Resenha Filme: The Discovery


De onde viemos, o que somos e para onde vamos. A produção original da Netflix "The Discovery" trabalha em cima da resposta à terceira pergunta.

Essas perguntas que afligem a humanidade desde que ela surgiu é o cerne central da existencialidade e da própria filosofia, afinal, é o medo da morte e o enfrentamento da questão da finitude inexorável a todos que nos move para tentar dar um sentido a nossa vida.

Necessitamos ser bons, e no alto de nossa natural curiosidade e prepotência necessitamos invariavelmente de dar sentido a tudo, acreditando que em vida sejamos recompensados por algo além da mera causa e efeito, quer dizer, a imortalidade é compreendida como o máximo do que uma pessoa pode ser. Como conforto, a imortalidade é uma válvula de escape para acreditarmos que nós e quem amamos irá para um lugar melhor e que futuramente a saudade deixará de existir porque "reencontraremos" esse alguém em algum lugar.

Nossa vida é pavimentada pelo "e se", somos afligidos não só pelo o que é, mas pelo o que pode ser.. Sendo a vida um eterno jogo de escolhas, creio que o nosso maior desafio é lidar com elas da forma menos dolorosa possível entendendo o passado e o presente, encarando o fato que com a ameaça constante da falibilidade que nos permeia, a melhor coisa a se fazer é assumir o peso das responsabilidades e do que nós somos antes de tentarmos melhorar como pessoas.

Thomas Harbour (Robert Redford) anuncia em uma entrevista que encontrou a prova científica de que há a vida após a morte, e essa confirmação provoca um suicídio na sua frente e cerca de quatro milhões de mortes em cerca de dois anos, quer dizer, a morte deixou de ser um mero fim para ser uma suposta "segunda chance" para certas pessoas que escolhem se libertar do peso que tem em vida, transformando um suicídio em uma alternativa ainda egoísta, mas agora plausível e não algo somente "ofensivo". O que "The Discovery" tenta deixar claro é de que a morte igualou o peso da vida a partir dessa grande descoberta, portanto o desafio agora é valorizar a vida - o que é complicado por si só sem o apoio do incerto e do errado.

Thomas desaparece após o ocorrido, mas em segredo absoluto quer saber o que há depois dessa vida após a morte e aí o filme toma rumos de um thriller envolto em suspense, mistério e até assustando na parte em como nós poderemos vivenciar esse além e como isso poderia ser usado pelos que escolhem ainda ficar.

Resumindo, tanto nós e o verdadeiro protagonista Will Harbour (Jason Segel) desejamos que isso nunca pudesse ter sido descoberto, compreendendo juntamente com ele que não importa quanto o ser humano tente dar sentido as coisas que faça, ele sempre continuará repetindo os mesmos erros que comete. A paleta de cores frias, o ambiente sempre escuro, os personagens sempre carregados tentando carregar o peso das escolhas e decisões (principalmente Will), dando destaque nessa parte à conturbada relação entre Will e Thomas.

Contudo, "The Discovery" carrega muitos defeitos. Apesar de ter essa premissa interessantíssima o filme não se aprofunda nessas questões, e mesmo com a escolha pelo lado científico e até romântico na relação fria entre Will e Isla (Rooney Mara) que derruba o filme, o roteiro acaba não se sustentando pelo seu ritmo lento e pelos seus diálogos fracos que não conseguem sustentá-lo, principalmente por essa premissa que carrega tanto potencial filosófico. Podem me acusar de não entender o filme, mas mesmo com seu final dúbio eu não acredito ter alcançado a compreensão certa, passando a impressão de que esse final forçadamente tenta nos causar a reflexão de que o filme inteiro não se aproveitou, o que é ruim.

A questão da imortalidade fundamenta religiões através dos tempos confortando e servindo como um guia moral que irá nos conduzir a algo maior, seja lá o que isso possa ser. Não vou entrar na discussão do quanto isso possa ser bom ou mal ou realmente necessário, isso é tão íntimo de cada um quanto complexa de se discutir; e "The Discovery" ao mesmo tempo que provoca a expectativa quase que instantânea que assistiremos a uma história que carregará diversas frases de efeito e questões que nos fariam refletir acerca da existência, diria que, apesar dos poréns, o filme num todo acabou acertando ao negar a percorrer este caminho mais complexo e mais fácil que própria pergunta em si incita filosoficamente e moralmente, preferindo ir pela questão científica e até romântica ao mesmo tempo em que (de forma meio confusa) tem um final dúbio, que na minha interpretação foca na dor da escolha e do quanto incompreensível ela possa ser.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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