O exagero em demonizar a Netflix por causa do cancelamento de Sense8

segunda-feira, junho 26, 2017


Apesar de ter gostado bastante de Sense8 e a elogiado bastante nas resenhas (aqui e aqui) que fiz sobre as duas temporadas, olhando criticamente, a série tinha grandes poréns que não passavam desapercebidos. Resumindo, a série sensate tinha potencial, mas a execução era complicada demais de ser realizada e o andamento tinha sim grandes "barrigas" principalmente na segunda temporada, esta, que apelou talvez demais para seu discurso inclusivo do que para o trama sensate que tinha que seguir em frente. Pense bem, eram OITO tramas diferentes sem contar esta, e por volta de DEZ localidades diferentes ao redor do mundo. A execução é lenta e complexa como a justiça brasileira. Corre nos bastidores que Lana Wachowski, devido a problemas pessoais, literalmente se cansou. O bolso da Netflix também, eram simplesmente US$ 9 milhões por episódio; e amigo, se ela não dá retorno nesse mundo capitalista, não tem Elon Musk que segure (bom, talvez ele). 

E entre aquelas pessoas que não suportam divergir e aquelas que adoram divergir, há um consenso: é um verdadeiro exercício de paciência entrar em uma discussão nos tempos atuais. Dizemos que há pessoas cabeças-duras, há aquelas que agem como pombos jogando xadrez, há aquelas que não abrem mão das suas crenças, há aquelas que só escutam; a verdade é que preza-se o exagero, o absurdo, o confortável. Uma parcela muito pequena investiga o que lê, e se você é alguém com uma opinião ponderada que chega no meio desta bagunça, é ridicularizado e taxado como pertencente ao grupo de A ou o B sem querer estar em nenhum dos dois lados, quer dizer, o direita e esquerda que há hoje.

Somos também um produto de manada. Agora que a Netflix cancelou Sense8, qualquer outro cancelamento de série e o próprio aumento recente de mensalidade do serviço de streaming tomaram dimensões gigantescas gerando comentários desmedidos, aqueles que como na política, se polarizam defendendo o serviço ou que irão cancelar porque está caro (!) e que a Netflix está cometendo uma sacanagem atrás da outra cancelando séries. É só abrir a caixa de comentários para ler tais absurdos e tornar-se irresistível entrar na jogada pra sair xingando depois.

Sense8 fez história por abordar a diversidade de uma forma tão natural e em muitos momentos comportou-se como um verdadeiro abraço a quem pensa dessa forma inclusiva, se tornando um importante instrumento discursivo em vários aspectos. 

Em seu final abrupto, talvez o que machuque mais seja ela ter sido cancelada sem um final digno, nem um episódiozinho que só. Bom, talvez um dia ela retorne, o mundo da mídia se provou ser líquido à la Zygmunt Bauman. Twin Peaks está aí para provar. Contanto, a verdade é que Sense8 não disse ao que veio na ponta do lápis. E indo além do lado afetivo que a série criou no público brasileiro, vale notar que no resto do mundo, ninguém está "nem aí" pro fato. Resumindo, Sense8 não trouxe os resultado$ que a Netflix queria, simples, e agora perceber que a Netflix na verdade não é aquele irmão revolucionário, uma voz ativa contra a televisão tradicional, machuca. Mas dinheiro é dinheiro, seja ele em cartão ou bitcoin, e como qualquer grande empresa a Netflix tem o poder e o dever de rever seus investimentos quando ela bem entender e aumentar a mensalidade contando que seu custo-benefício ainda é infinitamente superior ao que é entregue. Pagamos ainda muito barato pelo o que a Netflix entrega, e ponto final. Com R$ 27,90 pelo plano de duas telas eu pago o meu almoço e só.

Creio que ainda mais nos tempos de hoje, é fundamental adquirir uma visão macro para todo e qualquer assunto com o objetivo de não se voltar para o próprio umbigo, correndo para se vangloriar por ser o único "que percebeu" que a máscara do corporativismo caiu por terem cancelado tal série que gostava, quando na verdade ninguém se importava com Girlboss, The Get Down ou Marco Polo até ontem - séries essas que compartilham o fato de serem caras (a exceção da primeira) e terem trazido pouca audiência, para você comparar: The Get Down custou US$ 120 milhões e Marco Polo US$ 200 milhões de Trumps ao final de duas temporadas. Não as assisti, mas Sense8 ao lado de Demolidor, House of Cards e Orange Is The New Black era um dos maiores expoentes da empresa, era boa, mas não tudo isso. A verdade é que a Netflix ainda procura sua grande produção à la HBO. Mas sobretudo, é importante entender que a Netflix é uma empresa como qualquer outra que equilibra-se entre lucros e despesas, como a HBO que cancelou True Detective e The Night Of mesmo com suas qualidades inquestionáveis. Resumindo: dá lucro, fica na grade. 

“Relativamente ao que você está gastando, as pessoas estão assistindo? Isso é bem tradicional. Uma série grande e cara para um público grande é ótimo. Uma série grande e cara para um público pequeno é difícil fazer durar muito tempo até mesmo no nosso modelo de negócios” 

- Ted Sarandos, CEO da Netflix

Soa ameaçador eu sei. Talvez a infelicidade da empresa seja em estar divulgando estas notícias seguidamente, mas vale ponderar que entre erros e acertos, o que a empresa tem proporcionado no mundo midiático mudou até nosso comportamento. E nessa busca incessante pela variedade de conteúdo, ao mesmo tempo em que a Netflix quer se livrar das amarras das distribuidoras que cobram milhões pra renovar contratos de distribuição, a empresa investe em conteúdo próprio para se diferenciar no mercado com o intuito de não ser uma "locadora" para sempre como foi antigamente. Amazon, HBO e Fox já entraram nessa jogada, até a Globo; com isso nós consumidores saímos ganhando. Quanto mais variedade melhor, e não justifica apedrejar a vidraça inteira porque um pedaço se partiu, a variedade de séries de qualidade é tão grande, até na própria Netflix, que simplesmente não entendo o burburinho.

Em debates tão polarizados em que ninguém convence ninguém, mal se escuta e é tão importante ter uma opinião e abraça-la até o final dos tempos, o Facebook nos entrega verdades que queremos acreditar e com isso ficamos em nossas bolhas sem entender realmente as divergências que ocorrem. Obviamente não estou dizendo que fabricou-se fatos, mas sobre a Netflix o bom senso acabou ficando em plano Z e todos gritamos nessa praça sem entender nada e nem querendo sair da caixa.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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