Empoderamento feminino é clichê? Certeza?

sexta-feira, agosto 04, 2017


Não sejamos hipócritas, a publicidade é o maior motor do capitalismo e ela manipula o público para este criar um desejo de compra. Sempre será assim. Só que como qualquer profissão que mexe diretamente com o público, a publicidade tem uma responsabilidade enorme no que diz e quer dizer. 

"O target do Porsche é 100% dos homens. Mas por que Porsche 'é melhor do que mulher que, diga-se de passagem, é excelente'? É como um teorema, há uma comprovação".

Nos últimos anos, com o acesso massificado do público a informação, o papel do público tem sido maior em desconstruir certos costumes em favor do alerta de certos preconceitos que estão contidos nesse discurso. Porém, esse mesmo acesso foi o responsável por criarmos o que chamamos de pós-verdade, que nada mais é do que elevar a sua própria opinião contra fatos e argumentos alheios, como questionar se a Terra é redonda (sic). Ao mesmo tempo em que o encorajamento de questionar é cada vez mais um costume, esse mesmo caminho acaba "dando um livre discurso" para aquelas pessoas que se acham super cultas por duvidar do que já foi comprovado com todas as letras e anos de observação.

Essa pós-verdade cria o movimento de encorajamento na massa, revelando a falácia da união dos povos quando essa maioria está pouco se fodendo com o outro, quer dizer, valida o movimento de desrespeito as minorias, com a justificativa de que elas mesmas se segregam e provocam o preconceito por supostamente não aceitarem ser tratadas igualmente. Em suma, o "todos somos um" vira meio para transformar o ativismo feminista, o negro e gay como puro vitimismo e o politicamente correto como chato, numa interpretação da democracia como desculpa para todos falarem o que quiserem livremente sem pensar nas consequências alheias.

"Outra coisa insuportável que a publicidade cria ciclicamente, que a sociedade cria, são clichês constrangedores do tipo "pensar fora da caixa", "quebrar paradigmas", "desconstruir", agora o "empoderamento feminino". Que são todos primos-irmãos de um baixo nível intelectual, são primos-irmãos do "beijo no seu coração". A gente tem que fugir desses clichês."

Daí voltamos para a publicidade. Observando a constrangedora entrevista do Olivetto em que ele diz que o "empoderamento feminino" é um clichê, contradiz não só o que é a publicidade que é vista de fora como formadora de "pessoas antenadas e descoladas que tem uma visão super ampla sobre o mundo e a sociedade", como formador de opinião que ele é e alguém que no fundo sabe que para "pensar fora da caixa" é necessário sim conhecer seu público. Essa entrevista soa como tiro no pé ao ele não perceber que discursos, sejam supostamente vazios ou não, devem ser levados em conta sim. Se esse discurso existe, é porque tem sua importância e deve ser respeitado.

"Anos atrás fizemos um comercial do (protetor solar) Coppertone, mostrando um cara que só usava Coppertone. Ele estava com a mulher na praia e ela tinha esquecido de comprar o protetor. De repente, vinha um gordo, muito gordo, passando Coppertone no corpo. (O homem) saia correndo, gritando 'Alfredo', abraçava (o homem gordo) e se esfregava nele. E, na verdade, eles não se conheciam. Era só uma adorável brincadeira. Mas se a gente fosse pensar 'ah, mas os gordos do Brasil vão ficar chateados, vamos fazer com um magro', ia ficar sem graça."

Se o tal politicamente correto é chato, devemos agradecer aos chatos. Se julga-se como bom humor ser "incorreto", já eu acredito que é perfeitamente possível ser bem humorado de outra forma sem necessariamente deixar um nicho ofendido. Publicidade não é apoiada na criatividade?

Se a publicidade basicamente trabalha para o lucro, em grande parte despertando desejos por coisas que na maioria do tempo não precisamos; ela como meio de comunicação direta que é tem implícita a responsabilidade social de informar e se transformar juntamente com os movimentos da sociedade, encorajando a seus consumidores a pensar diferente e não somente manter tais preconceitos arraigados como se fosse a verdade absoluta que deve ser mantida porque faz o mundo ser mundo.

"A única maneira de você criar gente bacana, do bem, é as pessoas terem acesso a diversos tipos de informação e depois elegerem a que preferem. É a mesma (lógica) de quando surgiu o controle remoto. Falavam para mim: 'como vocês vão fazer agora que as pessoas podem mudar de canal?'. Eu respondia 'gente, antes de ter um controle remoto na mão, as pessoas têm na cabeça. Se não querem (ver), desligam a cabeça, não prestam atenção'."

Como qualquer profissão, tem-se as referências. Aquele profissional em que você se espelha e diz: "eu quero ser esse cara", natural, pra tudo na vida temos uma referência do que é ser melhor. Confesso que nunca olhei para o Olivetto e pensei assim, porém o via como um grande publicitário.

Com meus 28 anos olho para as referências publicitária e vejo algo que devo me basear, mas com a maturidade de perceber que aquilo não deve ser tomada em nenhum momento como regra; principalmente por ver dinossauros como Washington Olivetto preferirem desprezar a massiva participação do público em um meio que cujo próprio sempre mandou, preferindo colocar sua profissão acima de diversos bom sensos do mundo atual como se fosse aquele profissional que não precisa provar mais nada pra ninguém.

Por exemplo, enchendo o seu ego por ver sua propaganda oitentista premiada da Valisere sendo tomada como referência, onde que nos tempos atuais seria vista como é: uma menina recém saída da puberdade encarando um monte de macho olhando para os seus peitos tratando aquilo como o verdadeiro empoderamento feminino. 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários