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Cara, como Rick and Morty é f#$@ pra ca*****!

terça-feira, agosto 22, 2017


Salvador Dalí deu início ao que conhecemos como surrealismo nos anos 40 como o ato contra a automatização que o mundo sofria, mas somente na última década experimentamos isso mais profundamente nos desenhos animados.

Se o drama da geração de nossos avós era a guerra e dos nossos pais a inflação, hoje em dia temos a falta do wi-fi para nos assombrar diariamente. O surrealismo foi criado em cima de um protesto contra a realidade, e hoje ele serve para explorar a auto-negação de uma realidade que queremos esquecer, e é por isso qualquer pessoa que vê o surrealismo através das épocas acha maravilhoso e intrigante; é atemporal. Como efeito direto, se o Pica-Pau representou tudo o que era de mais anarquista até certo ponto, hoje desenhos como "Apenas Um Show", "Hora de Aventura" e "Rick and Morty" servem pra levar a imaginação ainda mais longe e por trás de tudo isso - especialmente no último caso - acabam tratando de temas filosóficos e conflitos modernos de um modo sutil.

Se a paz entre os mundos para Rick é mostrar o dedo no meio - talvez para demonstrar toda a desilusão que qualquer sociedade lhe provoca -, o episódio "Something Ricked This Way Comes" (S01E09) vai além da simples paródia em cima do nome de um álbum do Iced Earth e de um livro de Ray Bradbury, exemplifica muito bem os tempos atuais em que a tradução do título que é como, "algo maléfico virá em nossa direção", serve como alerta contra o orgulho de ser idiota. 

Plutão é um planeta ou não é? Para Jerry é, e ele vira uma celebridade instantânea em Plutão por dizer justamente o que todos os habitantes daquele planeta querem ouvir. Hoje importa o que EU acho, e se alguém ligado a ciência também diz isso, mesmo que seja aquele 1%, melhor ainda; e as pesquisas que ora dizem que o ovo é bom e ora é ruim pra alimentação meio que sem querer validam essa descrença em cima da ciência, popularmente conhecida como sempre "certa" de tudo. Afinal, o que é mesmo a relutância ao aquecimento global né? É melhor crer no que se quer ouvir, pois talvez alguém algum dia prove o contrário e demonstre que "eu tinha razão".

Ainda sobre a primeira temporada, é só observar a discussão de Jerry e Beth sobre a gravidez indesejada de Summer no episódio "Rixty Minutes" (S01E08), em que enquanto a gente ri das inesquecíveis portas falsas nos comerciais da TV a cabo interdimensional, acaba se esquecendo desse "se" que a gente sempre especula e imagina que seria melhor. É o ponto que até os pais coadjuvantes de Morty ganham a profundidade suficiente pra ganhar o protagonismo que viria na temporada seguinte. E é nela que Rick and Morty me conquistaram de vez, elevando-se de um desenho esperto e desbocado pra um roteiro que... continua desbocado, mas também extremamente conciso. 


Aqui os episódios aumentam a sua relação e discutem tudo com bom humor e muita surrealidade que Dalí adoraria. Começando de forma inocente por "A Rickle In Time" (S02E01) utilizando a dúvida pra explicar os universos quânticos enquanto gatinhos de Schrödinger flutuam, passando pela religião como o "cabecismo" em "Get Schwifty" (S02E05) em um imaginação bem sacada sobre como seria se deus fosse real e toda nossa maluquice, passando pelo cíclico desejo microscópico de criar uma sociedade perfeita em "The Ricks Must Be Crazy" (S02E06), até ao ponto que isso pouco adianta em "Look Who's Purging Now" (S02E09), onde somos apresentados a um planeta onde se expurga os instintos mais primitivos em um dia de livre matança em favor da prosperidade num "pão e circo" (dos mais ricos, claro).

Quando paramos pra assistir a qualquer série, ela nos conquista a partir do ponto em que cria a identificação. Saca o desejo de ser "aquele personagem"? Rick and Morty, assim, ganha o espectador através da empatia; e não é só porque ela explora incansavelmente as referências da cultura pop - se você ligou a abertura com Doctor Who, e Rick e Morty a Doc e Marty McFly, acertou. Em Rick and Morty todos querem ser Rick, o cara genial que não está nem aí e salva o dia, mas são na verdade o Morty, o moleque burro. E todos querem ser Morty pra viajar entre os mundos na fuga dos seus pais chatos e na companhia de seu avô legal, mas são Rick, desiludidos com a humanidade e beberrões para tentar fugir de seus problemas.

No uso do surrealismo na defesa contra a negação da ciência e de todo o resto do bom senso em pleno 2017, Rick and Morty não é apenas um desenho desbocado e sem sentido, é uma voz extremamente inteligente no eco do absurdo. Assista!

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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