Resenha Série: The Leftovers

domingo, junho 25, 2017


Cercados de incertezas, a única certeza que temos é a morte e talvez por isso há tanto fascínio e temor. Simultaneamente, uns tem o pavor do "invisível", já outros abraçam a única certeza esperando a paz que ela proporcione, ou celebrando uma vida bem vivida ou o puro arrependimento do que não se fez.

Independentemente da compreensão filosófica que se tenha sobre a morte, não deixa de ser uma certeza esse fim e isso nos conforta completamente. É como se fosse um livro. O que vem depois é puramente uma interpretação ou a vontade de aumentar a importância da nossa existência, mas o que importa é que "The Leftovers" aconteceu que essa dúvida invadiu a certeza. 140 milhões de pessoas, ou 2% da população mundial "partem", e além do natural espanto e desespero, há o abalo permanente de tudo em que se acredita.

O que acontece em "The Leftovers" sugere uma investigação, mas a série não é sobre os que foram, e sim sobre os que ficaram. A partir do momento em que entendemos isso, passamos a entender a história de David Lindelof e Tom Perrotta do ponto de vista que eles querem que nós compreendamos. A história se trata sobre perguntas e não respostas.

Em dado momento da série, os Remanescentes deixam de serem loucos para serem pessoas completamente quebradas. O final do mundo aconteceu para todos e nada mais ficará normal. O que eles fazem deixa de ser crueldade se tornando o puro desespero de pessoas marcadas por um eterno luto, o mundo chegou ao final e as quebrou totalmente. Se sentir solitário não é uma alternativa, é como um desrespeito. E aí percebemos que tanto como os Remanescentes Meg (Liv Tyler), Patti (Ann Dowd), como os habitantes de Mapleton, Kevin (Justin Theroux), Nora (Carrie Coon), Laurie (Amy Brenneman), Matt (Christopher Eccleston), precisam um dos outros pra tentar continuar em frente de alguma forma. Todos perderam. Se sentir só realmente não é uma opção nesse mundo que se acabou, e o que difere uns dos outros é o que se faz com a dor.


Desde os misteriosos Remanescentes que se negam em sentir a própria dor abrindo mão de tudo aquilo que há nas suas vidas, passando a usar branco e fumarem cigarros freneticamente num misto de desvalorização, auto-destruição e busca pela paz; até o misterioso Wayne que surge como um tipo de Messias que promete tirar a dor em um abraço. De Nora que escuta explicações científicas ridículas pra ir até o final pra ver se o coelho residia naquele buraco realmente, ou Kevin que vê a vida ruir para duvidar do que é real e do que não é, e de Matt que busca o divino pra se apoiar. A busca de todos após esse acontecimento é entender sua existência, ter um propósito, se sentirem seguros. Após essa partida repentina como se pode amar alguém? A partir daí como poderá ser o que se era?

Após esse acontecimento, a morte deixou de ser um fardo para se tornar uma certeza que conforta, aliás, enterrar alguém que se ama é mais do que uma experiência dolorosa, é um ritual necessário que simboliza o marco inicial da luta do prosseguimento normal da vida. A certeza nos conforta, o "se" nos corrói, e o sentimento dos habitantes de Mapleton e que tomou Jarden na segunda temporada é justamente esse.

Nesse círculo de luto, na discussão de fé, de existência, de propósito, na compreensão da coragem, força e de dor. A cada episódio muitas vezes não-linear e por diversas vezes incompreensível de uma serenidade sem tamanho, "The Leftovers" trouxe camadas e mais camadas de entendimento em um exercício de pura absorção, sem em nenhum momento usar do gancho especulativo de um drama e outro que tanto esperamos. "The Leftovers" se trata de aceitação, não de tentar se questionar o tempo todo do porque esses 2% se foram, mas sim entender que eles se foram. Na verdade, o que esses 2% fizeram vendo os outros 98% partirem?

Na conversa cara-a-cara aonde "The Leftovers" termina, Nora representa o espectador, aquele que como eu esperava lá no fundo algum tipo de explicação e não se conforma de que é só isso, a dor é o motor que provoca esse questionamento. Mas eles se foram, esse é o fato. E Nora aceitou, aceitou o lugar em que ainda podemos fazer alguma diferença, afinal, todos nós estamos nos sentindo sozinhos e desprotegidos, tanto os que partiram como aqueles que ficaram.

Ao final de seus 28 episódios em "The Book of Nora", com essa conversa entre Nora e Kevin, reencontrando-se após muitos anos procurando esquecer do que é impossível não lembrar, houve-se uma lição de persistência e esperança. O episódio foi o encerramento de tudo o que a história quis demonstrar.

Nora finalmente alcançou a paz, como Kevin, nos relembrando da importância que é estar vivos e de se amar de alguma forma, em um final simples e poético; sem perguntas, onde tudo e nada é respondido numa troca de olhar comovente entre o homem mais poderoso do mundo e a mulher mais corajosa desse mundo. Muito mais do que explicações de Nora sobre se tudo o que viu é real, queremos acreditar, como Kevin, pois simplesmente estamos ali para ouvir o que Nora tem a dizer. Diante ao que aconteceu, é preciso seguir em frente,

Em um final irretocável e emocionante de uma história que tratou-se sobre aceitação e superação onde cada personagem representou um pedaço do caos em que o mundo se tornou. Numa conclusão tão impactante quanto o começo, "The Leftovers" mostrou-se uma história poderosa o suficiente para transformar a "partida repentina" irrelevante aos olhos de quem assiste, em que para entendê-la, é preciso muito mais de sentimento do que anseio.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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