Resenha Série: Deuses Americanos (1ª Temporada)

terça-feira, junho 20, 2017


Explicar a "existência" de um deus é complicada, mas uma coisa fica evidente na obra de Neil Gaiman. Os deuses existem a nosso bel-prazer e eles se modificam a medida em que nós evoluímos.

A compreensão de tudo o que nos cerca é cada vez maior, portanto, os deuses mudam, mas nunca eles deixam de existir. Claro, precisamos nos proteger contra o que não compreendemos ou simplesmente contra o que não queremos encarar que seja a temida verdade, passando assim a usarmos os deuses, quer dizer, O Deus, para nos dizer o que é A verdade fugindo dos nossos medos numa eterna busca em compreender a própria vida e dar um sentido a própria existência.

Tanto o livro quanto a série são recheados de meta-linguagem demonstrando que o esquecimento que esses deuses foram relegados em detrimento da evolução da compreensão do homem, que não se tornou necessariamente a sabedoria. Shadow Moon (Ricky Whittle) nos representa na série como o ser permanentemente confuso no livro/série de difícil digestão, mas talvez todos nós sejamos Shadow diante ao mundo cada vez mais conectado e alucinante em que nos perguntamos "que porra é essa". 

A obra do ateu Neil Gaiman não gira em torno de crer em nada, ao contrário, busca refletir com um lado oculto e mágico da existência que deixamos de lado numa vida em que com certeza não entendemos nem metade das coisas que vemos. Nessa metáfora dos deuses com a vida, independentemente disso nós precisamos buscar histórias que nos ensinem a como poder viver. Para ele e para Wednesday (Ian McShane), nos deuses residem essas histórias e tais histórias estão se perdendo para coisas que não controlamos, os neodeuses, como a Mídia (Gillian Anderson) ou os nomeados Mr. World (Crispin Glover - o pai de Marty McFly) e Technical Boy (Bruce Langley).

Os deuses são a manifestação de nossos desejos, eles são o que acreditamos que eles sejam e representam o que somos e o que existe; o que na visão de Gaiman encaixa-se perfeitamente sobre a realidade em que vivemos. Sobre isso, a alegoria com o Jesus (Jeremy Davies) mexicano é precisa ao questionar, por exemplo, a xenofobia cada vez mais presente no mundo atual ou mesmo a escravidão com Anansi (Orlando Jones), sem contar a misoginia com Bilquis (Yetidi Badaki) e o mundo protecionista Vulcan (Corbin Bernsen) - que foi criado especialmente para a série.

Em tempos de Netflix em que maratonar histórias se tornou um achievement motivado pela própria Netflix e sua contagem regressiva, que liga um episódio ao outro que busca que você passe o dia inteiro em frente a televisão; tornou-se uma exigência aos showrunners e diretores produzirem séries com o ritmo cada vez mais impactante entre os fatos com o intuito principal de prender a atenção do público. Então se você procura um entretenimento mais tradicional "Deuses Americanos" não é para você. O ritmo aqui é lento e o roteiro é denso escondido atrás do surrealismo visual. 

Contando com diálogos fortes e fotografia belíssima, o senso de mistério é presente o tempo todo e a figura dócil e ameaçadora de Wednesday representa isso. Aqui a mão de Neil Gaiman como produtor executivo acaba pesando em Bryan Fuller (uma escolha certeira), onde ele expande as histórias do já pesado livro servindo como um complemento delicioso para quem, como eu, leu a obra (como na trama de Laura (Emily Browning) e do leprechaun Mad Sweeney (Pablo Scheibler) além de dar vida ao que lemos no livro. Resumindo, essa primeira temporada claramente serviu como introdução e talvez o erro dela seja em ter sido direcionada muito aos fãs de Neil Gaiman e do livro que a inspirou, afastando assim o espectador leigo que buscava um entretenimento menos atravancado, deixando a história mais palatável pra quem não a conhece.

Sim claro, é evidente que toda e qualquer produção televisiva desde o início tem esse objetivo final de prender a atenção do espectador, no entanto, isso tem intensificado graças aos tempos atuais em que o conteúdo é cada vez maior, tal qual a velocidade que nós tentamos digerir tudo isso. É só prestar atenção em você mesmo. Para os quatro cantos do mundo e da casa carregamos os nossos celulares aonde for, e num exercício involuntário o tiramos do sofá por mais interessante que seja a série, mesmo que seja pra inutilmente olhar a hora que a cinco minutos acabamos de ver ou esperando a mensagem que não chega. Somos marcados pela ansiedade. É uma osmose, um vício que não admitimos a nós mesmos ter. Sentimo-nos sem um braço ao sair de casa sem o celular e temos um ataque cardíaco ao não senti-lo em nosso bolso. Talvez a única vez que nos libertamos de tudo isso seja enquanto estamos dormindo, mas se o mundo não deixa de marcar presença em nossos sonhos, temos que estar com o celular ao lado para "sentir" sua existência. 

Tudo isso foi para dizer aonde "Deuses Americanos" gira, que é em torno do que idolatramos e dependemos. Nos tempos mais antigos idolatrávamos deuses para explicar o que não compreendíamos, agradecendo-lhes pelo que nos era proporcionado e clamando para eles nos protegerem contra o que não conseguíamos nos proteger: o medo. Estabelecia-se aí uma relação de troca, os deuses existiam assim que nos acreditávamos neles, e eles existindo passavam a residir no sentimento de gratidão que tínhamos por sobreviver por mais um dia. Hoje? Mal sabemos. Mas ao contrário de Laura não temos a chance de renascer pra dar valor à vida. Talvez a história dos deuses sirva pra isso.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários