Resenha Filme: Sete Minutos Depois da Meia-Noite


Lidar com a dor de ver a morte de alguém querido é uma tarefa complicada para pessoas de qualquer idade, ainda mais quando participamos diretamente do processo da transição, e pessoalmente, acredito que essa é a parte ainda mais difícil se compararmos com a perda de fato. Presenciar a dor dessa pessoa amada diante aos olhos nutrindo junto a ela a esperança de que tudo voltará a ser como antes ao mesmo tempo em que intimamente vislumbramos a possibilidade de que toda aquela luta será praticamente impossível de ser superada por diversos fatores, dilacera o coração de quem foi testemunha disso, pois desperta o pior sentimento do ser humano que naturalmente nutre a esperança: a impotência.

Juntamente com essa impotência pessoal em ter que depositar a esperança de melhora em terceiros, o medo e a insegurança constante de imaginarmos possibilidades trazem consigo a contradição de querer que tudo aquilo acabe, em suma, enfrentar a verdade da finitude é a parte mais dolorosa de qualquer atividade na vida, pois implica o bem e o mal na mesma decisão restando uma ponta de egoísmo e sinceridade na tarefa de aceitar que a vida termina pra uns e continua para outros; e a dor acaba sendo o sentimento que nos separa, independentemente da religião, crença ou escolha que cada um faça e aonde poderemos ter algum suposto conforto acreditando que aquele que amamos, ao deixar de ter esta dor, estará em algum lugar melhor que nós que temos a difícil tarefa de seguir a vida. É aí que a parte da aceitação entra.

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite" trabalha isso usando a figura do monstro residida em um subconsciente para nos ajudar a relembrar (para quem já passou por isso) como esta tarefa é complicada, um monstro que temos que domar (como aparece no pôster). O roteiro escrito por Patrick Ness, escritor do livro em que o longa é baseado, ajudou a transição dessas questões de forma absolutamente perfeita, sensível e singela como deve ser emocionando de verdade sem apelar pra pieguice.

Conor (Lewis MacDougall) é um garoto perturbado emocionalmente por causa da luta da mãe, Lizzy, (Felicity Jones) contra o câncer, percebemos isso em seu rosto e em seu silêncio. O garoto é diferente, mas dado a este assombro em vislumbrar a perda da única pessoa que o entende verdadeiramente, o garoto se perde nessas diferenças, se isola e usa até da dor para "aliviar" a dor que sente através do bullying que ele sofre na escola.

Não importando o que isso lhe inflija, ele não quer ser invisível, ele quer a punição (note como essa metalinguagem é usada) aonde seja, tentando desesperadamente criar uma rotina vencida em torno de si mesmo com o objetivo de por minutos acabar esquecendo o que está acontecendo. Uma realidade em que ele está velho demais para ser uma criança e jovem demais para ser um adulto, de um certo alguém que não se vê encaixado em nenhum lugar; seja com o pai e seja com a avó não importando a demonstração de amor que eles tenham com ele, aonde Conor usa o desenho (note que ele não termina nenhum) para tentar de alguma forma se conectar o seu subconsciente com o papel ao mesmo tempo em que com isso ele tenta com isso relembrar dos momentos felizes que sua mãe - aspirante a estudante de arte - mostrava seus desenhos a ele.

Em uma noite ele é visitado por uma ameaçadora e carismática árvore (voz de Liam Neeson) que tem a tarefa de lhe contar três histórias e dá a Conor a obrigação de contar a quarta, a verdade, o sonho/pesadelo daquilo que tanto teme e que esconde em seu íntimo.

A beleza do filme está em como são contada tais histórias aonde o vínculo com o espectador é criado instantaneamente, singeleza visual com as histórias contadas com o auxílio da aquarela, e sensibilidade em fazer compreender de que as decisões difíceis não guardam mocinhos e bandidos, mas sim decisões. Breves ensinamentos que são direcionados a nós e ao protagonista se conectando com o íntimo de cada um.

Como filme triste e simples que é "Sete Minutos Depois da Meia Noite" guarda em seus personagens o de melhor do longa e o suficiente para nos conectarmos e entender cada um dos personagens. Nós sentimos o desafio e a dor no coração de Conor, o amor verdadeiro de mãe em Lizzy, e a dor velada no coração da sua avó - marcado principalmente pela forma que ela reage quando vê todo o cômodo destruído por Conor. 

"Mas do que adianta?", frase que é dita a Conor quando este espera punição. É como se o relógio fosse a alegoria perfeita do que nos apegamos, como se cada um dos personagens fosse um nó no coração de cada um ao representar uma reação íntima que temos diante a finitude de alguém amado. É a troca de olhares e o silêncio de cada um dos personagens que guardam todo o poder da obra, é o desespero de ela dirigir sem muito sentido em alta velocidade terminando em um abraço em Conor ou nos olhares de Lizzy para ele e até do moleque que o espanca que guardam tudo aquilo que a história quer dizer.

Nos preocupamos com Conor e entendemos que ao final, na pose acolhedora e ameaçadora da árvore que o faz dizer a si mesmo a verdade, acaba-se causando o sentimento suficiente para a gente derramar lágrimas relembrando de como a aceitação dessa parte da vida é difícil.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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