Resenha Livro: O Homem Que Caiu Na Terra (Walter Tevis)

sexta-feira, julho 21, 2017


“Há um homem das estrelas esperando no céu, ele gostaria de vir e encontrar-nos, mas ele acha que nos espantaria” 

 Starman, David Bowie

O "Homem que Caiu Na Terra" conta a história de um viajante espacial vindo do planeta Anthea para a Terra. A princípio seus objetivos não são tão claros, mas ele foi enviado para cá com o objetivo de enriquecer o mais rápido possível e estudar a humanidade para ser um possível lar para o seu povo.

Como o livro foi escrito na década de 60, o clima da Guerra Fria percorre as páginas e a a sensação da descrença e da desesperança são expressas constantemente, seja por Thomas Newton Jerome (o nome terráqueo para o antheano), seja para o químico Nathan Bryce, ou para a quarentona caipira viciada em Gim, Betty Jo; a sensação que a história passa é que cada um à sua maneira está alheio ao tempo. Falta o gosto, falta alma, falta sentido; e quanto mais Newton se vê se aproximando de seu objetivo de construir uma nave para resgatar os 300 habitantes restantes da inóspita Anthea que foi dizimada graças a seguidas guerras, a sensação que Newton tem é de tão próximo estar mas tão distante querer estar.

"...eu estava com medo de você. Estou com medo agora. Tenho estado com medo de todos os tipos de coisas o tempo todo. Fui exaurido neste planeta, neste planeta monstruoso, lindo e aterrorizante com todas as suas criaturas estranhas e sua água abundante, e todos os seus humanos. Terei medo de morrer aqui."

Enviado para a Terra após anos de estudos e pela sua semelhança mais próxima com os humanos, Newton absorve a humanidade e a humanidade o absorve com todas os seus grandes pesares. Para ele, vislumbrar o futuro da terra é ver no que Anthea se transformou e questionar o porque estar ali e para que realmente. Salvar a humanidade de si mesma como e para quê se dar a essa "trabalho"? 

Após tanto tempo ele é um homem sem identidade que não se vê nem terráqueo e nem antheano à medida que seus sentimentos existenciais afloram e ele não se vê tão diferente da humanidade nesse sentido. A dor e a solidão são escondidas atrás de um "disfarce", aliás:

"...não é preciso ser de Marte para se sentir sozinho"

Assim ele se entrega ao Gim que Betty Jo lhe ofereceu assim que os dois se conheceram e nela viu um pouco de si mesmo, revelou a verdade a Nathan Bryce para atenuar a solidão que seu segredo causava, foi preso e foi cegado como se tivesse absorvido seu disfarce quando não conseguia tirar suas lentes. No final, Newton não vê mais nada, transformou-se em alguém sem esperança com todos os medos e fraquezas que o tempo e o homem puderam lhe proporcionar.



Livro curto, história direta, numa das obras mais realistas e equilibradas da ficção científica alertando quem lê do que ainda pode acontecer se não cuidarmos bem do planeta, para que as futuras gerações não sejam transformadas em antheanos que atravessaram a galáxia procurando um lugar para viver. Leitura deliciosa com um tratamento gráfico da Darkside que Tevis ficaria orgulhoso. 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários