Como Game of Thrones faz a televisão não ser mais a mesma

terça-feira, agosto 01, 2017

"Baelor" (S01E09)
Muito se discute da forma correta de consumir séries. Eu acredito que seja pessoal a cada um, assim como sua percepção sobre o que assiste o é por si só. Então nas últimas semanas me ausentei do Descafeinado e de praticamente tudo, foi uma verdadeira saga, 60 episódios nesse meio tempo (mais do que isso contando a 7º temporada em andamento) e agora com toda graça, percebi Game of Thrones e sua imponência diante ao que compreendemos sobre televisão e entretenimento.

Elogiar Game of Thrones é redundância pelo o que já foi falado sobre a série nos blogs e sites ai a fora. Além da obra de George R.R. Martin beber da fonte de Tolkien e seu Senhor dos Anéis na construção de sua evidente grandeza, ao assistir a série logo é visível sua singularidade diante a Tolkien e a tudo o que já foi escrito impondo um realismo tão digno quanto cruel. É como se Martin tivesse focado nos reinos indo além da fantasia; a Guerra dos Tronos nesse quesito se encontra com a Saga do Anel de Tolkien, o complemento da Terra Média com a Idade Média. A política e a crueldade do ser humano pelo poder andam de mãos dadas, e essas mãos nunca foi tão bem retratadas.

"Blackwater" (S02E09)
Bom, aquele (um) leitor fiel do Descafeinado deve ter percebido a tempos: como em um blog que fala tanto de séries e filmes, nunca se falou aqui de Game of Thrones? Sim, citações foram feitas aqui e acolá sobre a breve e justa duração de sua temporada que deveria ser aplicada às demais séries, um tratamento que deveria sobrepor a busca por audiência prezando seu roteiro, mas como esse é um modelo da HBO então acredito que nem conte muito. Portanto, a verdade sobre é: não tinha visto Game of Thrones, nenhum episódio que seja.

Passei por Breaking Bad, Orphan Black e recentemente vi The Leftovers, meu gosto se desenvolveu e apenas ver zumbis com cabeças esmagadas me assombrando com maquiagens não me satisfaz mais apesar de despertar admiração, assim como ver um show do Metallica não é prioridade de vida. Foi ai que percebi que devia passar a assistir Game of Thrones com atenção.

Antes eu tinha indisposição? Não sei, acho que preguiça mesmo, já que quando eu comecei a me dedicar mais as séries e a Netflix veio ao mundo, Game of Thrones já estava na sua 4ª temporada... Enfim, me arrependo de não ter me iniciado no mundo da séries com ela, na época a escolhida foi com The Walking Dead. Sabe, zumbis, tripas, ação... é uma história mais simples de se digerir. Mas como todo início em algo, vêm logo os questionamentos e assim me desprendi totalmente de TWD, a ponto de criar uma certa repulsa.

"The Rains of Castamere" (S03E09)
É chato eu sei, mas as duas séries são um parâmetro bem atual para definição de séries que desenvolvem tramas paralelas, sobre isso, talvez Greg Nicotero tenha muito a aprender com David Benioff.

A gama de personagens é enorme a ponto de confundir o espectador mas todas se convergem em um só ponto. Sempre. Todas se desenvolvem ao mesmo tempo e nenhum episódio até aqui é aquele episódio aonde percebemos que foi feito para prender a audiência por mais uma semana. E tão quanto todos estão salvando sua pele e seu poder conquistado, a sensação de urgência é causada pela implacabilidade dos dedos de George R.R. Martin com seus personagens.

Todos ali que sobraram até o momento na 7ª temporada são sobreviventes como Sandor Clegane (Rory McCann) e como se auto-intitula Tyrion Lannister (Peter Dinklage), por exemplo. Um verdadeiro "culhão" do autor em matar personagens favoritos que "quebra" o espectador totalmente, me deixando atordoado torcendo para a sobrevivência daquele que me afeiçoei.

"Hardhome" (S05E08)

Não, não é a carnificina que atrai, mas a morte de um personagem querido é um motor que renova a série adicionando aquela curiosidade e imprevisibilidade a qualquer história, um caráter de naturalidade a um tempo retratado que na verdade seria justamente isso: sobrevivência. George R.R. Martin provoca respeito e reverência. Talvez TWD e outras séries que se utilizem da mesma mecânica devam se espelhar nisso já que a justificativa de preservar personagens para agradar a audiência se provou um mito, principalmente ela que se iniciou praticamente na mesma época. Glenn (Steven Yeun) morreu porque foi escolhido pra isso, não porque TWD se passa em um mundo pós-apocalíptico que seria natural a sensação de insegurança com a própria vida. Quando Negan (Jeffrey Dean Morgan) todos disseram "agora vai" quando seu taco balançava de um lado pro outro. No máximo saiu um nhé.

Outro ponto crucial em Game of Thrones para definir o tamanho da série e o quanto ela é fundamental para a construção de uma série, assim como ajudou a elevar ainda mais o patamar do que é HBO, são seus episódios. Quando a série é realmente boa, digna do panteão das grandes produções da televisão, memorizamos o nome de seus episódios mais impactantes; como "Ozymandias" e "Felina" em Breaking Bad ou "The Book of Nora" em The Leftovers.

"The Door" (S05E09)

Aqui no caso são inúmeros, de certa forma sempre no episódio 09 em que o coração costuma apertar de verdade, como na morte de Ned Stark em "Baelor", na histórica reviravolta em "The Rains of Castamere" ou o Casamento Vermelho, na comemorada "The Lion and the Rose", na emocionante "The Door", e nas épicas batalhas de "Blackwater", "The Watchers of Wall", "Hardhome" e "Battle of Bastards" - essa última beirando o absurdo e a perfeição desde Daenerys (Emília Clarke) cortar os céus de Mereen com seus filhos até o silêncio absoluto de seu final, sendo o mais caro episódio da série e responsável pelo maior espetáculo televisivo em que pudemos ver nos últimos tempos no esperado confronto entre Jon Snow (Kit Harington) e Ramsey Bolton (Iwan Rheon), com 4 equipes de filmagem diferentes, perdurando por 25 dias e ocupando 500 figurantes e 70 cavalos. Uma ópera de sangue nunca antes vista, matando qualquer dúvida que alguém poderia ter sobre a qualidade da série, elevando-a tranquilamente ao patamar das melhores produções Hollywoodianas dos últimos anos.

"Battle of Bastards" (06E09)

Se eu fosse definir Game of Thrones em uma palavra, seria: imprevisibilidade.

Contando com personagens bem desenvolvidos, numerosos, cidades bem características (as peças do tabuleiro de Westeros) e conseguindo continuar magistralmente os livros de George R.R. Martin (quando esta ultrapassou a 5º temporada), a sensação que as múltiplas tramas, traições e reviravoltas entre os personagens, capazes de despertar o maior carinho como Hodor (Kristian Naim) e desprezo como Joffrey Baratheon (Jack Gleeson), são da mais perfeita imprevisibilidade. Até quando todos estarão ali? O que eles farão pra sobreviver? Aliás, o vencedor não ser o vencedor desde o início é o que a série dá de melhor, é só acompanhar agora a 7º temporada pra entender bem o que estou falando.

Como bem disse o traiçoeiro Mindinho, vulgo Lorde Petyr Baelish (Aiden Gillen) em um conselho para Sansa Stark (Sophie Turner) em "The Queen's Justice" (S07E03) sintetizando praticamente GOT inteira na minha cabeça:


"Todos são seus inimigos, todos são seus amigos. Todas as possíveis séries de eventos estão acontecendo ao mesmo tempo"

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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