendência hindu como Aziz e que como nós passa pelo drama nosso de todo dia numa cidade grande, procurando trabalho, se divertindo com os amigos e tendo problemas com o amor - sempre dividindo a paixão pela comida, seja na convívio social ou profissional com o Chef Jeff (Bobby Cannevale) nessa segunda temporada.

Até aí normal, contudo, a forma como ele e seu parceiro na produção (Alan Yang) tratam destes temas é simplesmente a melhor coisa vista na televisão nos últimos anos. Indo da Itália a Nova York, de Fellini em "The Thief" (S02E01) a Woody Allen em "New York, I Love You" (S02E06), a dupla constrói e conta situações à la Seinfield (obra máxima das sitcons) abordando assuntos polêmicos e tão quanto corriqueiros, como aquele "Thanksgiving" "S02E08), que é dedicado quase que integralmente a Denise e seu processo de aceitação sua e da sua família sobre sua condição sexual; ou em "Religion" (S02E03) em que Dev discute crenças com sua família girando em torno a carne de porco.

Aliás, nessa segunda temporada da série, Aziz e Alan em dez episódios percorrem um tema central (o relacionamento de Dev e Francesca, interpretada pela bela e talentosa Alessandra Mastronardi) mas construindo a série na base de esquetes mais isoladas ao contrário da primeira temporada, assim tirando o foco do Dev propriamente pra proporcionar uma maior liberdade ao Aziz. É só observar o que a gente vê em "First Date" (S02E04) sobre da fugacidade dos aplicativos de relacionamento como o Tinder, e em "Le Nozze" (S02E02) que se trata do duro processo de aceitação no amor. Ah como dá vontade de dar um abraço no Arnold. Quer, dizer em todo elenco que enche a série de carisma e só abrilhanta seu roteiro e execução.

E falando de roteiro, qualquer produção é bem sucedida se é aquela em que esse é escrita se aproximando de seu espectador; seja brincando com o fantasioso, com a realidade que ele gostaria de estar ou simplesmente falando sobre a rotina. Precisamos trocar experiências e ver celebrado na tela algo da qual celebramos ou passamos, e "Master of None", de novo, trata o comum de forma primorosa, a romantizando e a melancolizando da forma como deve ser; como no BRILHANTE episódio de quase uma hora "Amarse Un Po" (S02E09) - assim em letras garrafais mesmo.

Inspirada em Seinfield e principalmente em Woody Allen (sendo bem menos neurótico que ele), "Master of None" é simples e carismática, trazendo uma fotografia e atuações merecedoras de um abraço - ah como é bom ver Arnold, Denise e Brian. Todos minorias, todos com seus dramas internos e todos com o desafio de seu processo de aceitação constante que todos nós passamos.

Curiosamente, foi difícil de escrever sobre "Master of None"; pois ela é uma serie sobre o tudo e o nada. Sobre eu e você.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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